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sábado, 24 de março de 2012

Orides Fontela













"Coruja"

Vôo onde ninguém mais - vivo em luz
                                                mínima
ouço o mínimo arfar - farejo o
                                         sangue


e capturo
a presa
em pleno escuro.


terça-feira, 13 de setembro de 2011

Orides Fontela












"Homenagem" II

Mário Quintana

Exorcizar os ventos
anular as estátuas
recuperar os anjos
- instaurar a alegria.

Para instaurar jardins:
desencantar as fadas
dissolver os rochedos
devorar as esfinges.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Orides Fontela, "Cisne"

Humanizar o cisne
é violentá-lo. Mas
também quem nos dirá
o arisco esplendor
– a presença do cisne?

Como dizê-lo? Densa
a palavra fere
o branco
expulsa a presença e – humana –
é esplendor memória
                                            e sangue.

                                            E
                                            resta
não o cisne: a
                                            palavra

– a palavra mesmo
                                            cisne.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Orides Fontela









"Poema"

Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.

Saber seu peso
seu signo
– habitar sua estrela
    impiedosa.

Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.

Saber de cor o silêncio

– e profaná-lo, dissolvê-lo
                              em palavras.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Orides Fontela, "Desafio"

Contra as flores que vivo
contra os limites
contra a aparência a atenção pura
constrói um campo sem mais jardim
que a essência.

domingo, 11 de outubro de 2009

Orides Fontela, "Destruição"

A coisa contra a coisa:
a inútil crueldade
da análise. O cruel
saber que despedaça
o ser sabido.

A vida contra a coisa:
a violentação
da forma, recriando-a
em sínteses humanas
sábias e inúteis.

A vida contra a vida:
a estéril crueldade
da luz que se consome
desintegrando a essência
inutilmente.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Orides Fontela



"Elegia I"

Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?

O que era vôo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico

O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que

o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —

mas para que serve o pássaro?

O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Orides Fontela, "Fala"

Falo de agrestes
pássaros                         de sóis
     que não se apagam
     de inamovíveis
     pedras

     de sangue
     vivo             de estrelas
     que não cessam.

     Falo do que impede
     o sono.

sábado, 25 de julho de 2009

Orides Fontela









"Fala"

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será.
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)