Mostrando postagens com marcador Antero de Quental. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antero de Quental. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Antero de Quental, "Mais luz!"
Amem as noites os magros crapulosos,
E os que sonham com virgens impossíveis,
E os que se inclinam, mudos e imapassíveis,
À borda doa abismos silênciosos...
Tu, Lua, com teus raios vaporosos,
Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,
Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis
Como a tarde rumorosa e repousada.
Eu amarei a santa madrugada,
E o meio-dia, em vida refervendo,
E a tarde rumorosa e repousada.
Viva e trabalhe em plena luz: depois,
Seja-me dado ainda ver, morrendo,
O claro Sol, amigo dos heróis!
sábado, 28 de outubro de 2017
Antero de Quental, "Tese e antítese"
I
Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspeto, à luz da barricada,
Como bacante após lúbrica ceia!
Sanguinolento o olhar se lhe incendeia…
Respira fumo e fogo embriagada…
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!
Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obus...
Mas a ideia é num mundo inalterável,
Num cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!
I I
Num céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espetáculo divino.
Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante…
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...
A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!
Combatei pois na terra árida e bruta,
‘Té que a revolva o remoinhar da luta,
‘Té que a fecunde o sangue dos heróis!
Já não sei o que vale a nova ideia,
Quando a vejo nas ruas desgrenhada,
Torva no aspeto, à luz da barricada,
Como bacante após lúbrica ceia!
Sanguinolento o olhar se lhe incendeia…
Respira fumo e fogo embriagada…
A deusa de alma vasta e sossegada
Ei-la presa das fúrias de Medeia!
Um século irritado e truculento
Chama à epilepsia pensamento,
Verbo ao estampido de pelouro e obus...
Mas a ideia é num mundo inalterável,
Num cristalino céu, que vive estável...
Tu, pensamento, não és fogo, és luz!
I I
Num céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espetáculo divino.
Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante…
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...
A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!
Combatei pois na terra árida e bruta,
‘Té que a revolva o remoinhar da luta,
‘Té que a fecunde o sangue dos heróis!
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Antero de Quental, "Palavras de um certo morto"
Há mil anos, e mais, que aqui estou morto,
Posto sobre um rochedo à chuva e ao vento:
Não há como eu espectro macilento,
Nem mais disforme que eu nenhum aborto...
Só o espírito vive: vela absorto
Num fixo, inexorável pensamento:
"Morto, enterrado em vida!" o meu tormento
É isto só... do resto não me importo...
Que vivi sei-o eu bem... mas foi um dia,
Um dia só — no outro, a Idolatria
Deu-me um altar e um culto... ai! adoraram-me,
Como se eu fosse alguém! como se a Vida
Pudesse ser alguém! — logo em seguida
Disseram que era um Deus... e amortalharam-me!
quinta-feira, 6 de julho de 2017
Antero de Quental, "1º dos poemas do 'Elogio da Morte'"
Morrer é ser iniciado
(Antologia grega)
Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acordo em susto.
Como se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.
Não que de larvas me povoe a mente
Esse vácuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a razão por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo...
Nem fantasmas nocturnos visionários,
Nem desfilar de espectros mortuários,
Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte...
Nada! o fundo dum poço, húmido e morno,
Um muro de silêncio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcrais da Morte.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Antero de Quental
"Anima Mea"*
Estava a Morte ali, em pé, diante,
Sim, diante de mim, como serpente
Que dormisse na estrada e de repente
Se erguesse sob os pés do caminhante.
Era de ver a fúnebre bachante!
Que torvo olhar! que gesto de demente!
E eu disse-lhe: «Que buscas, impudente,
Loba faminta, pelo mundo errante?»
— Não temas, respondeu (e uma ironia
Sinistramente estranha, atroz e calma,
Lhe torceu cruelmente a boca fria).
Eu não busco o teu corpo... Era um troféu
Glorioso de mais... Busco a tua alma —
Respondi-lhe: «A minha alma já morreu!»
"Anima mea" - em latim, "Alma minha"
segunda-feira, 18 de julho de 2016
Antero de Quental
"Palavras dum certo morto"
Há mil anos, e mais, que aqui estou
morto,
Posto sobre um rochedo, à chuva e
ao vento:
Não há como eu espectro macilento,
Nem mais disforme que eu nenhum
aborto...
Só o espírito vive: vela absorto
N'um fixo, inexorável pensamento:
«Morto, enterrado em vida!» o meu
tormento
É isto só... do resto não me
importo...
Que vivi sei-o eu bem... mas foi um
dia,
Um dia só — no outro, a Idolatria
Deu-me um altar e um culto... ai!
adoraram-me.
Como se eu fosse alguém! como se a
Vida
Pudesse ser alguém! — logo em
seguida
Disseram que era um Deus... e
amortalharam-me!
quarta-feira, 29 de julho de 2015
Antero de Quental, "Tormento do ideal"
Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre;
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr-do-sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o batismo dos poetas,
E assentado entre as formas incompletasPara sempre fiquei pálido e triste.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Antero de Quental, "Divina Comédia"
Erguendo os braços para o Céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: - «Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,
Porque é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
Num turbilhão cruel e delirante...
Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?
Porque é que para a dor nos evocastes?»
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: - «Homens! porque é que nos criastes?!»
Assinar:
Postagens (Atom)

