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terça-feira, 12 de junho de 2018
Eugénio de Andrade, "Melancolia"
O sol mal entra em casa - escrevo
sobre a fugidia
luz de areia,
luz que não encontra morada.
Tudo me dói neste dia
em que os mortos deixam à porta
dos vivos
a corrosiva melancolia.
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segunda-feira, 23 de abril de 2018
Eugénio de Andrade, "Com o mar"
Trago o mar todo na cabeça
daquele modo que as mulheres novas
dão de mamar aos filhos:
o que me não deixa dormir
não é o marulho das suas vagas,
são essas vozes
que na rua se levantam a sangrar
para voltarem a cair,
e rastejando
vêm morrer à minha porta.
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sexta-feira, 6 de abril de 2018
Eugénio de Andrade, "Lisboa"
Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. Tu sabias?
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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018
Eugénio de Andrade, "O desejo"
O desejo, o aéreo e luminoso
e magoado desejo latia ainda;
não sei bem em que lugar
do corpo em declínio mas latia;
bastava abrir os olhos para ouvir
o nasalado ardor da sua voz:
era a manhã trepando às dunas,
era o céu de cal onde o sul começa,
era por fim o mar à porta – o mar,
o mar, pois só o mar cantava assim.
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domingo, 21 de janeiro de 2018
Eugénio de Andrade, "As Palavras Interditas"
Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.
Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.
Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.
Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
Eugénio de Andrade, "Enquanto escrevia, uma árvore..."
Enquanto escrevia, uma árvore começou a penetrar-me lentamente a mão direita. A noite chegava com seus antiquíssimos mantos; a árvore ia crescendo, escolhendo para domínio as águas mais espessas do meu corpo. Era realmente eu, este homem sem desejos de outro corpo estendido ao lado? Já não me lembro, passava os dias a dormir à sombra daquela árvore, era o último verão. Às vezes sentia passar o vento, e pedia apenas uma pátria, uma pátria pequena e limpa como a palma da mão. Isso pedia; como se tivesse sede.
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domingo, 17 de setembro de 2017
Eugénio de Andrade, "Pequena elegia de setembro"
Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
Eugénio de Andrade, "Não sei"
Não sei porque diabo escolheste
janeiro para morrer: a terra
está tão fria.
É muito tarde para as lentas
narrativas do coração,
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.
Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal. Paciência,
querido, também Mozart morreu.
Só a morte é imortal.
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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
Eugénio de Andrade
"Soneto menor à chegada do verão"
Eis como o verão
Chega de súbito,
Com seus potros fulvos,
Seus dentes miúdos,
Seus múltiplos, longos
Corredores de cal,
As paredes nuas,
A luz de metal,
Seu dardo mais puro
Cravado na terra,
Cobras que despertam
No silêncio duro –
Eis como o verão
Entra no poema.
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terça-feira, 22 de novembro de 2016
Eugénio de Andrade, " Aproxima-te..."
Aproxima-te, põe o ouvido na minha boca,
vou dizer-te um segredo,
está um homem com a noite deitado
nas areias, separado doutro homem
por um grito, ninguém o ouve,
o sol há tanto tempo apodrecido.
Não sei se espera a manhã
para partir ou vai ficar
com os cardos nas dunas, os olhos cheios
de ignorância e de bondade,
exposto
assim à calúnia, à ventania.
Como se fora um cão, menos ainda.
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domingo, 2 de outubro de 2016
Eugénio de Andrade, "Nocturno de Lisboa"
Pela noite adiante, com a morte na algibeira,
cada homem procura um rio para dormir,
e com os pés na lua ou num grão de areia
enrola-se no sono que lhe quer fugir.
Cada sonho morre às mãos doutro sonho.
Dez-réis de amor foram gastos a esperar.
O céu que nos promete um anjo bêbado
é um colchão sujo num quinto andar.
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sábado, 23 de julho de 2016
Eugénio de Andrade, "De noite..."
De noite eram barcos, de manhã são aves:
entram cantando pela casa.
Juntos vão pelos dias como irmãos
gémeos, dependentes
uns dos outros como estrelas
da mesma constelação.
Cada viagem já foi voluptuosa
descoberta de emoções
de porto em porto; agora
é só o gosto inteligente
de regressar à pequena praça
de muros caiados, à casa
onde o corpo se reconheceu noutro corpo,
fiéis a esta luz, este mar.
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terça-feira, 14 de junho de 2016
António Machado, "Senhor, já me tiraste o que eu mais queria..."
Senhor, já me tiraste o que eu mais queria.
Ouve outra vez, Senhor, o meu coração clamar.
Fez-se a tua vontade, meu Deus, contra a minha.
Senhor, já estamos sós meu coração e o mar.
Tradução de Eugénio de Andrade.
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Eugénio de Andrade, "Arima"
Uma gaivota - dizes.
Sim, uma gaivota
passa distante, e arde.
O teu rosto é azul,
e contudo está cheio
de oiro da tarde.
Uma gaivota.
Alma do mar e tua,
abandona-se à luz.
E na boca nem eu sei
se me nasce o coração,
ou se é a lua.
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sábado, 29 de novembro de 2014
Eugénio de Andrade
"Com um verso da ceifeira"
Escrevo para fazer da luz
velha dos corvos
o limiar doutro verão.
Nenhuma sombra por mais nefasta
perturba o meu olhar:
tenho quinze anos, ao espaço
quadrado do pátio
regressa o canto das cigarras.
Com o sol à roda da cintura
o corpo deixa de ser hesitação,
corre ao encontro da água
ou doutro corpo, e canta,
canta sem razão.
Eugênio de Andrade refere-se poema "Ela canta, pobre ceifeira" de Fernando Pessoa, postado ontem.
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sábado, 11 de outubro de 2014
Eugénio de Andrade, "Cala-te..."
Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não comtempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra dorme.
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sábado, 30 de agosto de 2014
Eugénio de Andrade, "Coração habitado"
Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
decoração alegre e povoado.
Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.
Alguns pensam que são as mãos de deus
- eu sei que são as mãos de um homem,
trêmulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.
Não lhes toquem: são amor e bondade.
mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Eugénio de Andrade, "Os trabalhos e os dias"
Começo a dar-me conta: a mão
que escreve os versos
envelheceu. Deixou de amar as areias
das dunas, as tardes de chuva
miúda, o orvalho matinal
dos cardos. Prefere agora as sílabas
da sua aflição.
Sempre trabalhou mais que sua irmã,
um pouco mimada, um pouco
preguiçosa, mais bonita.
A si coube sempre
a tarefa mais dura, semear, colher,
coser, esfregar. mas também
acariciar, é certo. A exigência,
o rigor, acabaram por fatiga-la.
O fim não pode tardar. Oxalá
tenha em conta a sua nobreza.
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domingo, 24 de novembro de 2013
Eugénio de Andrade, "Matéria nobre"
Pode ouvir-se ainda o seu
bater contra o peito.
Há tantos, tantos anos exposto
à violência da luz do meio
dia. Quase amargo, quase
doce. Só a paixão o rouba
à morte, o impede de ser
panela esburacada
onde o vento assobia.
Ou pior, coisa viscosa, mole,
inerme. Coração,
matéria nobre.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Eugénio de Andrade, "Os perigos do verão"
Era o verão, o seu desassossego.
Era o desejo,
o desejo rompendo da sombra
sem caminho, e doía.
Era o ardor, o mais diáfano
irmão da melancolia.
era o amor, o espanto
do amor, desarmado
e sem abrigo.
era o deserto, o deserto à porta;
e fervia.
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