Mostrando postagens com marcador António Botto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador António Botto. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de fevereiro de 2013

António Botto, "Homem que vens ..."


Homem que vens de humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo sabes e que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras;

Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras -
E na ambição das coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;

Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te dás à virtude e ao pecado.
Que te exaltas e cantas e aborreces,

Arquiteto do sonho e da ilusão
Ridículo fantoche articulado
- Eu sou teu camarada e teu irmão. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

António Botto




"Querer-te mal, por que ?"

Querer-te mal, por que ? - Foste quem eras:
Um corpo gentilíssimo, perfeito,
Que se amoldava ao meu e a qualquer jeito
No pântano de todas as quimeras.

Que culpa tinhas tu se ainda esperas
O lugar prometido aqui no peito
E sais da minha vida e do meu leito
Com a simplicidade que trouxeras?

A culpa tenho-a eu que fui um triste
A desejar no alto do meu sonho
Beijar a perfeição que não existe.

Fui esta coisa inútil, complicada,
- Não me encontrando aonde me suponho
E encontrando-me aonde não há nada.


sexta-feira, 16 de março de 2012

António Botto, "Ouve, meu anjo"


Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

António Botto, "Canção"

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda -
Para outro momento.
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro. . .

A névoa da noite cai.
Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos, - És lindo!

A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos, apenas!,
- Que mais precisamos nós?