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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Ildásio Tavares, "Soneto dominical"

 
Já não me aflige mais a pasmaceira
do domingo. Meus filhos mundo afora
e eu em casa pensando. A vida inteira
ensina-me a ser só. Não é agora

que eu hei de reclamar. Segunda-feira
há de chegar. Há de chegar a hora
em que se apague a chama derradeira;
em que a vida me diga: vá-se embora.

Tudo tão natural. A árvore morta
já não abriga pássaros nos ramos
que, pouco a pouco, vão caindo ao chão.
 
Amei mal as mulheres. Mais amamos
nós mesmos, nosso ofício. Pouco importa
a vida; este domingo; a solidão.
 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Anônimo, "Há um resto ..."



No dia 03.01.2011, postei um poema - Restos - do Ildásio Tavares, um poeta baiano  falecido em Salvador, em  31 de outubro de 2010 (que na época eu desconhecia).

Ontem, um anônimo fez no post um comentário que conversa com o poema :


Anonimo - Jan 24, 2012 04:11 PM

Há um Resto de Ildásio em todos nós
Que nos sufoca em vã saudade.
Ir-se embora tão de repente, isso não se faz...
Deixou-nos órfãos e assim se fez.
Deixando tanto por terminar.
Deixando a vida... sem acabar.
O que fazer, se já está feito, se nos sufoca a vã saudade?



Se me disser o seu nome, lhe dou o crédito.

terça-feira, 1 de março de 2011

Ildásio Tavares, "O barco bêbado"

Mostrou o poema a seu amigo,
com a certeza adolescente
de que ninguém, na França,
poderia estar fazendo igual.

(E, provavelmente, estava certo)

Depois, mudou as armas; mudou
de ramo. Arranjou uma mulher.
E se acabou,
como a esfuziante flor do hibiscus
que dura um dia, murcha e cai no chão.

(Há coisas grandes demais para os dezoito anos).

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Ildásio Tavares


















"Meu poema de chuva"

Meu poema não visita a antologia
Dos momentos que a chuva salpicou
Nem se curva ao tip-top na janela
Onde sem mais querer
A chuva semissente se instalou, —
Ele se esgueira, calmo e contemplado,
Até a intimidade sem recursos da gota mais minúscula,
E em uniliquescência permanece;
E assim, as palavras feitas chuva
Se escorrem lá pra baixo da ladeira e
São sorvidas sem serem pressentidas
Pela terra,
Pelo lago,
Ou pelas tradicionais bocas de lobo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Ildasio Tavares, "Soneto da luz"

Quando eu nasci, já recebi a cruz,
              plantada no caminho á minha espera,
              a projetar a sua sombra austera
              onde eu busquei sedento paz e luz.

Quando eu nasci, já recebi Jesus
              como anúncio de dor e primavera.
              Mas era uma outra luz; uma outra esfera —
              meu caminho, não sei onde conduz.

Resta-me a cruz e a dura provação
              dos espinhos da vida, triste dança
              de enganos, dissabores, ilusão,

que penetram-me o peito feito lança
              e afastam a luz que a vista não alcança —
              numa só chaga pulsa o coração.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Ildásio Tavares, "Restos"

Há um resto de noite pela rua
Que se dissolve em bruma e madrugada.

Há um resto de tédio inevitável
Que se evola na tênue antemanhã.

Há um resto de sonho em cada passo
Que antes de ser se foi, já não existe.

Há um resto de ontem nas calçadas
Que foi dia de festa e fantasia.

Há um resto de mim em toda a parte
Que nunca pude ser inteiramente.