Mostrando postagens com marcador Adriano Espínola. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adriano Espínola. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Adriano Espínola, "Dante"


Exilado em mim mesmo e do país,
sonhei a fera e Virgílio companheiro.
No céu, de mim ausente, a Beatriz.

Depois, no inferno pus o mundo inteiro.

domingo, 22 de julho de 2018

Adriano Espínola, "O poeta relê o velho manual de instruções"


Diante do branco, sangro:
aurora de papel que singro,
A palavra, angra.

2

O poema: lambida
da língua na fala ferida.

3

Triste, sim, de tão alegre:
a beleza que fica é breve. 

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Adriano Espínola, "A árvore"


Incêndio esverdeado no meio
da praça.
Chama vegetal.
As folhas bebem
de estalo
a luz matinal.

O sol
a tudo assiste: atento.
imperial.

Sim, o sol
- ó pai de todo pensamento.

sábado, 9 de junho de 2018

Adriano Espínola, "Claridade"


                                                                                    A Catherine Dumas

Com os punhos cerrados de sol,
a luz golpeia
a praia. 

Arde o instante na areia. 

Nas dunas,
por entre casebres,
papoulas acendem sua dor
vermelha. 

Mestre André,
sob um coqueiro,
retalha com a peixeira
o esquivo
milagre dos peixes. 

O verdiazul ascende as costas
do horizonte. 

Barcos buscam, peregrinos,
as profundezas. 

O pensamento a pino
se descobre,
transparente. 

Espiritual é a luz do meio-dia.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Adriano Espínola, "O cavalo e o mar"


                                                                                    A Fernando Py

Na praia, um cavalo azul
imita o mar.

Com as crinas espumantes,
ondula sobre a areia.
Arremessa-se, furioso,
contra as dunas.

(Na sua garupa de alga,
El-Rei Dom Sebastião,
encantado, já cavalga
com a espada na mão.)

Veloz,
busca asas:
mito trespassado
de sonhos e sargaços.

O mar com suas líquidas patas
cavalga na praia.
Com os músculos retesados
de maré cheia,

investe,
resfolegante,
contra a areia.
Com as crinas de algas,
escoiceia
a manhã.

Encrespa-se todo,
buscando o cavalo:
mito ondulado de sal e tempo.

Ali,
os dois se enfrentam:
o cavalo-marinho
& o mar-eqüestre.

Indiferente,
o sol assiste
à peleja perene das criaturas.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Adriano Espínola, "Lixeira"


As cascas de ovo
& de banana
a folha de jornal
da semana
pedaços de couve
& de tomate
a palavra que sal-
tou suja de chão
o gesto que ficou
pela metade
a história que não
houve:
tudo isso úmido
tudo isso ido
doídoamassado
dentro de ti
e do saco de lixo.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Adriano Espínola, "Fome"


Se tens fome de madrugada,
toma uma folha de papel em branco
e nela sorve em silêncio
com volúpia o nada
que te espanta e consome.

Se ali encontrares outra coisa
 ao despertar do dia
(o pão ainda fresco do sonho,
a palavra que amadureceu de repente
ou os gomos abertos do sol),

chama-me depressa,
porque também tenho fome —
tenho essa mesma fome que não sacia.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Adriano Espínola, "Lamas"


                                     A Horácio Dídimo


À noite
todos os lépidos
são larápios,

todos os otários
são
notórios,

todas as lânguidas
são
lésbicas

todas as cópulas
são
cédulas,

todos os lúcidos
são
trágicos

todos os bêbados
são
sábios.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Adriano Espínola















"Fragmentos de uma poética do lugar"

E daí, se eu não fui para as montanhas,
encher minhas mãos de calos,
tomar banho de cuia,
plantar milho e versos
caipiras ao amanhecer?
.........................................

E daí, se eu não zarpei em uma jangada,
passei duas semanas no mar
e não voltei triunfante
com um caçuá na mão?
.........................................

Mas o que eu vejo é a cidade.

A poesia, companheiro, está onde se é.
O resto vem na imaginação.

Não necessita de ser buscada
no topo das montanhas não-mágicas,
no sal dos sacrifícios
ou no suor dos lavradores distantes.

Quanto esforço!

A mim me basta vê-la (onde estou),
no meio da rua,
desritmada como a vida,
entrando
           na contra-mão,
                               correndo,
           apertando-se
(dentro dos ônibus e do salário)
      tropeçando na multidão,
............................................
seguindo
pelas ruas da memória & do esquecimento,
           lá fora/
                                 no centro,
           cá dentro
           de mim mesmo ou dos subúrbios
.............................................

(Se eu vivesse noutro lugar,
a poesia estaria naturalmente        
                                     noutro lugar,
mesmo se eu imaginasse o contrário disso tudo).

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Adriano Espínola, "Meio-dia (2)"


O sol tomba, 
vertical, 
dos edifícios. 
Ardem os muros perfilados. 

Os objetos vomitam cores, 
embriagados. 

O vermelho dos sinais ri, 
em chamas, 
para os carros. 

Na calçada, 
a luz lambe 
as coxas da garota, 
penetra no blue-jeans 
dos manequins, 
irriga de calor 
a angústia dos homens. 

(Tudo se queima, 
tudo se consome, 
tudo arde infinito.) 

Ó súbita revelação:
o sol me aponta 
o carvão íntimo 
das coisas, 
negro 
coração 
batendo na claridade.

domingo, 7 de maio de 2017

Adriano Espínola, "Dentro da Hora"


- E se acaso este grito
não encontrar sua resposta?

- Se ao invés esta ferida
mais alargar seu território?

- Que faremos se esta briga
armar o tempo à nossa volta?

- Que valia nós teremos,
cercados de chumbo e ódio?

- E se este medo crescer
suas facas dentro de nós?

- Até onde nossos punhos,
sangrando dentro da hora?

- Até quando nosso viver,
se somos tantos roçando a morte?

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Adriano Espínola, "Chove"


Chove. As mesmas chuvas
do instante caem adiante
aos pés de outras uvas.
O agora chega molhado.
As passas vêm do passado.

sábado, 29 de outubro de 2016

Adriano Espínola, "Meio-dia"


O sol galopa fogoso
sobre os telhados.

Árvores transpiram 
pensativas.

A calçada,
castigada,

estende ao sol
sua palma de cimento.

A praça se encolhe
à sombra dos abrigos.

Pernas viajam
para o centro do dia.

Um homem dobra
seu suor
numa esquina.

Buzinas
retalham
o perfil dos edifícios.

Sensação de abandono amarela.

Bebo,
sob a marquise,
um copo de sombras.

Fortaleza corre para os terraços,
para o sol
esquivo da hora
enorme do almoço.

(O calor das coisas
a pino

remodela
o rosto do invisível.)

domingo, 25 de setembro de 2016

Adriano Espínola, "Lamas - bar e restaurante"


                                                       A   Horácio  Dídimo

À noite,
todos os lépidos
são
larápios,

todos os otários
são
notórios,

todas as lânguidas
são
lésbicas,

todas as cópulas
são
cédulas,

todos os lúcidos
são
trágicos,

todos os bêbados
são
sábios.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Adriano Espínola












"Lixeira"

a casca de ovo
&   de  banana
a   folha de jor
nal da  semana
p'daços de cou
ve & de tomate
a  história  que
não não houve
o gesto q ficou
pela  met   ade:
tudo isso úmido
tudo   isso  ido
doídoamassado
dentrode mim e
do saco de lixo

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Adriano Espínola, "Mãe"


De terra a a tua voz,
de terra os teus gestos,

de terra a tua benção,
de terra a tua mágoa,

de terra os teus restos,
agora enraizados,

árvore crescendo
às avessas - lá onde

tudo começa e finda:
no silêncio do sangue

que me dói ainda.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Adriano Espínola, "Travessia"


no
meio
do ca
minho

as 
pedr
as
pedr
as

mui
to
mais
pe
sad

as
perd
as
perd
as

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Adriano Espínola, "Poesia"


Na noite
imensa,

o único
crime

que com-
pensa.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Adriano Espínola, "Maria"


                                                     A José Maurício Gomes de Almeida

Diz que dá pernadas na lua.
Entre uma cerveja e outra,
decifra os bigodes do chinês.
Com a mão esquerda,
retira um buzio da boca
de um marinheiro.
Com a bacia das coxas,
apara a resina do sexo.
Arranha com as unhas esmaltadas
a miçanga das estrelas.
Depois dorme por entre os gatos
e palavras impublicáveis.

Ave Maria, cheia de graças.

domingo, 18 de outubro de 2015

Adriano Espínola, "LIXO LIXO LIXO LIXO"


- Sobras que mãos humanas um dia tocaram e largaram;
- Objetos que roçaram a nossa pele,
            lamberam a nossa língua
            cheiraram o nosso sexo
            e depois quedaram-se tristes;

- As catadoras de lixo com a pureza de seus dedos famintos
  e seus grandes sacos cinzentos de mágoa,

           - Salve!
 (Ó universos paralelos curvando suas
espinhas
                 sobre
                 restos amontoados da realidade.)