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terça-feira, 26 de junho de 2018

Sylvia Plath, "Não entres docilmente nesta noite mansa"


Não entres docilmente nesta noite mansa:
A idade deve arder e irar-se ao fim do dia;
Grita, grita contra a luz que está morrendo.

Mesmo sabendo no final que a justa escuridão avança,
Pois seus gestos não forjaram raios, o homem sábio
Não entra docilmente nesta noite mansa.

O homem, à onda derradeira, gemendo
Que seus frágeis atos poderiam ter brilhado e dançado na enseada,
Grita, grita contra a luz que está morrendo.

O homem louco que reteu e cantou o sol em fuga,
E aprendeu, tão tarde, que apenas lamentava seu passar,
Não entra docilmente nesta noite mansa.

O homem grave, ao morrer, já cego vendo
Que olhos cegos poderiam brilhar como as estrelas e alegrar-se,
Grita, grita contra a luz que está morrendo.

E tu, meu pai, aí da tua altura triste,
Amaldiçoa-me, abençoa-me, te peço, com tuas lágrimas ferozes.
Não entres docilmente nesta noite mansa.
Grita, grita contra a luz que está morrendo.

Tradução de Ana Cristina Cesar 

terça-feira, 5 de abril de 2016

Ana Cristina Cesar, "33ª Poética"


estou farto da materialidade embrulhada do signo 
da metalinguagem narcísica dos poetas 
do texto de espelho em punho revirando os óculos 
modernos

estou farta dessa falta enxuta 
dessa ausência de objetos rotundos e contundentes 
do conluio entre cifras e cifrantes 
da feminil hora quieta da palavra 
da lista (política raquítica sifilítica) de supersignos cabais: “duro 
ofício”, “espaço em branco”, “vocábulo delirante”, “traço infinito".    

quero antes 
a página atravancada de abajures 
o zoológico inteiro caindo pelas tabelas 
a sedução os maxilares 
o plágio atroz 
ratas devorando ninhadas úmidas 
multidões mostrando as dentinas 
multidões desejantes 
diluvianas 
bandos ilícitos fartos excessivos pesados e bastardos 
a pecar e por cima

os cortinados do pudor 
vedando tudo 
com goma
de mascar.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Ana Cristina Cesar, "Marfim"


A moça desceu os degraus com o robe
monografado no peito: L. M. sobre o coração.
Vamos iniciar outra Correspondência, ela
propôs. Você já amou alguém verdadeiramente?
Os limites do romance realista. Os caminhos do
conhecer. A imitação da rosa. As aparências
desenganam. Estou desenganada. Não reconheço
você, que é tão quieta, nessa história. Liga
amanhã outra vez sem falta. Não posso
interromper o trabalho agora. Gente falando por
todos os lados. Palavra que não mexe mais no
barril de pólvora plantado sobre a torre de
marfim.


sábado, 15 de agosto de 2015

Ana Cristina Cesar, "Queria ..."


Queria falar da morte
e sua juventude me afagava.
Uma estabanada, alvíssima,
um palito. Entre dentes
não maldizia a distração
elétrica, beleza ossuda
al mare. Afogava-me.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Ana Cristina Cesar, "Tento até o velho golpe..."


Tento até o velho golpe:
recitar poemas para tua indiferença.
Cabotina. Agarrada num rabo de cavalo.
"Teus versos agora me tocam menos
que você." Tua mão vacila.
Não é de cera.
Até que um dia com a unha
tira a lasca do rosto e descubro
a identidade morta por debaixo.
É porque tem que chegar. Perto do coração
não tem palavras?

domingo, 7 de junho de 2015

Ana Cristina Cesar, "Aqui, minha Filha ..."


Aqui, minha Filha, chega.
Você acaba de chegar.
Não escapa mais das quatro paredes.
Querida, nossa história terminou no hospital.
A gente não tem coragem.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Ana Cristina Cesar










"Enquanto leio..."

I

          Enquanto leio meus seios estão a descoberto. É difícil concentrar-me ao ver seus bicos. Então rabisco as folhas deste álbum. Poética quebrada pelo meio.

II

          Enquanto leio meus textos se fazem descobertos. É difícil escondê-los no meio dessas letras. Então me nutro das tetas dos  poetas pensados no meu seio.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Ana Cristina Cesar, "Fagulha"


Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Ana Cristina Cesar











"Recuperação da adolescência"

é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço

quinta-feira, 20 de março de 2014

Ana Cristina Cesar











"O tempo fecha...."

O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos que não
largam! Minhas saudades ensurdecidas por cigarras! O que faço
aqui no campo declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah, que estou sentida e portuguesa, e agora não sou mais, veja,
não sou mais severa e ríspida: agora sou profissional.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Ana Cristina Cesar, "Cabeceira"


Intratável.
Não quero mais por poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente
sobre a minha mão.


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Ana Cristina Cesar











"Sem você..."

Sem você bem que sou lago, montanha.
Penso num homem chamado Herberto.
Me deito a fumar debaixo da janela.
Respiro com vertigem. Rolo no colchão.
E sem bravata, coração, aumento o preço.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Ana Cristina Cesar, "Noite de Natal..."


Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada.
Não sinto nada, mamãe.
Esqueci.
Menti de dia.
Antigamente eu sabia escrever.
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos.
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Ana Cristina Cesar, "Samba-canção"


Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone - taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Ana Cristina Cesar













"Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares"

Este é o quarto Augusto.
Avisou que vinha.
Lavei os sovacos e os pezinhos.
Preparei o chá. Caso ele me cheirasse...
Ai que enjoo me dá o açúcar do desejo.

domingo, 15 de maio de 2011

Ana Cristina Cesar











 "Flores do mais "

devagar escreva
uma primeira letra
escrava
nas imediações
construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

domingo, 6 de junho de 2010

Ana Cristina Cesar













"Tenho uma folha branca"

Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:

mudo convite:

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ana Cristina Cesar, "O Homem Público nº 1"

Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Ana Cristina Cesar, "Fisionomia"

Não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Ana Cristina Cesar, "Psicografia"

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto