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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

António Patrício, "Relíquia"


Era de minha mãe: é um pobre xale
que tem pra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama já puída e lassa
deixo os meus dedos pra senti-la ainda;
e Ela vem, é Ela que me abraça,
fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
que eu sinto quando toco o velho xale,
que guarda um não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
sinto ao tocá-lo como alguém que embale
e beije a minha sede de amor puro.

domingo, 3 de novembro de 2013

António Patrício, "Nós"


Tu vives a chorar, eu vivo a rir
E assim vamos morrendo de mãos dadas.
Tu falas p'ra rezar, eu p'ra mentir
E as nossas bocas beijam-se encantadas...

Rezas por nós, por este amor a abrir
Em quimeras que nascem condenadas...
Minto por nós, para poder sorrir;
Erguer alegre as tuas mãos nevadas...

Tu crês, eu não creio e minto;
E as tuas rezas tem tanta piedade
Como as palavras trêmulas que eu sinto.

Mentir é afinal rezar sem crença:
E de mãos dadas, pela tempestade,
O nosso amor é uma oração imensa!