terça-feira, 16 de setembro de 2014
Mário Pederneiras, "Suave caminho"
Assim... Ambos assim, no mesmo passo,
iremos percorrendo a mesma estrada;
tu - no meu braço trêmulo amparada,
eu - amparado no teu lindo braço.
Ligados neste arrimo, embora escasso,
venceremos as urzes da jornada.
E tu - te sentirás menos cansada,
e eu - menos sentirei o meu cansaço.
E, assim, ligados pelos bens supremos,
que para mim o teu carinho trouxe,
placidamente pela vida iremos,
calcando mágoas, afastando espinhos,
como se a escarpa desta vida fosse
o mais suave de todos os caminhos.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Mário Pederneiras, "Crepúsculo"
Eu sempre fui amigo dos estios,
Dos longos dias claros e sadios,
Da Cigarra, do Sol, que a vida encerra,
Que alegra a luz e que fecunda a Terra.
Mas estou hoje num estado d’alma,
Tão de indolência e calma
E tão avesso às emoções bizarras
Que não quero saber de Sol nem de cigarras..
Nada de força, de vigor, de músculos,
De desejos agudos,
Nem dos desatinos,
A que, às vezes, me atiro,
De alguma estranha fantasia nova;
Hoje alegrias e vigores domo
E prefiro
À meia tinta morna dos crepúsculos,
Num macio carinho de veludos,
A plangência católica dos sinos
Num fim de tarde, quando a luz repousa,
Ou então qualquer cousa
Como
Na alma de um violoncelo a surdina da trova.
Olho este fim de tarde e esta sombra que desce
E em tudo alonga e tece
A trama tênue do seu véu de luto…
A alma sentindo evocativa e boa,
Emocionado, escuto
O saudoso rumor do dia que se extingue…
E o dia azul que foi, apenas se distingue
Por um resto de luz que nas alturas sobra,
Por um sino que dobra
Ou uma asa que voa ...