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segunda-feira, 9 de julho de 2018

David Mourão-Ferreira, "Herança"


Ouvir, ouvir de noite uma ambulância
e desejar que estejas a morrer;
fechar a porta à minha própria infância;
amigos, conhecidos, nem os ver;

quebrar nas mãos o aro da esperança;
mas de mim para mim depois dizer:
"Calma! Quem nada espera tudo alcança..."!
e guardar o revólver; e beber,

a sós, o vinho que na taça baste
a recompor-te, viva, na distância:
isto foi, como herança, o que deixaste.

E ainda o mais que não te quis dizer:
ouvir, ouvir de noite uma ambulância,
e desejar ser eu quem vai morrer...

terça-feira, 2 de maio de 2017

David Mourão-Ferreira, "Coro de Natal"


Quem nos garante que estamos vivos
que sequer somos o que fingimos
se atravessamos ruas e praça
sempre com ’spadas entre as espáduas
e com serpentes em torno aos braços
e com cilícios em vez de cílios
e com os sonhos desarrumados
pelos sorrisos e compromissos
desta comédia de celebrar-te
assegurando que não existes

Quem nos garante que estamos vivos
Ou não seremos somente o lixo
da grande roda que nos esmaga
da grande garra que nos agarra
do grande grito que nem gritado
por todos juntos será ouvido
Quem nos garante se neste espaço
que nos separa só o sigilo
preenche as pausas a grande pausa
de recearmos que tu existas

Quem nos garante que estamos vivos
se atravessando ruas e rios
portas e portos pontes e praças
só deparamos com os esgares
que já tiveram as nossas faces
à mesma hora nos mesmos sítios
Quem nos garante que sob as lajes
de outras cidades de outros jazigos
neste momento ressuscitados
não afirmamos que Tu existes

quinta-feira, 21 de julho de 2016

David Mourão-Ferreira, "Ternura"


Desvio dos teus ombros o lençol 
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada... 

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio, 
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente 
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós! 


segunda-feira, 27 de junho de 2016

David Mourão-Ferreira, "Presídio"


Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo 
Que dizer do pescoço, às vezes mármore, 
às vezes linho, lago, tronco de árvore, 
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...? 

E o ventre, inconsistente como o lodo?... 
E o morno gradeamento dos teus braços? 
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne: 
é também água, terra, vento, fogo... 

É sobretudo sombra à despedida; 
onda de pedra em cada reencontro; 
no parque da memória o fugidio 

vulto da Primavera em pleno Outono... 
Nem só de carne é feito este presídio, 
pois no teu corpo existe o mundo todo! 

sábado, 19 de março de 2016

David Mourão-Ferreira, "O corpo iluminado"


XXIII

Uma névoa de mágoa muito antiga
torna-te às vezes quase inatingível.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

David Mourão-Ferreira, "Junho"


A esta
mesma hora
em cada
praia

um piano soluça
de alegria

Tarde
após tarde
cada vez
mais
tarde

nas suas teclas
brancas
morre
o dia.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

David Mourão Ferreira, "Teia"


Se da baba o insecto faz a teia,
se com choro porém não sei prender-te,
do céu, que era de cinza, direi verde,
e da terra e das lágrimas areia.

E da forma direi que foi ideia,
para que à noite o corpo não desperte.
Do perdido direi que não se perde
se ao menos nestes versos se encadeia.

Do cabelo, se louro, direi preto;
do amor que sofro direi soneto,
ante a luz tão corpórea que o invade ...

Nas redes da ficção ficará presa
e acordarás, mais tarde, na surpresa
de ser outra por toda a eternidade.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

David Mourão-Ferreira












"Casa"

Tentei fugir da mancha mais escura
Que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
Era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
De não poder viver longe de ti:
És a sombra da casa onde nasci,
És a noite que a noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
E em quartos interiores o cheiro a fruta
Que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
O que sem voz me sai do coração.


sábado, 2 de novembro de 2013

David Mourão Ferreira, "Herança"


Ouvir, ouvir de noite uma ambulância,
E desejar que estejas a morrer;
Fechar a porta à minha própria infância;
Amigos, conhecidos, nem os ver;

Quebrar nas mãos o aro da esperança;
Mas de mim para mim depois dizer:
"Calma! Quem nada espera tudo alcança...";
E guardar o revolver; e beber;

A sós, o vinho que na taça baste
A recompor-se, viva na distância;
Isto foi, como herança, o que deixaste.

E ainda o mais que não te quis dizer;
Ouvir, ouvir de noite uma ambulância,
E desejar ser eu quem vai morrer...

terça-feira, 24 de setembro de 2013

David Mourão-Ferreira, "Soneto do Cativo"


Se é sem dúvida amor esta explosão
De tantas sensações contraditórias;
A sórdida mistura das memórias,
Tão longe da verdade e da invenção;

O espelho deformante; a profusão
De frases insensatas, incensórias;
A cúmplice partilha nas histórias
Do que os outros dirão ou não dirão;

Se é sem dúvida Amor a cobardia
De buscar nos lençóis a mais sombria
Razão de encantamento e de desprezo;

Não há dúvida, Amor, que te não fujo
E que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
Tenho vivido eternamente preso.

domingo, 28 de julho de 2013

David Mourão-Ferreira, "E por vezes"


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos   E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites   não dos meses
lá no fundo dos corpos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes  ah  por vezes
num segundo se evolam tantos anos



quinta-feira, 4 de julho de 2013

David Mourão-Ferreira, "Crepúsculo"


É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
quando a noite se destaca
da cortina;
quando a força de vontade
ressuscita;
quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando ás sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

David Mourão-Ferreira, " Nocturno"


Eram, na rua, passos de mulher.
Era meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gim o gelo;
além do gelo a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era, no gira disco, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy...
Era na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

David Mourão-Ferreira, "Nudez"


A pressa
com que se despe

nem na alma lhe apetece
qualquer veste

A pressa com que se despe

Até da carne e da pela
se pudesse