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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Edwin Morgan, "Na frente da televisão"


Tome cuidado se você me beijar,
você sabe que não morre.
A luz da lâmpada se estende, desenha
suavemente - toda ela - em fixidez,
tropas de sombras azuis como seu maxilar sob a luz
onde você fica assistido, meio assistindo
entre o amarelo e o azul.
Eu só vejo metade, só conheço sua metade.
Tome cuidado se virar agora pra mim
pois mesmo neste quarto nos movemos fora e através das estrelas
e formas que nunca nos deixam voltar, sua mão
que repousa levemente na minha coxa e minha mão no seu ombro
estão transfixadas somente lá, não aqui.

O que você poderia suportar que duraria
como uma pedra através de câncer e cabelo branco?

Ainda assim não é fácil
fazer balanço de misérias
quando a luz macia pisca
sobre nossos braços na quietude
onde decisões são tomadas.
Você tem que olhar pra mim, 
e então é o tempo que cai
numa conversa lenta até dormir.
Tradução de Virna Teixeira.
 

sexta-feira, 28 de março de 2014

Edwin Morgan

 

 
 
 
 
 
"Um Cigarro"
 
Não há fumo sem ti, meu fogo.
Depois de teres partido,
O teu cigarro cresceu no meu cinzeiro
E enviou uma linha de uma cinza muito calma.
E sorri a quem iria acreditar no seu sinal
de tanto amor. Um cigarro
no cinzeiro do não-fumador.
Enquanto a última espiral
estremece, uma pequena corrente de ar
sopra o seu caminho no meu rosto.
É cheiro, é gosto?
Tu estás aqui de novo, e eu estou bêbado no teus
lábios de tabaco.
Fora com a luz.
Deixa o fumo esconder-se no escuro.
Até eu ouvir a mesma cinza
Suspirar entre as flores de bronze.
Respirarei, após a meia-noite, o teu último beijo.

Tradução de Pedro Calouste.
 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Edwin Morgan, "Um cigarro"

Não há fumaça sem você, meu fogo.
Quando você partiu,
seu cigarro brilhou no meu cinzeiro
e enviou uma linha de um cinza tão ordeiro.
Sorri imaginando quem iria acreditar no sinal
de tanto amor. Um cigarro
no cinzeiro de não-fumante.
Enquanto a última espiral
estremece, uma brisa súbita
sopra seu caracol no meu rosto.
É o cheiro, é o gosto?
Você está aqui, e bêbado outra vez nos lábios de tabaco me vejo.
Apague a luz.
Deixe a fumaça deitar no escuro.
Até eu escutar a mesma cinza
suspirar entre as flores de bronze
que respirarei, e muito depois da meia-noite, seu último beijo.

Tradução de Virna Teixeira

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Edwin Morgan



"O Divisor"
Continuo pensando em você - o que é ridículo.
Estes anos entre nós como um mar.
E a dignidade que veio com o tempo
impediria meu lápis sobre o papel.
O som estava ligado; você pediu pelos Stones;
conseguiu, conseguiu café fresco, conversa.
As cortinas cerradas guardam uma noite selvagem.
Continuo pensando nos seus olhos, suas mãos.
Não há razão para isto, nenhuma.
Você diria que não posso ser o que não sou,
mesmo que não possa ser o que sou.
Onde isso nos leva? O que podemos fazer?
O silêncio após Jagger foi como uma capa
que eu teria jogado sobre você - havia apenas
o vento, e o relógio batia enquanto você bebia,
agarrando a caneca verde entre as mãos.
Não olhe para cima assim de repente!
Como é duro não olhar você.
Chegamos ao ponto de não falar
e não se preocupar, e aquilo
foi quase feliz. Então, mais tarde,
quando você deitou sobre o cotovelo no carpete
não senti nada além de uma punhalada
de dor me dizendo o que era,
e não posso dizer para você, nem uma palavra.


Tradução de Virna Teixeira

domingo, 26 de julho de 2009

Edwin Morgan, "Morangos"

Nunca houve morangos
como os que tivemos
naquela tarde tórrida
sentados nos degraus
da porta-janela aberta
de frente um para o outro
seus joelhos encostados nos meus
os pratos azuis em nossos colos
os morangos brilhando
na luz quente do sol
nós os mergulhamos em açúcar
olhando um para o outro
sem apressar a festa
para chegar ao fim
os pratos vazios
deitados sobre a pedra juntos
com os dois garfos cruzados
e me aproximei de você
dócil naquele ar
nos meus braços
abandonado como uma criança
da sua boca ávida
o gosto de morangos
na minha memória
inclina-se de volta
deixe-me amá-lo

deixe o sol bater
sobre o nosso esquecimento
uma hora de tudo
o calor intenso
e o relâmpago de verão
nas colinas de Kilpatrick

deixe a tempestade lavar os pratos


Tradução de Virna Teixeira