Mostrando postagens com marcador Prosa poética. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prosa poética. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Eugénio de Andrade, "Enquanto escrevia, uma árvore..."


Enquanto escrevia, uma árvore começou a penetrar-me lentamente a mão direita. A noite chegava com seus antiquíssimos mantos; a árvore ia crescendo, escolhendo para domínio as águas mais espessas do meu corpo. Era realmente eu, este homem sem desejos de outro corpo estendido ao lado? Já não me lembro, passava os dias a dormir à sombra daquela árvore, era o último verão. Às vezes sentia passar o vento, e pedia apenas uma pátria, uma pátria pequena e limpa como a palma da mão. Isso pedia; como se tivesse sede.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Jorge Luís Borges, "Posse do ontem"


Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las, e que essas perdas, agora, são o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o preto e penso nessas impossíveis cores como não pensam os que vêem. Meu pai morreu e está sempre ao meu lado. Quando quero escandir versos de Swinburne, eu os faço, dizem-me, com sua voz. Só o que morreu é nosso, só é nosso o que perdemos. Ílion se foi, mas Ílion perdura no hexâmetro que o pranteia. Israel se foi quando era uma antiga nostalgia. Todo poema, com o tempo, é uma elegia. São nossas as mulheres que nos deixaram, não mais sujeitos à véspera, que é angústia, e aos alarmes e terrores da esperança. Não há outros paraísos senão os paraísos perdidos.

terça-feira, 22 de março de 2016

Lúcio Cardoso, "Como no oceano, ao bar aportam ..."


Como no oceano, ao bar aportam entre o óleo e o sal, todos os detritos. O que mais gosto é esta luz de cais. É o que se lê nos olhos dos que chegam.

Imaginei uma carta: meu amor. Depois pensei que era tarde demais. Mas ter errado, sempre, nunca foi por imaginar dessas coisas? O apetite pressupõe uma audácia que, ai de mim, não existiu nem agora nem nunca.

Não poderei dizer nunca que passei a via em branca nuvem. Tudo me veio às mãos. Mas com que impaciência destruí tudo. O inventado sempre me pareceu muito melhor.

Não há vivido, há esgotado. Não vivi, esgotei-me. Nascido doente, sou um convalescente de mim mesmo.

Que Deus não me permita nunca a cura.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Ledusha Spinardi, "Cena íntima"


Outubro termina a bordo de um ventinho de cambraias,
perfeito para cílios e lábios. Ainda há borboletas soprando
o véu da primavera. Do  outro lado da rua, através dos
brincos-de-princesa na treliça que contorna a varanda,
posso sentir o coração de um sabiá pulsar ao  compasso
solitário de um assobio. A luz da tarde anuncia
subitamente escuros, abafa-se, e logo a tempestade
cai, despenteando o cenário com raios esplêndidos.
Cai estrondosa e se vai, deixando a tarde fresca
e perfumada. Nos intervalos entre gotas tardias,
pesco um  sentimento ímpar de plenitude. Mosaicos
de folhas e galhos repousam no asfalto
cravejado de granizos.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Luís Miguel Nava, "Uma candeia"


Poisei na margem desta folha uma candeia, para que
se tornassem mais claras as palavras deste texto. Uma
candeia também ela feita de palavras e que, contraria-
mente às aparências, não está na margem mas dispersa
nas palavras, de tal forma que, se eu falar das praias, por
exemplo, o próprio olhar dos leitores torna visíveis os
contornos dos banhistas.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Mario Quintana























"A Minha mensagem"

         A minha mensagem? Nenhuma. Não sou moço de recados. Aliás por que você não se deu ao trabalho de ler os meus versos antes de entrevistar-me?
Se os conhecesse, lembraria certamente aquele que diz:
"Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema."
Talvez dê, este claro e misterioso verso, a pensar que o poema é algo exterior ao poeta, uma realidade objetiva - e não relativa ao sujeito que a expressa.
É o que eu creio e receio.
Porque nisto de fazer poemas o que há, para mim, é uma necessidade de expressão e não de comunicação.
Tanto assim que, se eu descobrisse um dia que era a única criatura restante sobre a face da Terra, empregaria o meu longo lazer não necessariamente a cantar a minha situação única, mas a refazer aqueles meus poemas que não me parecessem ainda ter recebido um adequado tratamento expressivo, isto é, o devido trabalho técnico, ou os que, de tão indizíveis, não me animei até agora a defrontar.
E é isto que da um terrível sentido aos trabalhos do Poeta, uma enorme responsabilidade em face da Esfinge.

 

sábado, 18 de maio de 2013

Roberto Piva, "Bules, bílis e bolas"


Nós convidamos todos a se entregarem à dissolução e ao desregramento.
A vida não pode sucumbir no torniquete da Consciência. A vida explode sempre no mais além. Abaixo as faculdades e que triunfem os maconheiros. É preciso não ter medo de deixar irromper a nossa Alma Fecal. Metodistas, psicólogos, advogados, engenheiros, estudantes, patrões, operários, químicos, cientistas, contra vós deve estar o espírito da juventude. Abaixo a Segurança Pública, quem precisa disso?
Somos deliciosamente desorganizados e usualmente nos associamos com a Liberdade.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Eugénio de Andrade, "Entre o primeiro e o último crepúsculo"


Eu tinha dois ou três anos, tenho agora sessenta, e o apelo da luz é o mesmo, como se dela tivesse nascido e só a ela não pudesse deixar de regressar. Entre o primeiro crepúsculo e o último, sempre o corpo todo se deixou penetrar pelo ardor que se fazia carícia nessa parte mais diáfana e imponderável do ser, e a que se não lhe chamarmos luz também, nunca saberemos que nome dar.

sábado, 15 de outubro de 2011

Paulo Mendes Campos, "Congo"

Tua alma, minha amiga, é como a Bélgica suavizada de canais, mas a minha é como o Congo violentado, duma liberdade malnascida. Miséria misteriosa de meu sangue, suor negro de minha morte, martírio milenar de minh’alma, meu amor. A Bélgica é como a tua alma suave. O Congo é tumulto impenetrável, floresta de lama, felino ferido. Estou ao Norte, ao Sul, a Leste, a Oeste, crucificado em províncias paralíticas, em subúrbios de barro, onde se arrastam bestas mal abatidas, mulambos de Lisala, senzalas de Lusambo, Usumbara profunda com seu zabumba fúnebre, Inongo, Malonga – minha’alma. Mas a tua é suave de canais. Um crime se articula na aldeia petrificada, um guerreiro de lança percorre o vale ardente. Mas em tua alma, minha amiga, há um príncipe melancólico pendido para o crepúsculo. No Congo, violência, vingança, o ídolo vestuto que se estraçalha, o pântano de sangue, o voo do corvo, o rio da raiva, a garra do belga, a madrugada de carvão, a cova de Cristo, a luz de Lumumba. Na Bélgica, a suavidade dos canais, meu amor.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Clarice Lispector, "Por não estarem distraídos"

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.