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segunda-feira, 11 de junho de 2018
Antonio Carlos Secchin, "Soneto da Dissipação"
Revejo a luz gelada de manhãs perdidas
e os sonhos que eu mandei para o endereço errado.
Tanto azul me nauseia e nada se dissipa
em meio ao mangue seco onde estanquei meu barco.
Muitas sombras debatem-se à beira do quarto.
Fantasmas nos lençóis da noite estreita e aflita
esgueiram seus anzóis no meu silêncio farto
de saber que eles são a única visita.
Imóveis no sofá, me contemplam ferozes
e cravam com desdém as garras da rapina.
Espanto o pó e a dor que descem dessas vozes
rolando sem parar pela memória acima.
O espelho só me ensina a ruína do desejo.
Sei que é meu esse olhar em que eu não mais me vejo.
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domingo, 20 de maio de 2018
Antônio Carlos Secchin, "Poema do infante"
É a noite.
E tudo escava tudo
na língua ambígua que desliza
para o esquivo jogo.
Amargo corpo,
que de mim a mim se furta,
não recuso teu percurso
no hálito das pedras
que me existem em ti
- estéril dorso entre águas
estancadas.
O nada, o perto, o pouco,
não posso dividir
do que se espera o que me habita,
ao fazer fluir a via antiga
de um menino que mediu o lado impuro.
Operário do precário,
me limito nesse corpo amanhecido,
asa e gozo onde a morte mora.
Minha vida, mapeada e descumprida,
está pronta para o preço dessa hora.
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sexta-feira, 11 de maio de 2018
Antônio Carlos Secchin, "Autoretrato"
A Flávia Ampan
Um poeta nunca sabe
onde sua voz termina,
se é dele de fato a voz
que no seu nome se assina.
Nem sabe se a vida alheia
é seu pasto de rapina,
ou se o outro é que lhe invade,
numa voragem assassina.
Nenhum poeta conhece
esse motor que maquina
a explosão da coisa escrita
contra a crosta da rotina.
Entender inteiro o poeta
é bem malsinada sina:
quando o supomos em cena,
já vai sumindo na esquina,
entrando na contramão
do que o bom senso lhe ensina.
Por sob a zona da sombra,
navega em meio à neblina.
Sabe que nasce do escuro
a poesia que o ilumina.
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domingo, 29 de abril de 2018
Antônio Carlos Secchin, "Linha de fundo"
Assim meio jogado pra escanteio,
volto ao poema, este local do crime.
Mas é o desprezo que melhor exprime
aquilo que no verso eu trapaceio.
Se pouco do que digo me redime,
cópia pirata de um desejo alheio,
revelo a ti, leitor, o que eu anseio:
um abutre no cadáver do sublime.
A matéria é talvez muito indigesta,
me obriga a convocar um mutirão
para acabar com toda aquela festa
de pétalas e plumas de plantão.
Memória derrubada pelo vento,
quero aqui só lembrar o esquecimento.
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segunda-feira, 16 de abril de 2018
Antônio Carlos Secchin, "Poema do infante"
É a noite.
E tudo escava tudo
na língua ambígua que desliza
para o esquivo jogo.
Amargo corpo,
que de mim a mim se furta,
não recuso teu percurso
no hálito das pedras
que me existem em ti
- estéril dorso entre águas
estancadas.
O nada, o perto, o pouco,
não posso dividir
do que se espera o que me habita,
ao fazer fluir a via antiga
de um menino que mediu o lado impuro.
Operário do precário,
me limito nesse corpo amanhecido,
asa e gozo onde a morte mora.
Minha vida, mapeada e descumprida,
está pronta para o preço dessa hora.
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segunda-feira, 9 de abril de 2018
Luiz de Camões e Antônio Carlos Secchin .
O soneto abaixo do Secchin é quase uma atualização dos impulsos e do vocabulário de um homem contemporâneo, feito sobre o conhecido soneto de Camões, transcrito no final.
"Sete anos de pastor "
Penetro Lia, mas Raquel é quem me move,
e faz meu corpo desatar toda alegria.
Se tenho Lia, minha pele não navega
nada além de nada em névoa fria.
Sete anos galopando em Lia e tédio,
sete anos condenado ao gozo escuro.
Raquel me tenta, e se me beija Lia
minha boca é não, e minha mão é muro.
Labão, o puto, perdoai-me nesse instante,
adoro a dor que doer em minha amante.
Vou cravar-lhe um punhal exausto e certo,
doar seu sangue ao livro e à ventania.
Quieta Lia será terra em que os cavalos
vão pastar, sob a serra e o deus do dia.
"Sete anos de pastor Jacob servia..."
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.
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domingo, 1 de abril de 2018
Antônio Carlos Secchin, "Paisagem"
Pela fresta
um naco do verão de copa
ataca o exército vermelho dos caquis.
Pedaço fino de sol
esgueirado entre esquadrias.
Mandíbulas da fome. A procissão solene
de formigas insones. No mármore
o açúcar Pérola explode em dádiva.
Mosquitos baratos
beijando-se aos pares nos pratos.
Zumbem abelhas vesgas
na mesa onde o abacaxi
oferta sua flor feroz.
Lingüiça, preguiça e sábado
ensaboando-se nas mãos.
Boca sôfrega
frente ao sossego do pêssego.
E a paz. Só de leve o nada
um pouco se move.
Brasil, Barata Ribeiro, ano mil
novecentos e cinqüenta e nove.
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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
Antônio Carlos Secchin
"Cinzas"
Talvez o verão tenha queimado os frutos.
As mãos, ressequidas, apenas recolhem restos.
Cinzas, ardores, ossos.
Havia ali,
não se lembra?,
um rumor de desejo,
que nenhuma palavra salva:
todo poema é póstumo.
Botei a boca no mundo,
não gostei do sabor. Ostras e versos
se retraem
ao toque ácido das coisas tardias.
Na sombra insone do meu quarto,
o vazio vigia, na espreita do que não há:
por aqui passaram
pássaros que não pousaram. Fui traído
por ciganas, arlequins e cataclismos.
De nada me valeram
guardar relâmpagos no bolso,
agarrar nas águas as garrafas náufragas.
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sábado, 13 de janeiro de 2018
Antônio Carlos Secchin, "Na antessala"
Espalhei dezoito heterônimos
em ruas do Rio e Lisboa.
Todos eles, se reunidos,
não valem um só de Pessoa.
Trancafiei-me num mosteiro,
esperando de Deus um dom.
O que Ele me deu foi pastiche
da poesia de Drummond.
Ressoa na minha gaveta
um comido de versos reles.
Em coro parecem dizer:
Não somos Cecília Meireles.
O desavisado leitor
não espere muito de mim.
O máximo, que mal consigo,
é chegar a Antonio Secchin.
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terça-feira, 28 de novembro de 2017
Antônio Carlos Secchin, "Reunião"
Aqui estamos nós
unidos pelo sangue
e dispersos pela vida.
Sabemos de onde viemos,
mas não sabemos nossa saída.
De Antônio e Catarina
herdamos gestos, sonhos, corpos e voz.
Muito sabemos deles,
e pouco sabemos de nós.
Aqui estamos todos
- tios , sobrinhos, primos, avós – ,
corrente entre um ontem vivo
e um amanhã apressado,
frente a frente
com o futuro que nos chama,
cara a cara
com a chama de um passado.
Agora atravessamos juntos
Cachoeiro de ItapeSecchin,
esta estrada tropical da Itália
que desemboca em você e em mim.
E se recompondo o que nós fomos
este instante cintilar dentro de nós
num sopro que a vida não apaga
mesmo sozinhos não estaremos sós.
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sábado, 3 de junho de 2017
Antônio Carlos Secchin, "Língua negra, Rio 30 graus"
Bem longe explode em preto
a pele cósmica de uma estrela,
aqui arde em silêncio
a pele grossa de uma vela.
Negra é a língua que se enreda
para um salto sem saber o que a espera.
Negra, negra língua,
com seu gosto de esgoto e de quimera.
Língua que se desfaz, liquefeita,
na cachaça trôpega dos bares da favela.
Língua que ao pó retorna, heroína
celebrada na veia aberta das vielas.
Passos que galopam para o abismo,
expulsando a pontapés a primavera.
Um fio de luz desmancha o frio.
Anoitece no Rio de Janeiro.
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segunda-feira, 3 de novembro de 2014
Antônio Carlos Secchin
"No que toca à circulação da poesia,
as noites de autógrafo se transformam
em rituais simultâneos
de batismo e óbito de um livro,
que, fora dali,
não será mais visto
em lugar nenhum."
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sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Antônio Carlos Secchin, "Margem"
Vou andando para a beira desse porto,
entre cheiros de cigarro e de sardinha
e um desejo líquido de partir.
Meu olhar desliza no horizonte, querendo saber
a que distância um nome deixa de doer.
Teu nome, marcado em minha boca
como a polpa de uma pera.
O navio enorme avisa que vai embora.
Escrevo a palav4ra salto,
e paro no sal, e não chego ao alto.
A noite está boiando
num óleo grosso de silêncio e luz.
Molho os pés, penso em teu nome: gozo
de um poço tampado. Perfil de musgos
na beira das águas redondas.
me vejo na ponta do cais,
cacos de luz
abrindo a cara do mar.
Destroços de palavras, pedaços de teu nome,
sílabas que batem contra os cascos.
Estou parado na beira de um porto,
azul e morte no oco do ar.
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segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Antônio Carlos Secchin, "Cisne"
À memória de Cruz e Souza
A Iaponan Soares
Vagueia, ondula, indomado e belo,
um cisne insone em solitário canto.
Caminha à margem com a plumagem negra,
em meio a um bando de pombas atônitas.
Encontra um outro, de alvacentas plumas,
um ser sagrado no monte Parnaso,
e enquanto o branco vai vencendo a bruma
ele naufraga, bêbado de espaço.
Em vão indaga, o olhar emparedado
na vertigem da luz que o sol encerra:
"Se em torno tudo é treva, tudo é nada,
como sonhar azul em outra esfera?"
Negro cisne sangrando em frente a um poço.
Do alto, um Deus cruel cospe em seu rosto.
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sexta-feira, 6 de junho de 2014
Antônio Carlos Secchin, "Noturno"
Os reis de Copa
ostentam eretas
espadas mestras
em frente ao mar.
Transatlânticos desejos
encalhados na areia.
Damas de paus
e valentes seios
expostos à carícia
de dólares e brisas.
Eis Lizbeth, ou João Batista,
ouro puro do subúrbio,
ex-ás do cais do porto,
atual contorcionista
do pescoço de pilotos
à procura de conquistas.
O seu rosto é reformado
por algum cirurgião-artista,
pois queixo, nariz e olhos
revelam influência cubista.
Passeiam pares de bicicletas
sob um céu abotoado de estrelas.
Na luz plástica dos postes
passam famintas pombas pretas.
Fome de tudo, em meio à neblina:
saliva, esperma, cocaína.
O bigode roça a nuca sôfrega.
E enquanto o corpo exala e treme
passa, ácida, a patrulha
de um insone PM.
O amor é de lei
ou desviado? Pouco importa;
a polícia, na maior parte,
só sabe celebrar
os rituais de Marte.
Mas frente a ímã tão terreno
caos e lei se entredevoram
em cabine ao abrigo do sereno.
Ao guarda rapaz apraz, ao menos,
a ronda noturna no planeta Vênus.
ostentam eretas
espadas mestras
em frente ao mar.
Transatlânticos desejos
encalhados na areia.
Damas de paus
e valentes seios
expostos à carícia
de dólares e brisas.
Eis Lizbeth, ou João Batista,
ouro puro do subúrbio,
ex-ás do cais do porto,
atual contorcionista
do pescoço de pilotos
à procura de conquistas.
O seu rosto é reformado
por algum cirurgião-artista,
pois queixo, nariz e olhos
revelam influência cubista.
Passeiam pares de bicicletas
sob um céu abotoado de estrelas.
Na luz plástica dos postes
passam famintas pombas pretas.
Fome de tudo, em meio à neblina:
saliva, esperma, cocaína.
O bigode roça a nuca sôfrega.
E enquanto o corpo exala e treme
passa, ácida, a patrulha
de um insone PM.
O amor é de lei
ou desviado? Pouco importa;
a polícia, na maior parte,
só sabe celebrar
os rituais de Marte.
Mas frente a ímã tão terreno
caos e lei se entredevoram
em cabine ao abrigo do sereno.
Ao guarda rapaz apraz, ao menos,
a ronda noturna no planeta Vênus.
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quinta-feira, 3 de abril de 2014
Antônio Carlos Secchin
"Arte"
a Antônio Cicero
Poemas são palavras e presságios,
pardais perdidos sem direito a ninho.
Poemas casam nuvens e favelas
e se escondem após no próprio umbigo.
Poemas são tilápias e besouros,
ar e água à beira de anzóis e riscos.
São begônias e petúnias,
isopor ou mármore nas colunas,
rosas decepadas pelas hélices
de voos amarrados ao chão.
Resto do que foi orvalho,
poema é carta fora do baralho,
milharal virando cinza
pelo fogo do espantalho.
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Antônio Carlos Secchin, "Soneto das luzes"
Uma palavra, outra palavra, e vai um verso,
eis doze sílabas dizendo coisa alguma.
Trabalho, teimo, limo, sofro e não impeço
que este quarteto seja inútil como a espuma.
Agora é hora de ter mais seriedade,
para essa rima não rumar até o inferno.
Convoco a musa, que me ri da imensidade,
mas não se cansa de acenar um não eterno.
Falar de amor, oh meu pastor, é o que eu queria,
porém os fados já perseguem o poeta,
deixando apenas a promessa da poesia,
matéria bruta não coube no terceto.
Se o deus flecheiro me lançasse a sua seta,
eu tinha a chave pra trancar este soneto.
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segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Antônio Carlos Secchin, "Poema para 2002"
Caxumba, catapora, amigdalite,
miopia, nevralgia, crise asmática.
Dor de dente, dor de corno, hepatite,
diabete, arritmia e matemática.
Helenas, Marianas e Marcelos,
tomate, hipocondria e chicória,
sacerdotes, baratas, pesadelos,
calvície, dentadura e desmemória.
Pé quebrado, verso torto, ruim de bola,
nervoso, nariz grande, cu de ferro.
Desastrado, imprudente e noves fora,
muita prosa, mas gozo quase zero.
E para coroar todos os danos
benvindos sejam os meus cinqüenta anos.
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quinta-feira, 3 de maio de 2012
Antônio Carlos Secchin. "A casa não se acaba ..."
A casa não se acaba na soleira,
nem na laje, onde pássaros se escondem.
A casa só se acaba quando morrem
os sonhos inquilinos de um homem.
Caminha no meu corpo abstrata e viva,
vibrando na lembrança como imagem
de tudo que não vai morrer, embora
as maçãs apodreçam na paisagem.
Sob o ríspido sol do meio-dia,
me desmorono diante dela, e tonto
bato a porta de ser ontem alegria.
O silêncio transborda pelo forro.
E eu já não sei o que fazer de tanto
passado vindo em busca de socorro.
nem na laje, onde pássaros se escondem.
A casa só se acaba quando morrem
os sonhos inquilinos de um homem.
Caminha no meu corpo abstrata e viva,
vibrando na lembrança como imagem
de tudo que não vai morrer, embora
as maçãs apodreçam na paisagem.
Sob o ríspido sol do meio-dia,
me desmorono diante dela, e tonto
bato a porta de ser ontem alegria.
O silêncio transborda pelo forro.
E eu já não sei o que fazer de tanto
passado vindo em busca de socorro.
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domingo, 22 de abril de 2012
Antônio Carlos Secchin
"Aforismo"
Se eu já soubesse o que o poema diria, não precisaria escrevê-lo.
Escrevo para desaprender o que eu achava que sabia sobre aquilo que me vai sendo ensinado enquanto escrevo
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