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segunda-feira, 8 de março de 2010

"O profundo silêncio das flores", Egito Gonçalves

O profundo silêncio das flores
é um lugar de ausência. Vazia moldura
para o voo das aves, linha oscilante
de ligeira névoa
que nada revela do que talvez esconda.
Vagueio por literaturas, leite
derramado, danço
a horas perdidas, sigo na música
a cor deixada pelo vento. Uma brisa
curta que apenas estremece
o coração. A manhã toma forma,
as árvores ainda não devoram
a sombra. O Mar Negro
solta as suas medusas na babugem
da praia. Olho da varanda
o horizonte: um dia sem surpresas,
um dia apenas a passar. Falta-me
um sonho, uma hélice pronta
a agitar as águas. Uma testemunha
capaz de modelar o inevitável.

domingo, 8 de novembro de 2009

Egito Gonçalves, "Com Palavras".

Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito
para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.

As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?

Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulmão que as encerra.

Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar...

domingo, 20 de setembro de 2009

Egito Gonçalves, "Que Resgato com o Poema ?"

Que resgato com o poema?

Que amálgama de sóis, sangue,
domínio de cinzas recupero?

Que aniquilo com o poema?

Que sobe em mim ao grito da distância,
ao apelo telefónico dum estribilho,
à gasta, espira dum disco de adeleiro?
Que compro com o poema?

A força de enfrentar a solidão
que ignorava? O desfrute
de abandonar o abismo que me extraiu
o sumo?

Que poema cavalgo?,
ou sento-me no chão?