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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Tomás António Gonzaga e Eucanaã Ferraz

Tomás Antônio Gonzaga














Lira XVIII

Não vês aquele velho respeitável
Que à muleta encostado
Apenas mal se move, e mal se arrasta?
Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo!
O tempo arrebatado,
Que o mesmo bronze gasta.

Enrugaram-se as faces, e perderam
Seus olhos a viveza;
Voltou-se o seu cabelo em branca neve:
Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo,
Não tem uma beleza
Das belezas, que teve.

Assim também serei, minha Marília,
Daqui a poucos anos;
Que o impio tempo para todos corre.
Os dentes cairão, e os meus cabelos,
Ah! sentirei os danos,
Que evita só quem morre.

Mas sempre passarei uma velhice
Muito menos penosa.
Não trarei a muleta carregada:
Descansarei o já vergado corpo
Na tua mão piedosa,
Na tua mão nevada.

Nas frias tardes, em que negra nuvem
Os chuveiros não lance,
Irei contigo ao prado florescente:
Aqui me buscarás um sítio ameno;
Onde os membros descanse,
E o brando sol me aquente.

Apenas me sentar, então movendo
Os olhos por aquela
Vistosa parte, que ficar fronteira;
Apontando direi: "Ali falamos,
"Ali, ó minha bela,
"Te vi a vez primeira."

Verterão os meus olhos duas fontes,
Nascidas de alegria:
Farão teus olhos ternos outro tanto:
Então darei, Marília, frios beijos
Na mão formosa, e pia,
Que me limpar o pranto.

Assim irá, Marília, docemente
Meu corpo suportando
Do tempo desumano a dura guerra.
Contente morrerei, por ser Marília
Quem sentida chorando
Meus braços olhos cerra.


Eucanaã Ferraz














Aquele Velho

Assim também serei, minha Marília?
Quanto estrago não lhe fez o tempo:

fria frouxidão nos braços,
na boca. o rio reduzido a um fio,

a memória, aluvião confuso,
números, amores, nomes

de antigos presidentes da República,
uma casa, outra casa, outra, uns livros, remédios,

um filme, a praia, uma canção, outra, a mão
estendida, uma viagem. amigos,

a procura ávida por uma prateleira
onde repousar todas as vontades,

o coração, os intestinos, a pele
áspera do vazio. Deus. Quer crer.

Tão lentamente até aí e, no entanto,
é como se de repente: os olhos

já não aleiam o avesso no que veem,
tudo está feito. Ponto.

Não há refazer a marcha. Restolho,
murcha o mundo, sem hipóteses.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Tomás António Gonzaga, "Soneto"

 
Num fértil campo de soberbo Douro,
Dormindo sobre a relva, descansava,
Quando vi que a Fortuna me mostrava
Com alegre semblante o seu tesouro.
 
De uma parte, um montão de prata e ouro
Com pedras de valor o chão curvava;
Aqui um cetro, ali um trono estava,
Pendiam coroas mil de grama e louro.
 
 Acabou – diz-me então – a desventura:
De quantos bens te exponho qual te agrada,
Pois benigna os concedo, vai, procura.
 
Escolhi, acordei, e não vi nada:
Comigo assentei logo que a ventura
Nunca chega a passar de ser sonhada.
 

quinta-feira, 24 de março de 2011

Tomás Antônio Gonzaga, "Lira XII"

Minha bela Marília, tudo passa;
a sorte deste mundo é mal segura;
se vem depois dos males a ventura,
vem depois dos prazeres a desgraça.
          Estão os mesmos Deuses
sujeitos ao poder do ímpio Fado:
Apolo já fugiu do Céu brilhante,
          já foi Pastor de gado.

A devorante mão da negra Morte
acaba de roubar o bem, que temos;
até na triste campa não podemos
zombar do braço da inconstante sorte.
          Qual fica no sepulcro,
que seus avós ergueram, descansado;
qual no campo, e lhe arranca os brancos ossos
          ferro do torto arado.

Ah! enquanto os Destinos impiedosos
não voltam contra nós a face irada,
façamos, sim façamos, doce amada,
os nossos breves dias mais ditosos.
          Um coração, que frouxo
a grata posse de seu bem difere,
a si, Marília, a si próprio rouba,
          e a si próprio fere.

Ornemos nossas testas com as flores.
e façamos de feno um brando leito,
prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
gozemos do prazer de sãos Amores.
          Sobre as nossas cabeças,
sem que o possam deter, o tempo corre;
e para nós o tempo, que se passa,
          também, Marília, morre.

Com os anos, Marília, o gosto falta,
e se entorpece o corpo já cansado;
triste o velho cordeiro está deitado,
e o leve filho sempre alegre salta.
          A mesma formosura
é dote, que só goza a mocidade:
rugam-se as faces, o cabelo alveja,
          mal chega a longa idade.

Que havemos de esperar, Marília bela?
Que vão passando os florescentes dias?
As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;
e pode enfim mudar-se a nossa estrela.
          Ah! Não, minha Marília,
aproveite-se o tempo, antes que faça
o estrago de roubar ao corpo as forças
          e ao semblante a graça.