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domingo, 3 de junho de 2018

Hilda Hilst, "Do amor contente e muito descontente"


Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor,
Infância,
Sóis e sombras.
Vou dizer coisas terríveis à gente que passa.
Dizer que não é mais possível comunicar-me.
(Em todos os lugares o mundo se comprime.)
Não há mais espaço para sorrir ou bocejar de tédio.
As casas estão cheias. As mulheres parindo sem cessar,
Os homens amando sem amar, ah, triste amor desperdiçado
Desesperançado amor… Serei eu só
A revelar o escuro das janelas, eu só
Adivinhando a lágrima em pupilas azuis
Morrendo a cada instante, me perdendo?

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Preparo-me e aceito-me
Carne e pensamento desfeitos. Intentemos,
Meu pai, o poema desigual e torturado.
E abracemo-nos depois em silêncio. Em segredo.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Hilda Hilst, "Vº poema da série 'Alcoólicas'"














"Te amo. Vida..."

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo.

               Fomes
               País
               O riso solto
              A dentadura etérea
              Bola
              Miséria.

Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Ama-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Hilda Hilst, "Poema introdutório à série Amavisse"














Porco-poeta que me sei, na cegueira, no charco
À espera da Tua Fome, permita-me a pergunta
Senhor dos porcos e de homens:
Ouviste acaso, ou te foi familiar
Um verbo que nos baixios daqui muito se ouve
O verbo amar?

Porque na cegueira, no charco
Na trama dos vocábulos
Na decantada lâmina enterrada
Na minha axila de pelos e de carne
Na esteira de palha que me envolve a alma

Do verbo apenas entrevi o contorno breve:
É coisa de morrer e de matar mas tem som de sorriso.
Sangra, estilhaça, devora, e por isso
De entender-lhe o cerne não me foi dada a hora.

É verbo?
Ou sobrenome de um deus prenhe de humor
Na péripla aventura da conquista?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Hilda Hilst, VIII º poema da série AMAVISSE "Guardo-vos manhãs de terracota e azul..."


Guardo-vos manhãs de terracota e azul
Quando o meu peito tingido de vermelho
Vivia a dissolvência da paixão.
O capim calcinado das queimadas
Tinha o cheiro da vida, e os atalhos
Estreitos tinham tudo a ver com o desmedido
E as águas do universo se faziam parcas
Para afogar meu verso. Guardo-vos, Iluminadas
Recendentes manhãs tão irreais no hoje
Como fazer nascer girassóis do topázio
E dos rubis, romãs.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Hilda Hilst, "Honra-me com teus nadas...(da série Sobre a Tua Grande Face)"


Honra-me com teus nadas.
Traduz me passo
De maneira que eu nunca me perceba.
Confunde estas linhas que te escrevo
Como se um brejeiro escoliasta
Resolvesse
Brincar a morte de seu próprio texto.
Dá-me pobreza e fealdade e medo.
E desterro de todas as respostas
Que dariam luz
A meu eterno entendimento cego.
Dá-me tristes joelhos.
Para que eu possa fincá-los num mínimo de terra
E ali permanecer o teu mais esquecido prisioneiro.
Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão.
Tu sabes que amo os animais
Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome
Não desejo alívio. Apenas estreitez e fardo.
Talvez assim te encantes de tão farta nudez.
Talvez assim me ames: desnudo até o osso
Igual a um morto.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Hilda Hilst, "Extrema, toco-te o rosto..." XIIIº poema da série Amavisse


Extrema, toco-te o rosto. De ti me vem
À ponta dos meus dedos o ouro da volúpia
E o encantado glabro das avencas. De ti me vem
A noite tingida de matizes, flutuante
De mitos de água. Inaudita.
Extrema, toco-te a boca como quem precisa
Sustentar o fogo para a própria vida.
E úmido de cio, de inocência,
É à saudade de mim que me condenas.

Extrema, inomeada, toco-te a mim.
Antes, tão memória. E tão jovem agora.

domingo, 16 de agosto de 2015

Hilda Hilst, "VII poema da 'Vida Vazia'"


Tu sabes que serram cavalos vivos
Para que fiquem macias
As sacolas dos ricos?
Tu gozas ou defecas
Diante de ato sem nome
O rubro obsceno dessa orgia?

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Hilda Hilst, "De cigarras e pedras ... (Da Via Espessa)"


De cigarras e pedras, querem nascer palavras.
Mas o poeta mora
A sós num corredor de luas, uma casa de águas.
De mapas-múndi, de atalhos, querem nascer viagens.
Mas o poeta habita
O campo de estalagens da loucura.

Da carne de mulheres, querem nascer os homens.
E o porta preexiste, entre a luz e o sem nome.



sábado, 13 de dezembro de 2014

Hilda Hilst












"Testamento lírico"

Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Hilda Hilst










"Aflição de ser eu e não ser outra..."
                                              
                       "Aflição de ser terra / Em meio às águas"
                                    Péricles E. da Silva Ramos

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha


Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)


Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel


Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Hilda Hilst, "Poemas Malditos, Gozosos e Devotos"

O conjunto dos "Poemas Malditos, Gozosos e Devotos" são vinte e um poemas onde Hilda Hilst se dirige a Deus.
Ela tem uma leitura cristã, crê nele, mas é uma relação contraditória, onde convivem a devoção, a dúvida, a sedução e a heresia.
Os poemas foram publicados pela primeira vez em 1984.

Farei uma seleta de certos versos de cada um dos vinte e um poemas.


I
..........
Pés burilados
Luz-alabastro
Mandou seu filho
Ser trespassado

Nos pés de carne
Nas mãos de carne
No peito vivo. De carne.

Cuidado.
............

II
.................
Se tu é água
É tocha. É máquina
Poderosa se és rocha.

Um olfato que aspira.
Teu rastro. Um construtor
De finitudes gastas.

É Deus.
Um sedutor nato.
..........

III
................
Caio sobre teu colo.
Me retalhas.
Quem sou?
Tralhas, do teu divino humor.
.................

IV  (integral)

Doem-te as veias?
Pulsaram porque fizeste
Do barro os homens.
E agora dói-te a razão?
Se me visses
Panelas, cuias

E depois de prontas
Me visses
Aquecê-las a um ponto
A um grande fogo
Até fazê-as desaparecer

Dirias que sou demente
Louca?
Assim fizeste aos homens.

Me deste a vida e a morte
Não te dói o peito?
Eu preferia
A grande noite negra
A esta luz irracional da Vida.

V (integral)

Para um Deus, que singular prazer
Ser o dono de ossos, ser o dono de carnes
Ser o Senhor de um breve nada: o homem.
Equação sinistra
Tentando parecença contigo,. Executor.

O Senhor do meu canto, dizem?  Sim.
Mas apenas enquanto dormes.
Enquanto dormes, eu tento meu destino.
Do teu sono
Depende meu verso minha vida minha cabeça.

Dorme, inventado imprudente menino.
Dorme. Para que o poema aconteça.

VI

Se mil anos vivesse
Mil anos te tomaria.
Tu
E tua cara fria.
........................
Teu vício de palavras.
Teu silêncio de facas.
As nuas molduras
de tua alma.
...........................
Imagina-te a mim
A teu lado inocente
A mim, e a essa mistura
de piedosa, erudita, vadia
E tão indiferente.

Tu sabes.
Poeta buscando altura
nas tuas coxas frias.
...............

VII (integral)

É rígido e mata
Com seu corpo estaca.
Ama mas crucifica.

O texto é sangue
E hidromel.
E sedoso e tem garra
E lambe teu esforço

Mastiga teu gozo
Se tens sede, é fel.

Tem tríplices caninos.
Te trespassa o rosto
E chora menino
Enquanto agonizas.

É pai, filho, passarinho.

Ama. Pode ser fino
Como um inglês.
É genuíno. Piedoso.
Quase sempre assassino.
É Deus.

VIII (integral)

É neste mundo que te quero sentir
É o único que sei. O que me resta.
Dizer que vou te conhecer a fundo
Sem as bênçãos da carne, no depois,
Me parece a mim magra promessa.
Sentires da alma? Sim. Pode, ser prodigiosos.
Mas tu sabes da delícia da carne.
Dos encaixes que inventaste. De toques.
Do formoso das hastes. Das corolas.
Vês como fico pequena e tão pouco inventiva?
Haste. Corola. São palavras róseas. Mas sangram.

Se feitas de carne.

Dirás que o humano desejo
Não te percebe as fomes. Sim, meu Senhor,
Te percebo. Mas deixa-me amar a ti, neste texto
Com os enlevos
De uma mulher que só sabe o homem.

IX

Poderias ao menos tocar
As ataduras da tua boca?
Panos de linho luminescentes
Com que magoas
Os que te pedem palavras?
....................
Me permitirias te sentir a língua
Essa peça que alisa nossas nucas
E fere rubra
Nossas Humanas delicadas espessuras?
.................
Poderia, meu Deus, me aproximar?
Tu, na montanha.
Eu no meu sonho
de estar
Nos resíduos dos teus sonhos?

X

.......................
Busco tua boca de veios
Adentro-me nas emboscadas
vazia te busco
os meios.
Te fechas, teia de sombras
Meus Deus, te guardas.

A quem te procura, calas,
A mim que pergunto escondes
Tua casa e tuas estradas.
Depois trituras. Corpo de amantes
E amadas.

E buscas
A quem nunca te procura.

XI (integral)

Sobem-me as águas. Sobem-me as fúrias.
Fartas me sobem dor e palavras.
De vidro, nozes, de vinhas, me sabem dores
Tão tardas, tão carecentes.

Por que te fazes antigo, se nunca te demoraste
Na terra que preparei, nem nas calçadas
Da casa? Me vês e me pensas caça?
Ai, não. Não me pensas. Eu sim, nas noites

Que caminhadas. Que sangramento de passos.
Que cegueira pretendendo
Seguir teu próprio cansaço. Olha-me a mim.
Antes que eu morra de águas, aguada do que inventei.

XII

Estou sozinha se penso que tu existes.
Não tenho dados de ti, nem tenho tua vizinhança.
E igualmente sozinha se tu não existes.
De que adiantam
Poemas ou narrativas buscando

Aquilo, que se não é, não existe
Ou se existe, então se esconde
Em sumidouros e cimos, nomenclaturas

Naquelas não evidências
De matemática pura? É preciso conhecer
com precisão para mar? Não te conheço.
....................................

XIII

....................
Alguém me diz que esse alguém
eu gritava, a mim se parecia.
Mas era mais menina, percebes?
De certo modo mais velha
Como alguém que voltando de guerrilhas
Mulher das matas, filha das ideias.
......................

XIV (integral)

Se te ganhasse, meu Deus, minh'alma se esvaziaria?
Se a mim me aconteceu com os homens, por que não com Deus?
De início as lavas do desejo, e rouxinóis no peito.
E aos poucos lassidão, um desgosto de beijos, um esfriar-se

Um pedir que se fosse, fartada de carícias.
Se te ganhasse, que coisas ainda desejaria minh'alma?
Se ficasses? Que luz seria em mim mais luminosa?
Que negrume mais negro?

Não haveria mais nem sedução, nem ânsias.
E partirias. Em vazia de ti porque tão cheia.
Tu, em abastanças do sentir humano, de novo dormirias.

XV (integral)

Desenho um touro na seda.
Olhos de um ocre espelhado
O pelo negro, faustoso
Seduzo meu deus montado
Sobre este touro.

Desenhas Deus? Desenho o nada
Sobre este grande costado.
Um rio de cobre deságua
Sobre estas patas.
Uma mulher tem nas mãos
Uma bacia de águias

Buscando matar a sede
Daquele divino Nada.

O touro e a mulher sou eu.
Tu és, meu Deus,
A vida não desenhada
Da minha sede de céus.

XVI

Se eu já soubesse quem sou
Te saberia. Como não sei
Planto couves e cravos
e espero ver tua cara
Em tudo que semeei.
.................................

XVII (integral)

Penso que tu mesmo cresces
Quando te penso. e digo sem cerimônias
Que vives porque te penso.
Se acaso não te pensasse
Que fogo se avivaria não havendo lenha?
E se não houvesse boca
Por que o trigo cresceria?

Penso que o coração
Tem alimento na Ideia.
Teu alimento é uma serva
Que bem te serve á mão cheia.
Se tu dormes ela escreve
Acordes que te nomeiam.
Abre teus olhos, meu Deus.
Come de mim a tua fome.

Abre tua boca. E grita este nome meu.

XVIII

Se some, tem cuidado.
Se não some é fardo.
Cuida que ele não suma

Pois ficará mais pesado
Se sumir de tua alma.
................
Cuida que tal ideia
te tome. melhor um cheio de dentro
Que não conheces, um fartar-se
De um nada conhecimento

Do que um vazio de luto
Umas cascas sem os frutos
Pele sem corpo, ou ossos
Sem matérias que os sustente.
..............................

XIX

Teus passos somem
Onde começam as armadilhas.
Curvo-me sobre a treva que me espia.
......................
Então me deito sobre as roseiras.
Hei de saber o amor à tua maneira.

Me queimo em sonhos, tocando estrelas.

XX (integral)

Move-te. Desperta.
Há homens à tua procura.
Há uma mulher que sou eu.
A terra mora na Via-Láctea
Eu moro à beira de estradas
Não sou pequena nem alta.

Sou muito pálida
porque muito caminhei
Nas escurezas, no vício
De perseguir uns falares
Teus indícios.

Move-te. Tua aliança com os homens
Teu atar-se comigo
Tem muito de quebra e dessemelhança.
Muitos de nós agonizam.
A terra toda. Há de ser quase
brinquedo adivinhares
Onde reside o pó, onde reside o medo.

Não te demores.
Eu tenho medo: Poeira.

Move-te se te queres vivo.


XXI (integral)

Não te machuque a minha ausência, meu Deus,
Quando eu não mais estiver na Terra
Onde agora canto amor e heresia.
Outros hão ferir e amar
Teu coração e corpo. Tuas bifrontes
valias, mandarim e ovelha, soberba e timidez.

Não temas.
meus pares e outros homens
Te farão viver destas duas voragens:
Matança e amanhecer, sangue e poesia.

Chora por mim. pela poeira que fui
Serei e sou agora. pelo esquecimento
Que virá de ti e dos amigos,
Pelas palavras que te deram vida
E hoje me dão morte. Punhal, cegueira

Sorri, meu deus, por mim. De cedro
De mil abelhas tu és. Cavalo d'água
Rondando o ego. Sorri. Te amai sonâmbula
Esdrúxula, mas te amei inteira.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Hilda Hilst, XIXº poema de "Da morte, Odes Mínimas"


Se eu soubesse
Teu nome verdadeiro

Te tomaria
Úmida, tênue

E então descansarias.

Se sussurrares
Teu nome secreto
Nos meus caminhos
Entre a vida e o sono

Te prometo, morte,
A vida de um poeta. A minha:
Palavras vivas, fogo, fonte.

Se me tocares,
Amantíssima, branda
Como fui tocada pelos homens

Ao invés de Morte
Te chamo Poesia
Fogo, Fonte, palavra viva
Sorte.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Hilda Hilst, "Aflição de ser eu e não ser outra..."


Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
 
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha.)
 
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
 
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Hilda Hilst, "Se um dia te afastares de mim, Vida ..."


Se um dia te afastares de mim, Vida - o que não creio
Porque algumas intensidades tem a parecença da bebida -
Bebe por mim paixão e turbulência, caminha
Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as).
Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te
Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado vazio.
Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso: compreenderá
O porquê de buscar conhecimento na embriaguês da via manifesta.
Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:
O êxtase de te deitares contigo. Beba.
Estilhaça a tua própria medida.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Hilda Hilst














"Teu rosto ..."

Teu rosto de faz tarde
Sob a minha mão.
E envelheço terna
Dividida e austera
Um mergulho de luz
Metade treva.

Pinceis de fino pelo
Desenhando emoções.
Teu rosto se faz noite
Niquelado traço
Anil e ouro baço
Sob a minha mão.

E jardins de gelo
E muralhas-espelho
E papeis guardados
Castos de desejo.

Teu rosto
Uma tintura de fogo
Na planície dos dedos.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Hilda Hilst, "Iº Canto dos Cantares de perda e predileção".


Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças

Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.

Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijolos
Pás, a areia dos dias

E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Hilda Hilst, "Eu era parte da noite..."

Eu era parte da noite e caminhava
Adusta e austera
Sem luz nem aventurança.
Tu eras praia e dia
Um fogo branco
O rosto da montanha sobre a terra.

E juntamos a treva
Ao mar do meio-dia
Cristas aguadas, pontas
Trilhas fosflorescentes
Na vastidão das sombras

Mas um instante apenas.

Por isso é que caminho como antes
Adulta e austera.
Acrescida de véus me mostro aos viajantes:
Vês a mulher, aquela?
Dizem que a cara é de caliça e pedra.
Que a luz das ilusões passou por ela.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Hilda Hilst, "Toma para teu gozo ..."

Toma para teu gozo
Este rio de saudade.
Nenhum recobrirá teu corpo
Com tamanha leveza
E tal gosto.

Ainda que sejam muitos
Os largos rios da Terra.

Toma para teu gozo
Minha dor e insanidade
De nunca voltar a ver
Meu próprio rosto.
E aguarda uma tarde sem tempo
Quando serei apenas retalhada

Um espelho molhado de umas águas.

domingo, 17 de julho de 2011

Hilda Hilst, "Se me viessem à boca ..."

Se me viessem à boca
As palavras foscas
Para te abrandar.
Se levez e sopro
Habitassem a casa
Do meu corpo
Não seria eu aquela do teu gosto
E amaria lírios
Ao invés de ostras.
Se comedimento
Mornidão, prudência
Me dourassem a carne
E o coração
Tu me dirias rouco
Que a bem do Desejo
Desfez-se o Paraíso
E inventou-se a Paixão.

Bem porisso preserva
Quem te sabe inteiro.
Cala teu instante
De um ciúme que repete
Que devo ser repouso
E contenção.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Hilda Hilst, "As barcas afundadas ..."

As barcas afundadas. Cintilantes
Sob o rio. E é assim o poema. Cintilante
E obscura barca ardendo sob as águas.
Palavras eu as fiz nascer
Dentro de tua garganta.
Húmidas algumas, de transparente raiz:
Um molhado de línguas e de dentes.
Outras de geometria. Finas, angulosas
Como são as tuas
Quando falam de poetas, de poesia.

As barcas afundadas. Minhas palavras.
Mas poderão arder luas de eternidade.
E doutas, de ironia as tuas
Só através de minha vida vão viver.