Mostrando postagens com marcador Invenção de Orfeu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Invenção de Orfeu. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de julho de 2017

Jorge de Lima, "Soneto IV do Canto IV (As aparições) da Invenção de Orfeu"


Era um cavalo todo feito em lavas
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.

Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.

Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem* do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.

Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o incubo cavalo se nutria.


*Salsugem - Lodo que contém substâncias salinas.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Jorge de Lima, "Canto 1, A Fundação da Ilha, da Invenção de Orfeu"


Tu queres ilha: despe-te das coisas,
das excrecências, tira de teus olhos
as vidraças e os véus, sapatos de
teus pés, e roupas, calos, botões e

também as faces que se colam à
tua, e os braços alheios que te abraçam
e os pés que querem ir por ti, e as moças
que querem te esposar, e os ais (não ouças!)

que querem te carpir, e os campos que
querem te consolar, e os tantos guias
que querem te perder, e as ventanias

que não dormem, que batem alta noite,
tristes, em tua porta, se ressonas
pois nem o vento, nada te abandona.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Jorge de Lima, "Agora os girassóis entardecidos ..."


Agora os girassóis entardecidos,
e esse lírio e essa rosa tão exangue
e essa mancha de símbolos sombrios
quase como um desmaio ou leve sangue.

Sobre os bosques caiu a tarde cinza
e a estrela temporária se augurou;
pendem das hastes cálices noviços,
e a cansada corola se esboroou.

E os cílios baixam gotejando chuvas
sobre os vidros das horas enterradas
com os momentos dos crimes e virtudes.

Algum arroio corre com essas lágrimas
mas tão ligeiro pela escarpa aguda
que os olhos de quem vê nunca vêem nada.

domingo, 7 de agosto de 2011

Jorge de Lima, "Poema XVIII, do Canto V, da Invenção de Orfeu".

Poema tão amargo que parece
ser apenas palavras despenhadas
sobre cactos e espinhos semeadas
onde uma liana turva se entretece.

Ó vagos olhos cuja luz parece
um segredo de trevo não amado.
Pelos climas da luz expira um fado
roto e ferido como extrema prece.

Quem morre aceso na tartárea chama ?
Que é que há pouco em cinza se carpia
e do passado vem agora, e clama ?

Que coisa é que anoitece nesse dia ?
Que poeta morimbundo a essa vil cama
tombou despedaçado de onde se ia ?

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Jorge de Lima, Poema XII do Canto VII - Audição de Orfeu, da INVENÇÃO DE ORFEU.

Com todo o amoroso ódio e a angústia mansa
há na face um desânimo latente;
qualquer coisa exaurida na distância
para dar à paixão outra vertente.

Entristeço-me ao ruído persistente
do tempo para trás como a memória,
permaneço ora ileso ora ilusório.
Que segredo tão árduo eu esse doente.

E entre temeridades e temores
dou às coisas irreais nova constância
sob o peso dos seres meus e vossos.

Pois de todos os grandes desatinos
que possuem densidades diferentes,
diante de muitos sou sózinho e ossos.

sábado, 2 de julho de 2011

Jorge de Lima, Poema XIII do Canto VII- Audição de Orfeu, da INVENÇÃO DE ORFEU.

E esse velho e atroz poema?
Quem acaso o arquitetou?
Que mão sem braço o escreveu?
Que Leonora o mereceu?
Que mulheres vivem nele?
Que loucura o escureceu?
Ó tecido de memórias
recuadas de meu tempo
que a eternidade comeu!

Ó noites claviculares,
epopéia sem guerreiro,
humana sobrevivência
das lembranças recalcadas,
cem avós en cada cântico
prévio nunca amanhecido.

Deixai-me nele.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Jorge de Lima, Poema IX do Canto VI (Canto de Desaparição), da Invenção de Orfeu.

Um momento há na vida, de hora nula,
em que o poema vê tudo, viu, verá;
e a si mesmo, na cera em que se anula,
sob o fogo dos céus, consumir-se-á.

Há nas fomes dos tempos, uma gula,
uma vicissitudes, fados, ah!
Há tempos em que o canto se modula
sob sibilo de cassandra má.

Vejo morrer, ó céus, em dura lei,
meus membros, minhas vísceras, meus ossos
sob as rosas de lava que inventei.

Antes que os lábios, amanhá, ó poema,
hirtos se calem, vossos, serão vossos,
esses cantos de renunciação.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Jorge de Lima, Poema VIII, do Canto V, da "Invenção de Orfeu"

Estão aqui as pobres coisas: cestas
esfiapadas, botas carcomidas, bilhas
arrebentadas, abas corroídas,
com seus olhos virados para os que

as deixaram sózinhas, desprezadas,
esquecidas com outras coisas, sejam:
búzios, conchas, madeiras de naufrágio,
penas de ave e penas de caneta,

e as outras pobres coisas, pobres sons,
coitos findos, engulhos, dramas tristes,
repetidos, monótonos, exaustos,

visitados tão só pelo abandono,
tão só pela fadiga em que essas ditas
coisas goradas e orfãs se desgastam.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Jorge de Lima, Poema XI do Canto Primeiro, da "Invenção de Orfeu.

Quem te fez assim soturno
quieto reino mineral,
escondido chão noturno ?

Que bico rói o teu mal ?
Quem antes dos sete dias
te argamassou em seu gral ?

Quem te apontou pra onde irias ?
Quem te confiou morte e guerra ?
Quem te deu ouro e agonias ?

Quem em teu seio de terra
infundiu a destruição ?
Quem com lavas em ti berra ?

Quem fez do céu o chão
quieto reino mineral ?
Quem te pôs tão taciturno ?

Que gênio fez por seu turno
antes do mundo nascer;
a criação do metal,
a danação do poder ?

quarta-feira, 30 de março de 2011

Jorge de Lima













"Introdução ao Canto Primeiro - Fundação da Ilha, da Invenção de Orfeu"

                        I

Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama.

Nobre apenas de memórias,
vai lembrando de seus dias,
dias que são as histórias,
histórias que são porfias
de passados e futuros,
naufrágios e outros apuros,
descobertas e alegrias.

Alegrias descobertas
ou mesmo achadas, lá vão
a todas as naus alertas
de vária mastreação,
mastros que apóiam caminhos
a países de outros vinhos.
Está é a ébria embarcação.

Barão ébrio, mas barão,
de manchas condecorado;
entre o mar, o céu e o chão
fala sem ser escutado
a peixes, homens e aves,
bocas e bicos, com chaves,
e ele sem chaves na mão.

Raramente comento o que posto aqui, pois não tenho conhecimento profundo e sistematizado de literatura ou arte plástica. Só o faço quando acho que posso acrescentar algo de novo ou importante sobre os poemas e imagens.
Se estão aqui é porque eu gosto, porque eu admiro. E só.
Mas, não posso deixar de acrescentar a imensa impressão que está me causando a descoberta de Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima.