quinta-feira, 29 de março de 2018
Murilo Mendes, "A destruição"
Morrerei abominando o mal que cometi
E sem ânimo para fazer o bem.
Amo tanto o culpado como o inocente.
Ó Madalena, tu que dominaste a força da carne,
Estás mais perto de nós do que a Virgem Maria,
Isenta, desde a eternidade, da culpa original.
Meus irmãos, somos mais unidos pelo pecado do que pela Graça:
Pertencemos à numerosa comunidade do desespero
Que existirá até a consumação do mundo.
segunda-feira, 26 de março de 2018
Murilo Mendes, "A danação"
Há fortes iluminações sem permanência.
A parte da Graça é tão pequena
Que me vejo esmagado pelo monumento do mundo.
Quem me ouvirá? Quem me verá? Quem me há de tocar?
Chorai sobre mim, sobre vós e sobre vossos filhos.
A fulguração que me cerca vem do demônio.
Maldito das leis inocentes do mundo
Não reconheço a paternidade divina.
Eu profanei a hóstia e manchei o corpo da Igreja:
Os anjos me transportam do outro mundo para este.
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Murilo Mendes, "Equilíbrio"
Maria do Rosário,
há cinco anos que outro homem te levou ao altar.
Há cinco anos
que a vida espera no fundo do teu ventre bem desenhado.
Tua beleza definitiva
depende da sombra do filho que ainda não tens.
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Murilo Mendes, "O homem, a luta e a eternidade"
Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!
Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2015
Murilo Mendes, "Vidas opostas de Cristo e dum homem"
cada vez que ressuscitas um homem, me destruo a mim mesmo.
Enquanto o demônio te tenta no deserto
eu sonho com os corpos que a terra criou.
Enquanto passas fome e sede quarenta dias
os meus sentidos se desalteram.
Cada vez que cais ao peso da tua cruz
eu caio com uma mulher de última classe.
Enquanto te multiplicas na humanidade
não saio dos limites da minha pessoa.
Depois da morte voltas pra absolver o justo e o pecador,
eu antes da morte já condenei o pecador, o justo e eu mesmo.
Senhor do mundo,
me tira de mim pra que eu possa olhar os outros e eu mesmo.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Murilo Mendes, "Solidariedade"
Sou ligado pela herança do espírito e do sangue
Ao mártir, ao assassino, ao anarquista.
Sou ligado
Aos casais na terra e no ar,
Ao vendeiro da esquina,
Ao padre, ao mendigo, à mulher da vida,
Ao mecânico, ao poeta, ao soldado,
Ao santo e ao demônio,
Construídos à minha imagem e semelhança.
domingo, 27 de julho de 2014
Murilo Mendes

"Lamentação"
Nenhum homem tem mais saída:
Antes de nós o dilúvio.
Durante o tédio no caos,
Depois o épico escuro.
A esperança desespera.
Os olhos não são para ver
Nem os ouvidos para ouvir.
O diálogo virou monólogo,
Meio-dia é meia-noite.
Todos curvados constroem
Suas próprias algemas.
O longo ai das criaturas
Sobe para o céu
Forrado de espadas.
quarta-feira, 28 de maio de 2014
Murilo Mendes, "A mulher anônima".
Daquela forma admirável mas sem nome
Que uma tarde te disse adeus
Enquanto o automóvel parou um minuto na estrada.
Lembra-te da mulher pouco decorativa, mulher simples
Que não tiveste coragem de arrancar violento ao espaço
E que certamente nunca mais tornarás a ver.
Lembra-te da bela mulher que estremeceu por ti
E sê-lhe fiel até o último dia da tua vida.
domingo, 27 de abril de 2014
Murilo Mendes, "Antielegia nº 1"
O dia e a noite são ligados pelo prazer
E pelas ondas do ar
A vida e a morte são ligadas pelas flores
E pelos túneis futuros
Deus e o demônio são ligados pelo homem
terça-feira, 5 de março de 2013
Trecho de uma carta de Murilo Mendes a Lêdo Ivo.
Roma, 6 de março de 1964.
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Também eu tive 40 anos, e sei que idade gostosa é. Madura sim, mas ainda com muitos rescaldos da mocidade. Tempo de recomeçar descobertas, de selecionar valores, tempo antológico.
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Murilo Mendes
"Impenitente"
Não acho consolo no meio dos outros.
Homens, tenho convosco a relação da forma.
Nuvem sólida, água virginal, água branca
E tu, grande sinfonia aérea,
Pertenceis aos anjos, não a mim.
Eu digo ao pecado: Tu és meu pai.
Eu digo à podridão: Tu és minha irmã.
A presença real do demônio
É meu pão de vida cotidiano.
Minha alma comprime a aleluia gloriosa.
Hóstias puras,
Inutilmente vos ergueis sobre mim.
domingo, 15 de julho de 2012
Murilo Mendes, "Ante um cadáver"
Quando abandonaremos a parte inútil decorativa do nosso ser ?
Quando nos aproximaremos com fervor da nossa essência,
Partindo nosso pobre pão com o Hóspede
Que está no céu e está próximo a nós?
Para que esperar a morte a fim de nos conhecermos...
É em vida que devemos nos apresentar a nós mesmos.
Ainda agora essas coroas, esses letreiros, essas flores
Impedem de se ver o morto na verdade.
Estendam numa prancha o homem nu definitivo
E o restituam enfim à sua prometida solidão.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Murilo Mendes, "Ana Luiza"
Tens um farrapo de vida
Mas um corpo forte sensual
Uma cabeça vitoriosa
Plantada num tronco largo.
Está sendo lentamente devorada
Por seres microscópicos
Ana Luísa.
No sanatório usava lentes escuras
Para esconder teus célebres olhos azul-cinza
E tinhas medo do definitivo e monumental:
Estendida continuamente na espreguiçadeira,
Da força das montanhas te ocultavas.
De nada te valeu minha ternura,
De nada tua beleza te valeu.
Talvez te tornes para sempre invisível
Agora que eu te arranquei da penumbra dos tempos
Ana Luísa.
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Murilo Mendes
Deram-me um corpo, só um!
Para suportar calado
Tantas almas desunidas
Que esbarram umas nas outras,
De tantas idades diversas;
Uma nasceu muito antes
De eu aparecer no mundo,
Outra nasceu com este corpo,
Outra está nascendo agora,
Há outras, nem sei direito,
São minhas filhas naturais,
Deliram dentro de mim,
Querem mudar de lugar,
Cada uma quer uma coisa,
Nunca mais tenho sossego.
Ó Deus, se existis, juntai
Minhas almas desencontradas.
sábado, 25 de junho de 2011
Murilo Mendes, "Mas"
As ondas amarguradas
Encostam a cabeça na pedra do cais.
Até as ondas possuem
Uma pedra para descansar a cabeça.
Eu na verdade possuo
Todas as pedras do mundo,
Mas não descanso.
As mulheres me dão corda
Mas somem nas alturas.
Eu apalpei aquele seio,
Minhas mãos ficaram boquiabertas.
Aqueles olhos gritaram na minha direção
Mas depois desfaleceram.
O mundo se desfaz em pedra
Na minha direção,
Mas as pedras marcham, não param,
Não poderei descansar.
A poesia é muito grande,
Mas o alfabeto é curto
E a preguiça, bem comprida.
O amor é muito grande
Mas não é puro, as mulheres
Toda hora humilham a gente
Com golpes fundos de olhares,
Com arrancadas de seios...
Mas assim mesmo inda é bom.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Murilo Mendes, "O poeta na igreja"
Entre a tua eternidade e o meu espírito
se balança o mundo das formas.
Não consigo ultrapassar a linha dos vitrais
pra repousar nos teus caminhos perfeitos.
Meu pensamento esbarra nos seios, nas coxas
                                                                  [e ancas das mulheres,
pronto.
Estou aqui, nu, paralelo à tua vontade,
sitiado pelas imagens exteriores.
Todo o meu ser procura romper o seu próprio molde
em vão! noite do espírito
onde os círculos da minha vontade se esgotam.
Talhado pra eternidade das idéias
ai quem virá povoar o vazio da minha alma?
Vestidos suarentos, cabeças virando de repente,
pernas rompendo a penumbra, sovacos mornos,
seios decotados não me deixam ver a cruz.
Me desliguem do mundo das formas!
segunda-feira, 21 de março de 2011
Murilo Mendes, "O homem, a luta e a eternidade"
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!
Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Murilo Mendes,"Sou ligado ..."
Sou ligado pela herança do espírito e do sangue
Ao mártir, ao assasino, ao anarquista,
Sou ligado
Aos casais na terra e no ar,
Ao vendeiro da esquina,
Ao padre, ao mendigo,
À mulher da vida,
Ao mecânico, ao poeta, ao soldado,
Ao santo e ao demônio,
Construídos à minha imagem e semelhança.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Murilo Mendes, "Mapa"
Me colaram no tempo,
me puseram uma alma viva e um corpo desconjuntado.
Estou limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,
a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,
depois chego à consciência da terra,
ando como os outros,
me pregam numa cruz, numa única vida.
Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem,
vou rindo, vou andando, aos solavancos.
Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,
gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos
                                                                                                [do ar,
alguém da terra me faz sinais,
não sei mais o que é o bem nem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía,
estou suspenso, angustiado, no éter,tonto de vidas, de cheiros,
                                                        [de movimentos, de pensamentos,
não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados,
me balanço em arenas espanholas,
é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens
                                                                                [imaginários,
depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,
na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo,
daqui a cem anos, levantando populações…
Me desespero porque não posso estar presente a todos os
                                                                                            [atos da vida.
Onde esconder minha cara?
O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,
presságios brotando no ar,
diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor,
outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo.
Almas insatisfeitas, ardentes.
Detesto os que se tapeiam,
os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…
Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,
os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,
as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.
Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque
                                                                              [jejuavam muito…
viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça
                                                                                            [transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,
dos amores raros que tive,
vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,
tudo é ritmo do cérebro do poeta.
Não me inscrevo em nenhuma teoria,
estou no ar,
na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,
no meu quarto modesto da praia de Botafogo,
no pensamento dos homens que movem o mundo,
nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,
sempre em transformação.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Murilo Mendes, "Os Dois Lados"
Deste lado tem meu corpo
Tem o sonho
Tem a minha namorada na janela
Tem as ruas gritando de luzes e movimentos
Tem meu amor tão lento
Tem o meu anjo da guarda
Que às vezes se esquece de me guardar
Tem o mundo batendo na minha memória
Tem o caminho para o trabalho.
Do outro lado tem outras vidas vivendo a minha vida
Tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
Tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão
Tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.

