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quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Ivo Barroso, "O filho pródigo"
Dentro da casa havia aquela morna
adulação dos olhos dos parentes
e o filho que chegava da distância
de muitos desalmados contratempos
parou na emudecida plenitude
da aceitação do gesto de quem fica
e adormeceu em seus umbrais sonhando
o sonho bom de quem não vê caminhos.
Mas na ronda de muitas outras tardes
sentiu que o teto lhe pesava aos ombros
e notou nos olhares da chegada
o já pressentimento da partida.
E voltando nos passos do que veio
já não era quem vai, mas quem retorna.
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Ivo Barroso, "O peixe de Neruda"
Neruda pôs um peixe na bandeira
que desfraldava em frente à sua casa.
Talvez quisesse assim, desta maneira,
dizer que um peixe voa sem ter asa.
Dizer que nós podemos transformar
as coisas pela força da vontade:
que o mar pode ser céu, o céu ser mar,
dependendo do olhar, da intensidade.
Talvez quisesse nos dizer que a vida
é o exercício de enganar a morte;
que depende de nós uma saída,
parar os dados, reverter a sorte.
Que toda coisa é muito mais que a coisa
em si; que um nome pode ser trocado:
tudo consiste em ser a mariposa
que se transforma num milagre alado.
Assim, pensando bem, o que Neruda
buscou simbolizar com o peixe erguido
na flâmula, que agora se transmuda
em onda do mar, tem múltiplo sentido:
Antes do mais, é a pura imagem física
do peixe, o seu desenho, o seu traçado
geométrico, a linha elíptica, a risca,
o contorno preciso e elaborado;
a exatidão de meios, essa técnica
biológica que o torna a parte viva
da água em que ele vive, a chispa elétrica
que intensa o move, orienta, compulsiva.
O peixe de Neruda é mais que um peixe,
é uma bandeira, é mais que uma bandeira,
um conjunto de símbolos, um feixe
de acepções — a mitologia inteira.
É um peixe apostólico, sem dúvida,
a ser multiplicado quando há bodas;
mas é também um peixe só e único,
quando se forem as esperanças todas.
Pois é o peixe de Cristo e do infinito,
esse oito deitado e em si completo,
oracular, sinal na areia escrito,
signo zodiacal, moto perpétuo.
Por isso penso às vezes que Neruda
ao erguer de manhã aquele mastro,
com voz potente e ao mesmo tempo muda,
dizia versos ao seu peixe-astro:
‘Acorda, ó peixe inaugural, ó peixe matutino
Longe de teu reduto aquático, nos ares;
Deixa a esponja, o coral, o caramujo
— Teus amigos agora são as aves.
Deixa o reduto de imersões profundas,
Liberta-te de abraços isobáricos
E paira livre de teu peso em voo silencioso e estático;
Nada nesse ondulante pavilhão que o vento do mar fustiga.
És agora o peixe em estado virtual, o peixe-pensamento, espadanando
A esbranquiçada metamorfose das escamas.
A ti entrego o destino de uma espécie
Marítima e volátil, a dupla vida
Que intentamos viver sem os recursos
Que ora te empresto da imaginação.
A ti confio o destino de todos estes seres
Que querem ser bem mais do que têm sido.
Mas que lhes falta o anseio de ter asas
Ou temem sempre mergulhar no abismo’.
E tarde, tendo os olhos seus imersos
no pôr-do-sol, descendo o pavilhão,
talvez Neruda lhe dissesse versos
— que o verso de Neruda é uma oração:
‘Volta, ó peixe vesperal, mergulhador do ocaso,
Ao seio original de onde saíste, entre líquenes e anêmonas;
Conta às algas o azul do céu quando os stratus
coroam as colinas,
Agora sabes os segredos dos que pairam acima do horizonte,
Mas dize-lhes também que aventura inaudita
É viver em dois mundos, é saber que estás aqui
Mas que podes pairar além do insuspeitado.
Sonda teu elemento com perícia mas denodo,
Não deixes o recôndito esquecido,
Nele há tesouros que ainda não fulguram
Por lhes faltarem olhos que os vejam.
Vai mais fundo, explora os teus recursos mais íntimos,
A força potencial que jaz nessas escamas
Que tatalaram como virgens rêmiges,
Um dia nas alturas.
Usa teus olhos oblíquos para veres na sombra
O que muitos não vêem em pleno dia,
Sê tu mesmo, sabendo bem que podes
Ser outro, muitos mais, ser legião, miríade
Sem trair o que de mais teu trazes contigo.
Amanhã, serás outro meu amigo.’
E ouvindo o Poeta descobri que havia
algo de mais recôndito na imagem:
Além de toda essa mitologia,
há no peixe uma última mensagem.
A de que é a Poesia um peixe-alado
e o Poeta um ser que busca o vir-a-ser.
Vive para dar vida ao Incriado,
pois que a missão do Poeta é transcender.
domingo, 24 de julho de 2016
Ivo Barroso, "Regresso"
Eis-me de volta! É longe donde venho….
Venho dessa distância que separa
teu beijo quente e a gargalhada clara
do triste ricto que em meus lábios tenho.
Regresso desse abismo que se chama
Ausência… Venho de regiões sombrias…
De um lustro secular de cinco dias,
que doido é o tempo de quem muito ama !
Regresso de um presídio onde cumpri,
dentre as penalidades – a mais alta:
Sentir na carne a dor da tua falta,
sem deixar nunca de pensar em ti.
Retorno da saudade dolorida,
da contenção do meu desejo imenso;
e voltar, e sentir-te, é o mesmo – penso –
que, estando morto, retornar à vida.
Perdoa, pois, a febre dos desejos;
perdoa se os meus beijos e os abraços
machucarem a carne de teus braços
e a tua boca se sangrar de beijos.
sábado, 12 de março de 2016
Ivo Barroso, "O sino"
Teu nome é um sino imerso no meu peito.
Um pequenino verso que nasceu já feito.
Plange tão silente na manhã festiva
de minha alma cheia,
que o não ouve a gente nem desperta a aldeia.
Nasce tão calado da emoção tão viva
que me sela a boca,
que qualquer pessoa não percebe ao lado
como o sino toca, como o verso soa.
segunda-feira, 7 de março de 2016
Ivo Barroso, "Despojamento"
Eliminei o excesso de paisagem
simplifiquei toda a decoração
retirei quadros flores ornamentos
apaguei velas copos guardanapos e a música
Bani a inutilidade do discurso
Na mesa de madeira
nua
apenas dois pratos brancos
sem talheres
O banquete será tua presença
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
Ivo Barroso, "Ronda das minhas quatro volúpias"
A tua boca se abre como um fruto rasgado ao meio
- escarlata e purpurina -
pomo de ouro dos jardins de Hespérides
granada dos milenários pomares babilônicos
maça dos primeiros dentes paradisíacos do pecado
Os teus seios possuem a arrogância das quilhas
demandando a sombria terra dos Latófagos
esporão guerreiro dos vikings legendários
proa aprumes de Argonautas
- Cólquida -
no mar Tritão, no mar antro e sorvedouro
E ó Mitilene, ó Lesbos, ó desgraçado amor
que assim tão forte nos atém às ilhas,
teu sexo
- ó concha e nácar, ó coral e escama -
pontificando entre as mediterrâneas
os jogos de púbis e fálus
E - angra, falésia, morno recorte e ondulação
de montes -
o vale, ó nádegas, na erótica reentrância dos lóbulos
dividindo as róseas carnaduras - Fídias -
ó cidades antigas que as vozes do Senhor petrificaram.
terça-feira, 5 de maio de 2015
Ivo Barroso, "Atalarico"
Atalarico, rei dos godos, penso
no teu reinado fragoroso e intenso.
Estavas com quinze anos e eras rei!
Rodeado pela inculta e forte grei
dos bárbaros, fizeste do poder
um instrumento a mais do teu prazer.
Com rudes favoritos de tua idade
queimaste em chama viva a mocidade
e, aos dezoito anos, velho e decadente
pelas paixões, morreste plenamente
satisfeito em teu mínimo desejo.
Atalarico, rei devasso, invejo
tua curta existência bem vivida:
morres com a boca transbordando vida.
sábado, 4 de outubro de 2014
Ivo Barroso, "Icástico*"
Foi-se o tempo em que eras uma caveira
e a foice
Vejo-te agora como tubos
máscara de oxigênio
num quarto de hospital
Mas o horror ainda é o mesmo
nessa passagem para o nada
* icástico - adj. Que representa com clareza, sem artifícios, objetos ou ideias.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Rainer Maria Rilke
Um deus o pode. Mas, da lira ao solo,
há de o homem consegui-lo? À dissensão
tendemos, e não há Templo de Apolo
no enredar dos ramais do coração.
O canto, como o queres, não são teus
desejos, nem a busca do atingível.
Cantar é ser. Tão fácil para o Deus!
Mas, quando o somos? E Ele, quando ao nível
de nosso olhar o céu e a terra esplende?
Jovem, no amor ainda não és, conquanto
a palavra te suba ao lábio. Aprende
a esquecer que cantaste. É sem alento.
Uma outra coisa é o verdadeiro canto.
Um sopro ao nada. Um voo em Deus. Um vento.
Tradução de Ivo Barroso
domingo, 8 de junho de 2014
Gaspara Stampa, "Soneto de amor"
Se quereis conhecer o meu senhor,
Suponde alguém de vago e doce aspecto,
Jovem na idade e velho no intelecto,
A imagem do triunfo e do valor;
Claro o cabelo e a tez de viva cor,
De boa altura e de garboso peito,
Em tudo quanto faz um ser perfeito,
Só que um pouco (ai de mim!) cruel no amor.
E se quiseres conhecer meu porte,
Vede alguém que nos gestos e semblante
É a imagem dos martírios e da morte;
Fortaleza da fé, pura e constante,
Alguém que embora sofra, arda e suporte,
Não faz piedoso ao seu cruel amante.
Gaspara Stampa foi uma poeta italiana que nasceu em 1523 (Pádua) e morreu em 1554 (Veneza).
Tradução de Ivo Barroso.
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segunda-feira, 17 de março de 2014
César Vallejo, "Os passos distantes"
Meu pai repousa. Seu semblante augusto
semelha um aprazível coração;
parece-me tão puro...
se há nele algo de amargo, serei eu.
Há solidão em toda casa; rezam;
não há notícia de seus filhos hoje.
Meu pai desperta, atenta os olhos
à fuga para o Egito, o lancinante adeus.
Parece-me tão próximo;
se há nele algo distante, serei eu.
E minha mãe passeia nos jardins,
saboreando um sabor já sem sabor.
Parece-me tão suave,
tão asa, tão saída, tão amor.
Há solidão na casa silenciosa,
sem notícias, sem verde, sem infância.
E se algo há de quebrado nesta tarde,
que baixa e que se parte,
são dois velhos caminhos curvos, brancos.
Por eles vai meu coração a pé.
Tradução de Ivo Barroso.
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sábado, 1 de março de 2014
Jorge Luis Borges
"IIº Poema Inglês"
Com que te posso enredar?
Ofereço-te ruas esquálidas, crepúsculos em desespero, a
lua dos subúrbios esburacados.
Ofereço-te a amargura de um homem que longamente
contemplou a lua solitária.
Ofereço-te meus ancestrais, meus mortos, os fantasmas
que os homens vivos perpetuaram no mármore: o pai
de meu pai morto na fronteira de Buenos Aires, duas
balas atravessadas nos pulmões, barbudo e morto,
que seus soldados envolveram num couro de vaca; o
pai de minha mãe - de apenas vinte e quatro anos -
comandando uma carga de trezentos homens no
Peru, hoje fantasmas em cavalos esvaecidos.
Ofereço-te todo enfoque que meus livros possam conter,
toda humanidade ou humor de minha vida.
Ofereço-te a lealdade de um homem que nunca foi leal.
Ofereço-te este cerne de mim mesmo que de certa forma
guardei - o imo* coração que não transige com
palavras, não comercia sonhos e ficou intocado
pelo tempo, a alegria ou as adversidades.
Ofereço-te a lembrança de uma rosa amarela vista ao
pôr-do-sol, em tempos quando nem eras nascida.
Ofereço-te explicações a teu respeito, teorias sobre o tu,
notícias verdadeiras e surpreendentes sobre ti mesma.
Posso dar-te a minha solidão, as minhas trevas, a fome de
meu coração; estou tentando subornar-te com
a incerteza, o perigo, a frustração.
O poema foi originalmente escrito em inglês por Borges, "Two English Poems", e a tradução para o português é do Ivo Barroso.
* imo - adj. e s.m. Íntimo, o que está mais fundo, mais interno; o cerne, o âmago.
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sexta-feira, 25 de outubro de 2013
T.S.Eliot, "A águia se ergue nos confins do céu"
A Águia se ergue nos confins do Céu.
O Caçador com seus cães persegue-lhe o circuito.
Ó perpétua revolução de estrelas configuradas,
Ó perpétua recorrência de determinadas estações.
Ó mundo de outono e primavera, nascimento e morte!
O ciclo interminável da ideia e da ação,
Invenção perene, perpétua experiência,
Traz a noção do movimento, mas não a do repouso;
A ciência da fala, mas não a do silêncio;
A ciência das palavras, e a ignorância da Palavra.
Todo o nosso saber nos aproxima de nossa ignorância,
Toda a nossa ignorância nos acerca da morte,
Mais próximos da morte, e não mais perto de Deus.
Onde a Vida que perdemos no viver?
Onde a sabedoria que perdemos no saber?
Onde o saber que perdemos na informação?
Os ciclos do Céu em vinte séculos
Nos afastam de Deus e nos acercam do Pó.
Tradução de Ivo Barroso
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