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quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Ivan Junqueira, "Talvez o vento saiba dos meus passos..."


Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.
As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.
Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.
Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.

domingo, 22 de abril de 2018

Ivan Junqueira, "Antes que o sol se ponha"


Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;
antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra
às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça
as chamas que me arderam na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Ivan Junqueira, "Ladainha"


Pois agora que estais
sob essa tábuas frias
entre os vermes da terra
e os cravos da agonia: 

agora que a lembrança
da carne se esfarinha
e o pó vos tinge as tíbias
no fundo do jazigo;

agora que dormis,
no jardim das delicias,
esse sono sem fim
que dormem os espíritos;

agora que jazeis
alheios ao suplício
em que se consumiu
vossa esquálida vida

- agora é que vos choro
junto à lápide estrita
da eterna desvalia.
Amém. Amém vos digo.

sábado, 17 de março de 2018

Ivan Junqueira, "Elogio de Plínio"


Nem um dia sem uma linha,
como se impunha o jovem Plínio
naquela Roma em que morria
o último estilo latino,
o da eloqüência bem nutrida
de que os escribas se serviam
em seus pedestres panegíricos.
Mas nem tanto. A lição de Plínio,
que se segue às de Horácio e Ovídio,
cujo estro se embebe em Virgílio,
já não é mais a do elogio,
e sim a do áspero exercício
da língua, do ritmo, da rima,
de tudo a que não renunciam
a fúria e o som da poesia.
Nem um dia sem uma linha,
sem uma dor, uma alegria,
sem um pensamento erradio
daquela vã filosofia
que se move em nós, escondida,
e faz da existência esse enigma
que é não termos princípio ou fim
e até mesmo nenhum sentido.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Ivan Junqueira, "Não virá"


Quando virá? Não virá nunca.
Será sempre a garra adunca
encravada em minha nuca.
Será sempre essa verruma
que a memória me perfura
e o pensamento me empurra
para o túmulo da dúvida.
Será, não o sol, mas a chuva
cujas gotas caem mudas
sobre o inútil latifúndio
onde tudo enfeza e murcha.
Será a alma na penumbra,
alheia ao êxtase e ao júbilo,
sobre si dobrada em ruga
e atenta apenas ao curso
do tempo e de suas curvas,
desse rio em cujo fluxo
somente uma vez mergulhas.
Será talvez, quando muito,
essa espera taciturna,
essa volúpia da luz
que soluça ao fim de um túnel
jamais percorrido a fundo.
Não virá, não virá nunca.
E lá estarás, ao crepúsculo,
sem esperanças nenhuma,
o rosto absorto, mediúnico,
sem mover sequer um músculo.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ivan Junqueira, "O gato"


Vai e vem. O passo
deixa no soalho,
menos que um traço,
um fio escasso
de ócio e borralho.

Clara é a pupila
onde não chove
e que, tranquila,
no ermo cintila,
mas não se move

A pose é exata
a de uma esfinge
da cauda à pata,
nada o arrebata
ou mesmo o atinge.

Aguça o dente,
as unhas lima:
brinca, pressente
e, de repente,
o pulo em cima.

A voz é como
sussurro de onda;
infla-lhe o pomo,
túmido gomo
que se arredonda.

Lúdico e astuto,
eis sua sorte:
alheio a tudo,
olha sem susto
o tempo e a morte.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Ivan Junqueira, "Haicai"


Na gaiola jaz
o pássaro
sem espaço

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Ivan Junqueira

"A morte"

                        A Ivo Barroso

A morte é um cavalo seco
que pasta sobre o penedo;
ninguém o doma ou esporeia
nem à boca lhe põe freios.

Á noite, sob o nevoeiro,
é que flameja o seu reino:
não o da luz que viu Goethe
ao cerrar os olhos ermos,

mas o da espessa cegueira,
o dos ossos no carneiro
e o da carne atada às teias,
sem alma que se lhe veja.

Ouço-lhe os cascos de seda:
são tão fluídos quanto a areia
que escorre nas ampulhetas
ou o sangue no oco das veias.

A morte escoiceia a esmo,
sem arreios ou ginetes;
não tem começo nem termo:
é abrupta, estúpida e vesga,

mas te embala desde o berço,
quando a vida ainda sem peso,
nada mais é que um bosquejo
que a mão do acaso tateia.

Na treva lhe fulge o pelo
e as crinas se lhe incendeiam:
em cada esquina ela espreita
quem há de tanger ao leito,

e ninguém lhe escapa ao cepo:
tiranos, mártires, reis
ou até antigos deuses,
por mais soberbos que sejam.

Embora só traga o preto
em seu corpo duro e estreito,
com ângulos que semelham
os de um áspero esqueleto,

a morte é estrito desejo:
deita-se lânguida e bêbada
à lenta espera daquele
que a leve, sôfrego, ao êxtase.

sábado, 24 de junho de 2017

Ivan Junqueira, "O náufrago"


Na curva suave da tarde,
entre as algas e os sargaços,
que ungem a crista das vagas,
um homem, errático, arfa
e nada em busca da praia
a que não chegam seus braços.
Sem bússula ou carta náutica,
leme, sextante, astrolábio,
nada em direção ao nada,
ao que restou de sua alma
que um dia vendeu ao diabo,
como na lenda de Fausto,
em troca da glória fátua
e um grão de imortalidade.
Enquanto nada e se exaure,
toda a vida que levara
vai refluindo, aos pedaços,
como um filme enevoado
que na tela projetasse
as imagens ao contrário.
Mas o que informa o relato,
sem legendas que o aclarem,
é bem mais do que ele narra
em sua língua enrolada:
é a crônica de uma fraude
de quem rasgou o relato
e perdeu a identidade,
de quem, por julgar-se raro,
se esqueceu de que o vulgar
é também aristocrático,
na medida em que decarna
o rei até a carcaça
e o põe nu, e o equipara
ao mais humilde vassalo.
Na curva suave da tarde,
um homem nada. E naufraga.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Ivan Junqueira














"Prólogo"

Eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.
Na infância, quando fui relva,
sentia os pés dos efebos
a calcar-me as frágeis vértebras
e colhia das donzelas
o frêmito que, venéreo,
era um augúrio da queda.

Depois, quando fui cipreste,
vi como o vento, em seus dédalos,
cingia-me a áspera testa
e tangia-me as ideias
que nos ramos, vãs quimeras,
pousavam como uma névoa,
úmidas ainda das trevas
e do abismo de que vieram.

Quando fui córrego, as pedras
me ensinaram que o critério
do que em tudo permanece,
nunca está nelas, inertes,
mas nas águas que se mexem
com vário e distinto aspecto,
de modo que não repetem
o que antes foi (e era breve).

Quando enfim galguei o vértice
de alguém que eu mesmo não era,
compreendi que esse processo
de sermos outros (e até
termos em nós outro sexo)
nada em si tinha de inédito:
já se lia no evangelho
de um deus ambíguo e pretérito.

E assim fui sendo esse leque
de coisas fluidas e inquietas,
jamais levianas, bem certo,
mas antes, em seu trajeto,
vertentes as mais diversas
de uma só e única célula:
a da matriz que não é
senão seu próprio reverso.

Espelho de meus espectros,
urna de engodo e miséria,
alma sôfrega e sem tréguas,
osso escasso no deserto
onde jejua um profeta,
solidão, infâmia e tédio
– eu sou apenas um poeta
a quem Deus deu voz e verso.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Ivan Junqueira















"Espantalhos"

É tão árduo recordá-los:
ásperos, secos, hieráticos,
à sombra de antigos plátanos,
arqueadas as omoplatas,

como se neles, sem pálpebras,
os olhos se esbugalhassem
em busca da claridade
que em vida lhes foi negada.

Mas em tempo todos saibam
que não falo aqui de estátuas,
nem de intangíveis fantasmas,
e sim de espíritos, almas,

reais criaturas de carne
e osso, com trêmulos traços
do que foi doce e ora amarga
mais que o fel do desamparo.

Delas falo porque o ácido
do marasmo as fez tão pálidas
que jamais nas murchas faces
se lhes vê algo que baile

além de um olhar errático,
uma expressão desdentada,
um vácuo que nelas grassa
desde o crânio até o astrágalo.

São assim como espantalhos
que deambulam nas praças
e de que mofam os pássaros,
mesmo os miúdos e frágeis.

Nas mãos, as sórdidas cartas
de um baralho já sem naipes:
copas, ouros, paus, espadas,
triunfos do tédio e da náusea.

Alguns preferem os dados,
que nunca abolem o acaso,
ou então os reis que caem
nas teias de um xeque-mate.

E outros nem isto: se agarram
ao calor dos tíbios raios
de um sol que se põe, avaro,
por entre os galhos da tarde.

Depois se vão, solitários,
rumo à pensão que os aguarda,
como uma tumba sem lápide,
sem lírios ou epitáfios.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Ivan Junqueira













"Eis que envelheces"

Célula a célula,
vértebra a vértebra,
de ti o espectro,
eis que envelheces:

não mais o aéreo
passo de Pégaso,
nem as hipérboles
da áurea quimera,

mas só o inverno
da áspera pele
que trinca e engelha
como a de um réptil,

ou as exéquias,
sem círio ou prece,
do ralo esperma
que nada gera.

Na boca, uns restos
do que antes eram
palavra, verve,
humor feérico,

lirismo etéreo,
enigmas, dédalos,
que agora hibernam
no oco das trevas.

As mãos entrevam,
os olhos secam,
a alma enfeza
sem luz ou fé.

No entanto, és mestre
no ofício indébito
que tanto exerces:
o de dar crédito

àquela moeda,
gasta e decrépita,
em cujo verso
relês que o eterno

é a tua gleba
e que, por certo,
mais sábio és
porque mais velho.

É que te esqueces
de que há, mais pérfida,
outra exegese
sobre essa tese:

a que interpreta
álgida e cética,
todas as pérolas
que te oferecem.

É que nada o que herdas
por seres velho,
exceto a cédula
de uma hipoteca

que em vão fizeste
da pouca terra
em que teus pés
sequer puseste

- da escassa terra
em que coubessem,
não teus troféus,
mas só teus restos.

A noite sela
com uma pétala
teus olhos cegos.
Eis que envelheces.

sábado, 9 de abril de 2016

Ivan Junqueira















"Não vês, meu pai"

Não vês, meu pai, que estou ardendo,
e ardendo é que entro no teu sonho
em busca do que em mim suponho
ser essa luz que vou perdendo?

Não vês que ao pé de ti me ponho
para que saibas como é horrendo
na chama lúbrica ir lambendo
enquanto às trevas me disponho?

Não vês que, morto, estou vivendo
em meio às névoas do teu sonho,
onde sem dor me recomponho
e com teu sangue afim me entendo?

 Não vês, meu pai, que a vida é sonho
e que só nele foi se erguendo
da morte quem a teve, ardendo,
enfim triunfou sobre o medonho?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Ivan Junqueira, "É tanto o resplendor"


É tanto o resplendor da alma humana
que me ponho de joelhos, boquiaberto,
diante da nua luz que dele emana,
qual uma flama em ermo céu aberto.
É tanto esse esplendor que não a engana
a trama dos sentidos, ou o incerto
festim da carne que, voraz, se afana
em mantê-la de si sempre mais perto,
sobretudo se a embosca no deserto,
onde o sol, na lonjura seca e plana,
é um desafio à sua glória, à gana
que lhe dá pôr-se toda a descoberto.
É tanta a luz que exala da alma humana
que ela jamais consigo se engalana.

sábado, 28 de novembro de 2015

Ivan Junqueira













"Herdeiros"

Não quis mais vê-los. A besta
da demência deles fez
o que faz uma centelha
na palha seca dos nervos:

retorcidas labaredas
também tetos e paredes,
os dentes rilham - são presas,
e o convívio sabe a esterco.

Irmão contra irmão, celeuma
entre herdeiros. De quê ?
De uns trapos, um camafeu
cuja efígie não se vê,

púcaros, cálices, trechos
de um enredo sem desfecho,
polainas de um cinza espesso,
rendas, anáguas, corpetes,

o brilho de um alfinete
numa gravata obsoleta,
frascos de incenso, navetas
de porcelana chinesa.

Em suma, um fátuo cortejo
de ninharias enfermas,
sem serventia ou apreço,
mas pelas quais se peleja

como em busca de amuletos,
de uma relíquia que seja
capaz de lhes dar o ensejo
de se unirem em seu gueto.

Eis que os ouço e logo vejo
o que me desnuda o espelho:
esquálidas silhuetas
numa cena de opereta.

Nela se entoa um dueto
sobre o morto que não deixa
senão as flores do enterro
e os bens que em vida não teve.


sábado, 7 de novembro de 2015

Ivan Junqueira, "Limbo"


Ali está. Alheio às minhas mãos,
informe e pequenino, tão
indeciso, iluminado apenas
de sua pouca e solitária luz.
Dorme na sombra que o circunda,
Como no fundo de um casulo. Ignora
ainda o que o povoa, sequer
sabe que existe. Ali perdura
à espera do ritmo, da música.
Estrelas, insignias, leves partituras.
(Que ouvidos as escutam?)
Está ali. Imóvel e silencioso,
a uma passo da sincope e do gozo.
Ali está. Heráldico emblema
- o signo incógnito do poema.


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Ivan Junqueira. "Onde estão?"

 
                                Partimos cuando nacemos,
                                   andamos mientras vivimos,
                                   y llegamos
                                   al tiempo que fenecemos;
                                   así que cuando morimos
                                   descansamos.
                                Jorge Manrique

Onde estão os que partiram
desta vida, desvalidos?
Onde estão, se não ouvimos
deles sequer uma sílaba?
 
Onde o pai, a mãe, a ríspida
irmã que se contorcia
sob a névoa dos soníferos
e a gosma da nicotina?

Ou bem a outra, a quem víamos
trincar, crispada, os caninos,
banhada em sangue e saliva,
no espasmo agudo das fibras?

Onde o riso dos meninos
que entre as folhas se escondiam
como pássaros nos ninhos,
ermos de infâmia ou malícia?

Onde a lúbrica menina
cujas coxas se entreabriam
à gula dos que sabiam
tocar-lhe os veios mais íntimos?

Onde, enfim, toda a família
que se desfez qual farinha
por entre as mós antiquíssimas
de algum oculto moinho?

Onde estão os que seguiram
seus inóspitos caminhos
ou sendas que, mais propícias,
desaguaram no vazio?
 
Onde os bens, a glória, a insígnia,
se tudo o que aqui se vive
reverte em pós aos jazigos
e lá, sob o pó, esfria?
 
Poder, riqueza, honraria
são como areia dos rios:
retinem, fluem, cintilam,
e se esvaem, sem valia.

Nômades de ásperas trilhas,
andamos mientras vivimos,
até que a morte, em surdina,
nos deite as garras de harpia.

E tudo afinal se finda
sem cor, sem luz, sem martírio;
asi que cuando morimos,
de nós mesmos nos sentimos

tão distantes quanto as cinzas
de uma estrela que se extingue
na goela azul dos abismos.
E ninguém, nem Deus, nos lastima.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ivan Junqueira, "O poema"

 
Não sou eu que escrevo o meu poema:
ele é que se escreve e que se pensa
como um polvo a distender-se, lento
no fundo das águas, entre anêmonas
que nos abismos do mar despencam.
 
Ele é que se escreve com a pena
da memória, do amor, do tormento,
de tudo o que aos poucos se relembra:
um rosto, uma paisagem, a intensa
pulsação da luz manhã adentro.


Ele se escreve vindo do centro
de si mesmo, sempre se contendo.
É medido, estrito, minudente
música sem clave ou instrumentos
que se escuta entre o som e o silêncio.


As palavras com que em vão o invento
não são mais que ociosos ornamentos,
e nenhuma gala lhe acrescentam.
Seja belo ou, ao invés, horrendo,
a ele é que cabe todo o engenho,


não a mim, que apenas o contemplo
como um sonho que se sustenta
sobre o nada, quando o mito e a lenda
eram as vísceras de que o poema
se servia para ir-se escrevendo.


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Ivan Junqueira, "Essa música"


Essa música que retorna
como perfume de uma rosa,
essa música que se entorna
de uma ânfora por cujas bordas
escorre ainda o mel de outrora,
essa música insidiosa
numa antiquíssima harpa eólica:
seria o vento em suas cordas?
Seria Orfeu vindo das forjas
do inferno a que baixou, apóstata,
em busca da filha de Apolo,
Eurídice, a esposa morta
por quem até hoje chora?       
Não é nada enfim. Tudo dorme.
Há, sim, alguém que à noite acorda
e vê-se em ruínas, sem memória
de um tempo que fugiu, mas volta
nessa música que se entorna,
e vai e vem, e vem e torna,
nessa música que retorna
como o perfume de uma rosa.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ivan Junqueira, "Cena dominical"


Meu pai, absorto, à cabeceira,
rodeado de fármacos e receitas,
mira o vazio de sua vida inteira
e degusta o que mais o deleita:
o pôquer, os cavalos, a roleta,
a garrafa de tinto na mesa,
o charuto de módico preço,
a baforada lenta e espessa
 que se enovela entre os esguios dedos.

O almoço de domingo vai a meio,
sem brindes ou inúteis atropelos.
Na travessa, as usuais guloseimas
que minha mãe prepara com esmero.
fala-se pouco. Uma úmida tristeza
embebe os talheres, molha as paredes
da acanhada sala burguesa.
Após o café, meu pai, sorrateiro,
conta as raras cédulas da carteira.
E sai. Chove. Ágil, ele se esgueira
por entre as gotas que o golpeiam.

Quase em frente, o hipódromo o espreita:
os potros, a lama da pista de areia,
a multidão, os chapéus de feltro,
a dupla, o placê, o colorido das jaquetas.
Meu pai aposta. Uma, duas, muitas vezes.

E deixa ali o seu último dinheiro.