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quinta-feira, 1 de março de 2018
Alphonsus de Guimaraens, "Foi assim que eu a vi..."
Foi assim que eu a vi. Desse momento
a lembrança tranqüila vem-me do alto
- sonho de rosas num país nevoento,
de que afinal acordo em sobressalto.
Fugiu-me essa visão: de novo tento
firmar os passos para um novo assalto.
Mas que farás, pobre homem sem alento,
tu, cego da alma e de coragem falto!
Que farás, coração que te magoas,
na tua timidez contemplativa,
só, tão longe das almas que são boas!
Que farás, alma, tu que louca e pasma,
seguindo embora o rastro de uma viva,
beijas os passos longos de um fantasma!
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Alphonsus de Guimaraens, "Cantem outros a clara cor virente"
Cantem outros a clara cor virente*
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.
Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.
Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...
Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...
* Virente - adj. Que verdeja, verdejante, florescente, próspero.
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quinta-feira, 23 de julho de 2015
Alphonsus de Guimaraens, "Hão de chorar por ela os cinamomos"
Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.
As estrelas dirão: - "Ai! nada somos,
Pois ela morreu, silente e fria..."
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.
A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolve-la
Entre lírios e pétalas de rosa.
Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: - "Por que não vieram juntos?"
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segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Alphonsus de Guimaraens, "A cabeça de corvo"
Na mesa, quando em meio à noite lenta
Escrevo antes que o sono me adormeça,
Tenho o negro tinteiro que a cabeça
De um corvo representa.
A contemplá-lo mudamente fico
E numa dor atroz mais me concentro:
E entreabrindo-lhe o grande e fino bico,
Meto-lhe a pena pela goela adentro.
E solitariamente, pouco a pouco,
De bojo tiro a pena, rasa em tinta…
E a minha mão, que treme toda, pinta
Versos próprios de um louco.
E o aberto olhar vidrado da funesta
Ave que representa o meu tinteiro,
Vai-me seguindo a mão, que corre lesta,
Toda a tremer pelo papel inteiro.
Dizem-me todos que atirar eu devo
Trevas em fora este agoirento corvo,
Pois dele sangra o desespero torvo
Destes versos que escrevo.
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segunda-feira, 10 de junho de 2013
Alphonsus de Guimaraens, "Encontrei-te. Era o mês... "
Encontrei-te. Era o mês...Que importa o mês? agosto,
Setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou março,
Brilhasse o luar, que importa? ou fosse o sol já posto,
No teu olhar todo o meu sonho andava esparso.
Que saudades do amor na aurora do teu rosto,
Que horizonte de fé no olhar tranquilo e garço*!
Nunca mais me lembrei se era no mês de agosto,
Setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou março.
Encontrei-te. Depois... depois tudo se some:
Desfaz-se o teu olhar em nuvens de ouro e poeira...
Era o dia... Que importa o dia, um simples nome?
Ou sábado sem luz, domingo sem conforto,
Segunda, terça ou quarta ou quinta ou sexta-feira,
Brilhasse o sol, que importa? ou fosse o luar já morto!
* Garço - adj. Esverdeado, verde azulado.
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quinta-feira, 18 de abril de 2013
Alphonsus de Guimaraens, "A catedral"
Entre brumas, ao longe, surge a aurora.
O hialino* orvalho aos poucos se evapora.
Aos poucos agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea** do meu sonho
Aparece, na paz do céu risonho,
Toda branca de sol.
E o sino canta em lúgubres responsos***:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"
O astro glorioso segue a eterna estrada.
Umas áurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral ebúrnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tão cansados ponho,
Recebe a benção de Jesus.
E o sino clama em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"
Por entre lírios e lilazes desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a lua a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu tristonho,
Toda branca de luar.
E o sino chora, em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"
O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
E a catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.
E o sino geme em lúgubres responsos:
"Pobre Alphonsus!Pobre Alphonsus!"
* Hialino - adj. Que tem a transparência ou aspecto de vidro.
** Ebúrnea - adj. De marfim; alvo e liso como o marfim.
*** Responso - s.m. Palavras pronunciadas ou cantadas nos ofícios da Igreja católica, alternadamente por uma ou mais vozes de uma parte, e pelo coro, como representante da assistência, de outra parte.
Fam. Descompostura, ralho.
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sábado, 2 de fevereiro de 2013
Alphonsus de Guimaraens
"Como se moço e não bem velho eu fosse..."
Como se moço e não bem velho eu fosse,
Uma nova ilusão veio animar-me.
Na minh'alma floriu um novo carme*,
O meu ser para o céu alcandorou-se*.
Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios, que vinham desolar-me.
Vi-me no cimo eterno da montanha,
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.
Acordei do áureo sonho em sobressalto:
Do céu tombei ao caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto.
* Carme - Versos líricos, canto, poema.
* Alcandorar - Colocar-se alto, guindar-se, subir.
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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Alphonsus de Guimaraens, "Initium"
Tanta agonia, dores sem causa,
E o olhar num céu invisível posto…
Prantos que tombam sem uma pausa,
Risos que não chegam mais ao rosto…
Noites passadas de olhos abertos,
Sem nada ver, sem falar, tão mudo…
Alguém que chega, passos incertos,
Alguém que foge, e silêncio em tudo…
Só, perseguido de sombras mortas,
De espectros negros que são tão altos…
Ouvindo múmias forçar as portas,
E esqueletos que me dão assaltos…
Só, na geena* deste meu quarto
Cheio de rezas e de luxúria…
Alguém que geme, dores de parto,
- Satã que faz nascer uma fúria…
E ela que vem sobre mim, de braços
Escancarados, a agitar as tetas…
E nuvens de anjos pelos espaços,
Anjos estranhos com as asas pretas…
E o inferno em tudo, por tudo o abismo
Em que se me vai toda a coragem…
“Santa Maria, dá-me o exorcismo
Do teu sorriso, da tua imagem!”
E os pesadelos fogem agora…
Talvez me escute quem se levanta:
É a lua… e a lua é Nossa-Senhora,
São dela aquelas cores de Santa!
* geena - Inferno, na linguagem bíblica: o fogo da geena. Lugar de suplício eterno (local perto de Jerusalém onde existia um templo em que se faziam cruéis sacrifícios humanos.)
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