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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Jorge Luis Borges, "de que nada se sabe"


A lua ignora que é tranquila e clara
E nem ao menos sabe que é a lua;
A areia, que é areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
Tão alheias são as peças de marfim
Ao abstrato xadrez como a mão
que os rege. Talvez o fado humano
De breves sortes e penas sem fim
Seja instrumento de Outro. Nós o ignoramos;
Dar-lhe nome de Deus não traz defesa.
Vãos também são o temor, a incerteza
E a truncada oração que iniciamos.
Que arco terá lançado esta seta
Que sou? Que cume pode ser a meta?

Tradução de Josely Vianna Baptista.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Jorge Luis Borges










"A cifra"

A amizade silenciosa da lua
(citando mal Virgílio) te acompanha
desde aquela dispersa hoje no tempo
noite ou entardecer em que teus vagos
olhos a decifraram para sempre
em um jardim ou um pátio que são pó.
Para sempre? Eu sei que alguém, um dia,
irá dizer-te verdadeiramente:
"Não voltarás a ver a clara lua.
Já esgotaste a inalterável
soma de vezes que te dá o destino.
Inútil abrir todas as janelas
do mundo. É tarde. Não a encontrarás".
Vivemos descobrindo e esquecendo
esse suave hábito da noite.
Olha-a bem. Quem sabe seja a última.

 Tradução de Josely Vianna Baptista, 


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Jorge Luis Borges, "A prova"


Do ouro lado da porta certo homem
deixa tombar sua corrupção. É inútil
elevar esta noite uma prece
a seu curioso deus, que é três, dois, um,
acreditando-se imortal. Agora
ouve a profecia de sua morte
e sabe que é um animal assentado.
Tu és, irmão, esse homem. Agradeçamos
aos vermes e o esquecimento.

Tradução de Josely Vianna Baptista

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Jorge Luis Borges, "O espelho"


Quando menino, eu temia que o espelho
Me mostrasse outro rosto ou uma cega
Máscara impessoal que ocultaria
Algo na certa atroz. Temi também
Que o silencioso tempo do espelho
Se desviasse do curso cotidiano
Dos horários do homem e hospedasse
Eu seu vago extremo imaginário
Seres e formas e matizes novos.
(Não disse isso a ninguém, menino tímido.)
Agora temo que o espelho encerre
O verdadeiro rosto de minha alma,
Lastimada de sombras e de culpas,
O que Deus vê e talvez vejam os homens.

Tradução de Jocely Vianna Baptista