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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Roberto Piva















abandonar tudo, conhecer praias, amores novos.
                   poesia em cascatas floridas com aranhas
                         azuladas nas samambaias,
         todo trabalhador é escravo, toda autoridade
                   é cômica, fazer da anarquia um
                         método & modo de vida, estradas,
                             bocas perfumadas, cervejas tomadas
                                   nos acampamentos. Sonhar Alto.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Roberto Piva




















"Stenamina boat" *
                                                                                 
                                               Prepara tu esqueleto para el aire
                                                              Garcia Lorca

Eu queria ser um anjo de Piero della Francesca
Beatriz esfaqueada num beco escuro
Dante tocando piano ao crepúsculo
eu penso na vida sou reclamado pela contemplação
olho desconsolado o contorno das coisas copulando no caos
Eu reclamo uma lenda instantânea para o meu Mar Morto
Tempo e espaço pousam no meu antebraço como um ídolo
há um osso carregando uma dentadura
Eu vejo Lautréamont num sonho nas escadas de Santa Cecília
ele me espera no largo do Arouche no ombro de um santuário
hoje pela manhã as árvores estavam em Coma
meu amor cuspia brasas nas bundas dos loucos
havia tinteiros
medalhas esqueletos vidrados flocos dálias
          explodindo no cu ensanguentado dos órfãos
meninos visionários arcanjos de subúrbio entranhas em êxtases alfinetados
          nos mictórios atômicos
minha loucura atinge a extensão de uma alameda
as árvores lançam panfletos contra o céu cinza


O título do poema - Stenamina boat - poderia ser traduzido como "Barco de stenamina", sendo que stenamina é um tipo de droga, uma anfetamina.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Roberto Piva


"Libelo"

Não mais trarei justificações
Aos olhos do mundo.
Serei incluído - pormenor esboçado -
Na grande Bruma.
Não serei batizado,
Não estarei doutorado,
Não serei domesticado
Pelos rebanhos
Da terra.
Morrerei inocente
Sem nunca ter
Descoberto
O que há de bem e mal
De falso ou certo
No que vi.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Roberto Piva, "Abandonar tudo ..."


abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
                     poesia em cascatas floridas com aranhas
                                 azuladas nas samambaias.
           todo trabalhador é escravo. toda autoridade
                         é cômica. fazer da anarquia um
                                 método & modo de vida. estradas.
                                       bocas perfumadas. cervejas tomadas
                                             nos acampamentos. Sonhar Alto.

sábado, 18 de maio de 2013

Roberto Piva, "Bules, bílis e bolas"


Nós convidamos todos a se entregarem à dissolução e ao desregramento.
A vida não pode sucumbir no torniquete da Consciência. A vida explode sempre no mais além. Abaixo as faculdades e que triunfem os maconheiros. É preciso não ter medo de deixar irromper a nossa Alma Fecal. Metodistas, psicólogos, advogados, engenheiros, estudantes, patrões, operários, químicos, cientistas, contra vós deve estar o espírito da juventude. Abaixo a Segurança Pública, quem precisa disso?
Somos deliciosamente desorganizados e usualmente nos associamos com a Liberdade.

domingo, 13 de maio de 2012

Roberto Piva, "Piazza VIII"


Eu aprendi com Rimbaud
   & Nietzsche os meus
   toques de INFERNO
(Anjos de Freud),
         sustentai-me!)
& afirmando isto
   através dos quartos sem tetos
   & amores azuis
eu corro até a colher de espuma fervente
   driblando-me no cemitério
faminto da última FOME
com tumbas & amantes cheios de pétalas
porque o céu foi nossa última esperança
   esta noite

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Roberto Piva, "Poema vertigem"

Eu sou a viagem de ácido
nos barcos da noite
Eu sou o garoto que se masturba
na montanha
Eu sou o tecno pagão
Eu sou o Reich, Ferenczi & Jung
Eu sou o Eterno Retorno
Eu sou o espaço cibernético
Eu sou a floresta virgem
das garotas convulsivas
Eu sou o disco-voador tatuado
Eu sou o garoto e a garota
Casa Grande & Senzala
Eu sou a orgia com o
garoto loiro e sua namorada
de vagina colorida
(ele vestia a calcinha dela
& dançava feito Shiva
no meu corpo)
Eu sou o nômade de Orgônio
Eu sou a Ilha de Veludo
Eu sou a Invenção de Orfeu
Eu sou os olhos pescadores
Eu sou o Tambor do Xamã
(& o Xamã coberto
de peles e andrógino)
Eu sou o beijo de Urânio
de Al Capone
Eu sou uma metralhadora em
estado de graça
Eu sou a pomba-gira do Absoluto.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Roberto Piva














"No Parque Ibirapuera"


Nos gramados regulares do parque Ibirapuera
Um anjo da Solidão pousa indeciso sobre meus ombros
A noite traz a lua cheia e teus poemas, Mário de Andrade,
                                                                                                [regam minha
            imaginação
Para além do parque teu retrato em meu quarto sorri
            para a banalidade dos móveis
Teus versos rebentam na noite como um potente batuque
            fermentado na rua Lopes Chaves
Por detrás de cada pedra
Por detrás de cada homem
Por detrás de cada sombra
O vento traz-me o teu rosto
Que novo pensamento, que sonho sai de tua fronte noturna?
É noite. E tudo é noite.
É noite nos pára-lamas dos carros
É noite nas pedras
É noite nos teus poemas, Mário!
Onde anda agora a tua voz?
Onde exercitas os músculos da tua alma, agora?
Aviões iluminados dividem a noite em dois pedaços
Eu apalpo teu livro onde as estrelas se refletem
            como numa lagoa
É impossível que não haja nenhum poema teu
            escondido e adormecido no fundo deste parque
Olho para os adolescentes que enchem o gramado
            de bicicletas e risos
Eu te imagino perguntando a eles:
            onde fica o pavilhão da Bahia?
            qual é o preço do amendoim?
            é você meu girassol?
A noite é interminável e os barcos de aluguel
        fundem-se no olhar tranqüilo dos peixes
Agora, Mário, enquanto os anjos adormecem devo
            seguir contigo de mãos dadas noite adiante
Não só o desespero estrangula nossa impaciência
Também nossos passos embebem as noite de calafrios
Não pares nunca meu querido capitão-loucura
Quero que a Paulicéia voe por cima das árvores
            suspensa em teu ritmo.

domingo, 20 de março de 2011

Roberto Piva













"A Piedade"

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar
e da luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentosos adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Roberto Piva, "4º Poema piviano"

Dêem-me um anestésico. A vida dói e arde.
Não sei controlar meus impulsos demoníacos.
Não acredito em forças de outro mundo.
Sou eu, meus versos e o perigo das frações.

Arranco minhas vísceras poéticas do ostracismo.
Trezentos dias e cinqüenta noites marianas.
O caracol de meus cabelos caídos no chão de espelhos.
O sangue e os olhos transformados em areia cinza.

A árvore sem galhos esconde os meninos saltimbancos.
Foi-se o tempo em que se acreditava nas histórias ditas.
Sempre começo pelo meio e jamais olho para os lados,
enquanto rio e sufoco meu próprio rosto turvo.

Minha maquiagem, os primeiros tombos das gaivotas.
Atiro farpas e pragas para antigos e mórbidos desejos.
A torre delirante de um neocórtex em latência,
ou o pedúnculo, ou o miocárdio, ou o octocentésimo.

Quatro poemas nos espaços angustiados do processo.
Sou eu? Sou ateu? De que me valem as respostas?!
As idéias me levam ao eterno estado de castidade
entrelaçado neste puro estado de sonho e malogro.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Roberto Piva, "Vou moer ..."

vou moer teu cérebro. vou retalhar tuas
coxas imberbes & brancas.
vou dilapidar a riqueza de tua
adolescência. vou queimar teus
olhos com ferro em brasa.
vou incinerar teu coração de carne &
de tuas cinzas vou fabricar a
substância enlouquecida das
cartas de amor.