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sábado, 5 de maio de 2018
Konstantinus Kaváfis, "Monotonia"
A um dia monótono, outro
monótono, idêntico, segue. Ocorrerão
as mesmas coisas; essas novamente ocorrerão
– os instantes, semelhantes, encontram-nos e deixam-nos.
Um mês passa e traz outro mês.
Essas coisas que chegam facilmente se presumem:
são aquelas de ontem, as enfadonhas.
E o amanhã acaba por já não parecer um amanhã.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca
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quarta-feira, 25 de abril de 2018
Konstantinos Kaváfis, "Janelas"
Nestes compartimentos escuros onde passo
dias opressivos, ando para cá e para lá
a fim de achar as janelas – Quando se abrir
uma janela, será um consolo. –
Mas não se acham as janelas, ou não posso
encontrá-las. E talvez seja melhor que não as encontre.
Talvez seja a luz um novo martírio.
Quem sabe que novas coisas ela mostrará.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca
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sexta-feira, 16 de março de 2018
Konstantinos Kaváfis
"No mesmo espaço"
Ambiente da casa, de locais muito frequentados, do bairro
que vejo e por onde ando: anos e anos.
Criei-te no meio de alegria, no meio de tristezas:
com tantas circunstâncias, com tantas coisas.
E te transformaste, inteiro, em sentimentos, para mim.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca
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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Konstantinos Kaváfis, "O sol da tarde"
Este quarto, como o conheço bem!
Agora se alugam não só este mas também o vizinho
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de corretores, de comerciantes, de Sociedades.
Ah este quarto, como me é familiar.
Perto da porta, aqui, estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
perto, a estante com dois vasos amarelos.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
N centro, a mesa onde ele escrevia;
e as três grandes cadeiras de palha.
Ao lado da janela estava o leito
onde nos amamos tantas vezes.
Devem estar ainda em algum lugar as pobres coisas.
Ao lado da janela estava o leito;
o sol da tarde chegava-lhe até a metade.
...Uma tarde, às quatro horas, tinhamo-nos separado
por uma semana apenas ... Ai de mim,
aquela semana tornou-se eterna.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca.
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quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Konstantinos Kaváfis, "Melancolia de Jasão, filho de Cleandro; poeta em Comagena; 595 D.C."
O envelhecimento de meu corpo e de meu rosto
é uma ferida de terrível punhal.
Não tenho resignação alguma.
A ti recorro, Arte da Poesia,
que entendes um pouco de remédios:
tentativas de entorpecimento da dor, na Imaginação e no Verbo.
É uma ferida de terrível punhal . –
Traze, Arte da Poesia, teus remédios,
que fazem – por algum tempo – que não se sinta a ferida.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca.
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quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Konstantinos Kaváfis, "Emiliano Monae, Alexandrino, 628-655 D.C."
Com palavras, com feições do rosto, e com maneiras
uma excelente armadura me farei,
e, assim, enfrentarei os homens maus,
sem ter medo ou fraqueza.
Vão querer prejudicar-me. Mas, de todos os que
se aproximarem de mim, ninguém saberá
onde estão minhas feridas, meus pontos vulneráveis,
sob as mentiras que me encobrirão.
Palavras de presunção de Emiliano Monae.
Porventura pode um dia fazer essa armadura?
Em todo caso, não se serviu dela por muito tempo.
Aos vinte e sete anos morreu na Sicília.
Tradução de Isis Borges da Fonseca.
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segunda-feira, 31 de março de 2014
Konstantinos Kaváfis, "A cidade"
Disseste: "Irei à outra terra, irei a outro mar.
Uma outra cidade há de achar-se melhor que esta.
Cada esforço meu é uma condenação fatal;
e está no meu coração — como morto — enterrado.
Meu espírito até quando ficará neste marasmo?
Para onde volte meu olhar, para qualquer lugar que atente
ruínas negras de minha vida vejo aqui,
onde tantos anos passei, e a destruí e arruinei".
Novos lugares não encontrarás, não encontrarás outros mares.
A cidade te seguirá. Às mesmas ruas voltarás.
E nos mesmos bairros envelhecerás;
e nestas mesmas casas encanecerás.
Sempre a esta cidade chegarás. Quanto a outros
[lugares — não tenhas esperanças —
não há navio para ti, não há caminho.
Assim como destruíste tua vida aqui
neste pequeno recanto, em toda a terra arruinaste-a.
Tradução de Isis Borges da Fonseca.
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quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Konstantinos Kaváfis, "Eu trouxe à Arte"
Ponho-me a meditar. Desejos e sensações
eu trouxe à Arte - certas coisas entrevistas,
rostos ou linhas; de amores incompletos
algumas lembranças indefinidas. Que eu me entregue à Ela,
que sabe configurar o Semblante da Beleza.
quase imperceptivelmente completando a vida,
associando impressões, associando os dias.
Tradução de Isis Borges da Fonseca.
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Konstantinos Kaváfis, "Retorna"
Retorna frequentemente e apodera-te de mim,
sensação amada, retorna e apodera-te de mim -
quando a memória do corpo desperta,
e um desejo antigo torna a passar pelo sangue;
quando os lábios e a pele se lembram,
e as mãos sentem como se tocassem de novo.
Retorna frequentemente e apodera-te de mim à noite,
quando os lábios e a pele se lembram ...
Tradução de Ísis Borges da Fonseca.
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sábado, 30 de julho de 2011
Konstantinos Kaváfis
"Entendimento"
Os anos de minha juventude, minha vida voluptuosa –
como vejo agora claramente seu sentido.
Que arrependimentos supérfluos, que fúteis....
Mas não via então seu sentido.
Na vida dissoluta de minha juventude
formavam-se as inclinações de minha poesia,
delineava-se o campo de minha arte.
Por isso mesmo, os arrependimentos nunca foram consistentes.
E as decisões de conter-me, de mudar
duravam duas semanas, quando muito.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca.
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segunda-feira, 30 de maio de 2011
Konstantinos Kaváfis, "Da escola do renomado filósofo"
Foi discípulo de Amônio Saccás por dois anos;
mas fartou-se da filosofia e de Saccás.
Em seguida, entrou na política.
Mas abandonou-a. Eparco era tolo;
e aqueles que o rodeavam, palermas, solenes, de ar grave;
extremamente bárbaro o grego deles, os miseráveis.
A igreja atraiu um pouco
sua curiosidade: batizar-se
e tornar-se cristão. Depressa, porém,
mudou de opinião. Seguramente se indisporia
com seus pais, ostensivmente pagões;
e cortar-lhe-iam - coisa horrível -
de imediato seus subsídios assaz generosos.
Ele devia contudo fazer algo. Tornou-se frequentador
das casas de depravação de Alexandria,
de cada refúgio secreto de libertinagem.
O destino pareceu-lhe nisso favorável:
tinha-lhe dado uma fisionomia bela em extremo.
E ele desfrutava o divino dom.
Ao menos por dez anos ainda
sua beleza duraria. Depois -
talvez fosse de novo ao Saccás,
e se nesse ínterim o velho tivesse morrido,
iria a um outro filosofo ou sofista:
sempre se encontra alguém que convém.
Ou enfim, também era possível que retornasse
à política - lembrando de maneira louvavel
suas tradições familiares,
o dever para com a pátria, e outras sonoras coisas semelhentes.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca.
mas fartou-se da filosofia e de Saccás.
Em seguida, entrou na política.
Mas abandonou-a. Eparco era tolo;
e aqueles que o rodeavam, palermas, solenes, de ar grave;
extremamente bárbaro o grego deles, os miseráveis.
A igreja atraiu um pouco
sua curiosidade: batizar-se
e tornar-se cristão. Depressa, porém,
mudou de opinião. Seguramente se indisporia
com seus pais, ostensivmente pagões;
e cortar-lhe-iam - coisa horrível -
de imediato seus subsídios assaz generosos.
Ele devia contudo fazer algo. Tornou-se frequentador
das casas de depravação de Alexandria,
de cada refúgio secreto de libertinagem.
O destino pareceu-lhe nisso favorável:
tinha-lhe dado uma fisionomia bela em extremo.
E ele desfrutava o divino dom.
Ao menos por dez anos ainda
sua beleza duraria. Depois -
talvez fosse de novo ao Saccás,
e se nesse ínterim o velho tivesse morrido,
iria a um outro filosofo ou sofista:
sempre se encontra alguém que convém.
Ou enfim, também era possível que retornasse
à política - lembrando de maneira louvavel
suas tradições familiares,
o dever para com a pátria, e outras sonoras coisas semelhentes.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca.
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sábado, 27 de novembro de 2010
Konstantinos Kaváfis, "Mar da manhã".
Aqui, que eu me detenha. E que também eu veja
[um pouco a natureza.
O azul brilhante de um mar da manhã
e de um céu sem nuvens, e margem amarela; tudo
lindo e extremamente iluminado.
Aqui, que eu me detenha. E que caia na ilusão de ver isto
(vi-o verdadeiramente por um momento, logo que me detive);
isto, e não, também aqui, minhas fantasias,
minhas lembranças, as visões de volúpia.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca.
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terça-feira, 19 de outubro de 2010
Konstantinos Kaváfis
"Lembra, corpo"
Corpo, lembra não só quanto foste amado,
não somente os leitos em que deitaste,
mas também aqueles desejos que por ti
brilhavam nos olhos claramente,
e que tremiam na voz – e que algum
obstáculo fortuito frustrou.
Agora que tudo já está no passado,
parece, quase, que àqueles desejos também
tu te entregaste – como eles brilhavam,
lembra, nos olhos que te contemplavam;
como tremiam na voz, por ti, lembra, corpo.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca.
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segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Konstantinos Kaváfis, "Ítaca" *
* Ítaca é a cidade de Ulisses.
Na Odisséia, Homero narra sua viagem de regresso, após lutar na guerra de Tróia.
Quando partires em viagem para Ítaca
faz votos para que seja longo o caminho,
pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o feroz Poseidon, não os temas,
tais seres em teu caminho jamais encontrarás,
se teu pensamento é elevado, se rara
emoção aflora teu espírito e teu corpo.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o irascível Poseidon, não os encontrarás,
se não os levas em tua alma,
se tua alma não os ergue diante de ti
Faz votos de que seja longo o caminho.
Que numerosas sejam as manhãs estivais,
nas quais, com que prazer, com que alegria,
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
pára em mercados fenícios
e adquire as belas mercadorias,
nácares e corais, âmbares e ébanos
e perfumes voluptuosos de toda espécie,
e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes;
vai a numerosas cidades egípcias,
aprende, aprende sem cessar dos instruídos.
Guarda sempre Ítaca em seu pensamento.
É teu destino aí chegar.
Mas não apresses absolutamente tua viagem.
É melhor que dure muitos anos
e que, já velho, ancores na ilha,
rico com tudo que ganhaste no caminho,
sem esperar que Ítaca te dê riqueza.
Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem ela não te porias a caminho.
Nada mais tem a dar-te.
Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou.
Sábio assim como te tornaste, com tanta experiência,
Já deves ter compreendido o que significam as Ítacas.
Tradução de Ísis Borges B. da Fonseca
Na Odisséia, Homero narra sua viagem de regresso, após lutar na guerra de Tróia.
Quando partires em viagem para Ítaca
faz votos para que seja longo o caminho,
pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o feroz Poseidon, não os temas,
tais seres em teu caminho jamais encontrarás,
se teu pensamento é elevado, se rara
emoção aflora teu espírito e teu corpo.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o irascível Poseidon, não os encontrarás,
se não os levas em tua alma,
se tua alma não os ergue diante de ti
Faz votos de que seja longo o caminho.
Que numerosas sejam as manhãs estivais,
nas quais, com que prazer, com que alegria,
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
pára em mercados fenícios
e adquire as belas mercadorias,
nácares e corais, âmbares e ébanos
e perfumes voluptuosos de toda espécie,
e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes;
vai a numerosas cidades egípcias,
aprende, aprende sem cessar dos instruídos.
Guarda sempre Ítaca em seu pensamento.
É teu destino aí chegar.
Mas não apresses absolutamente tua viagem.
É melhor que dure muitos anos
e que, já velho, ancores na ilha,
rico com tudo que ganhaste no caminho,
sem esperar que Ítaca te dê riqueza.
Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem ela não te porias a caminho.
Nada mais tem a dar-te.
Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou.
Sábio assim como te tornaste, com tanta experiência,
Já deves ter compreendido o que significam as Ítacas.
Tradução de Ísis Borges B. da Fonseca
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sexta-feira, 24 de julho de 2009
Konstantinos Kaváfis

"O Deus Abandona Antonio"
Quando, à meia-noite, de súbito escutares
um tiaso invisível a passar
com músicas esplêndidas, com vozes -
a tua Fortuna que se rende, as tuas obras
que malograram, os planos da tua vida
que se mostraram mentirosos, não os chores em vão.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
diz adeus à Alexandria que de ti se afasta.
E sobretudo não te iludas, alegando
que tudo foi um sonho, que teu ouvido te enganou.
Como se pronto há muito tempo, corajoso,
como cumpre a quem mereceu uma cidade assim,
acerca-te com firmeza da janela,
e ouve com emoção, mas ouve sem as lamentações
ou as súplicas dos fracos,
num derradeiro prazer, os sons que passam,
os raros instrumentos do místico tiaso,
e diz adeus à Alexandria que agora perdes.
Tradução de Ísis Borges da Fonseca
* Thiasus eram procissões alegres, típicas do culto a Dionísio.
Consta que Marco Antônio (que cultuava Dionísio), na madrugada que antecedeu à derrota da sua frota pelas forças de Otávio Augusto, foi despertado no meio da noite pelo som de um Thiasus invisível, que lentamente se afastava dele. Ele interpretou a alucinação como um sinal de mal agouro, e após perder a batalha por Alexandria, suicidou-se.
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