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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Mário de Andrade

 

                   
 
 
 
 
 
 
 
 
"Poemas da Negra"
 
                                 a Cícero Dias

                     I
 
Não sei por que espírito antigo
Ficamos assim impossíveis...

A Lua chapeia os mangues
Donde sai um favor de silêncio
E de maré.
És uma sombra que apalpo
Que nem um cortejo de castas rainhas.
Meus olhos vadiam nas lágrimas.
Coberta de estrelas,
Meu amor!

Tua calma agrava o silêncio dos mangues.

                    II

Não sei si estou vivo...
Estou morro.

Um vento momo que sou eu
Faz auras pernambucanas.
Rola rola sob as nuvens
O aroma das mangas.
Se escutam grilos,
Cricrido continuo
Saindo dos vidros.
Eu me inundo de vossas riquezas!
Não sou mais eu!
 
Que indiferença enorme. ..
 
 
               III
 
 
Você é tão suave,
Vossos lábios suaves
Vagam no meu rosto,
Fecham meu olhar.
 
         Sol-posto.
 
É a escureza suave
Que vem de você,
Que se dissolve em mim.
 
        Que sono...
 
Eu imaginava
Duros vossos lábios,
Mas você me ensina
A volta ao bem.
 
 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Mário de Andrade, "Quarenta Anos".

A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar... Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado... Horrendo

Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida *.

Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!... Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.

* Fementida  - Adj.: Infiel, dolosa, enganosa, pérfida.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Mário de Andrade, "Eu sou Trezentos"

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pireneus! Ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Mário de Andrade



"Aceitarás o amor como eu o encaro ?

Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.