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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
Ruy Espinheira Filho, "Blind Borges"
La vasta y vaga y necesaria muerte.
Jorge Luis Borges: Blind Pew
A vasta e vaga morte, esse outro sonho,
não é só outro sonho: é a mais remota
ilha de ouro a que a nossa derrota
nos leva, inexorável, sonho a sonho.
Latidos pelos cães, sonho após sonho,
sonhamos. Esta é a vida, a vela, a rota
do homem: sonhar. E em áurea praia ignota
sonha o que sonha o sonhador, que é sonho.
Isto é o que pulsa em nós: o ansiado ouro
- distante e aqui, no coração -, tesouro
cuja procura tece a nossa sorte;
rumo que a alma singra e sagra em ouro
até chegar enfim a esse tesouro
incorruptível que nos sonha a morte.
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segunda-feira, 20 de novembro de 2017
Ruy Espinheira Filho
"Janeiro"
Janeiro descia com as chuvas e inventava besouros.
e borboletas e pássaros e girinos e
caminhávamos descalços no barro
e lá estavam as lavadeiras com suas coxas
morenas e fortes como a água
e que todas as noites me assombravam
calidamente.
Janeiro soprava um vento de primeiro instante de tudo
e o que respirávamos se chamava manhã
e foi
o que eu quis te ofertar porque eras tão bela.
Mas isso aconteceu depois, Depois
como agora.
E é para sempre
para nunca mais
este exílio.
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quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Ruy Espinheira Filho, "O poeta em sua varanda"
A Paulo Henriques Britto
Se ajeita na cadeira reclinável,
entre uma saudade e uma quimera,
sob outono que sabe a primavera
e agora o afaga com a mais amorável
tarde do mês. Aliás, todo ele amável,
este abril, ele pensa, já a quimera
enviando a pastar em outra era,
que à hora basta esta admirável
lembrança que o embala. E eis que seu ser
é como cristalina clarabóia
banhada pelo sol do amanhecer,
enquanto, a essa luz de ouro e joia,
serenamente ele começa a ler
uma carta de amor vinda de Troia.
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domingo, 8 de outubro de 2017
Ruy Espinheira Filho, "Soneto da alma como um rio"
Penso sempre tua alma como um rio
em que de mim não se reflete nada
agora. Antes, talvez uma apagada
sombra se percebesse, mas um frio
vento soprou o tempo, e eis que um vazio
se fez. E então já não restou mais nada,
a escassa sombra foi-se, dissipada,
e tudo se apagou de mim no rio.
Contou-me um conto e agora já mais nada
se reflete de mim. Só há o frio
cantando uma esperança naufragada.
Não tem culpa tua alma desse frio
lembrando-me que sou água passada,
pois, como o rio, é sempre outro rio...
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domingo, 16 de julho de 2017
Ruy Espinheira Filho, "Soneto noturno"
Penso na noite como um rio profundo
e lembro coisas deste e de outro mundo.
Outros mundos, aliás, que a vida é vasta
como diversa. E mesmo assim não basta,
o que nos faz tecer ainda outras vidas
nas nuvens da alma, e que nos são vividas
com tanta força quanto as outras mais,
em seus sonhos de agora e de jamais
(ou melhor: com mais força, pois estamos
ainda mais vivos no que nos sonhamos).
Penso na noite como um mar sem fim
quebrando sombras sobre o cais de mim.
E, enfim, sem esperanças e sem prece,
pressinto a noite que não amanhece.
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
Ruy Espinheira Filho, "Soneto da Contemplação"
O dia raiou azul
e há coqueiros e mar,
noutro dia eu sairia
para andar e navegar,
mas não neste dia em que
quero apenas contemplar
esse azul amplo do céu,
e os coqueiros, e o mar.
É tudo o que quero agora,
desejando não ter fim
a doçura desta hora
em que a alma está suave assim,
e o mundo tão bem lá fora
que não precisa de mim.
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Soneto dos versos da juventude ou uma aprendizagem"
Ainda bem jovem, escreveu sonetos
em decassílabos e alexandrinos,
relembrando meninas e meninos,
festas juninas, fogo e coretos
com filarmônicas. E nos sonetos
de festas, de meninos e meninas,
já se mostravam sombras assassinas
que assombravam as luzes dos coretos
e que eram de paixões, sonhos, ternuras
incompreendidas - e festas, coretos,
traziam em si também lembranças duras.
Ah, eram feitos da Vida esses sonetos...
Como devem ser, sempre, nas impuras
asas dos seus quartetos e tercetos.
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domingo, 11 de setembro de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Soneto das mesas"
Convido os irmãos mortos para a mesa.
E mais o pai. E a mãe. E amigos tantos.
Não para reviver coisas de prantos,
pois horas dolorosas nesta mesa
não podem ter lugar. Tem a certeza
do amor com que bordamos nossos mantos
de dias já cumpridos e outros tantos
que são dos reunidos nesta mesa.
Os que se foram, eis que não se foram
de vez. E sempre vêm, quando os convido
ou não convido - jovens, sem tristeza.
Pai, mãe, irmãos, grandes amigos... Douram-me
a alma – enquanto aguardo, comovido,
minha vez de sentar-me à sua mesa.
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terça-feira, 9 de agosto de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Despedidas"
Despedimo-nos do amigo
no azul da tarde. E, uns nos outros,
fitamos os rostos que
o tempo moldou sobre os
rostos suaves, aqueles
que nos fitam da memória.
Há vagas palavras, vagos
apertos de mão, abraços.
E, despedidos do amigo,
entre nós nos despedimos
- recomeçando a aguardar
a hora de estarmos juntos
numa nova despedida
(permanecendo ou partindo),
aqui neste mesmo ou
noutro qualquer cemitério.
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sábado, 28 de maio de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Soneto da negra"
a Maria da Paixão
A cor da suavidade é que a modula.
Nela se abisma a luz e se revela
incapaz de alterar nada daquela
penumbra que a atrai, absorve, anula.
Nessa paisagem que coleia, ondula
como um rio, ou o mar (e é dela e ela),
um vento violento me desvela
um animal que me trucida e ulula.
O tom da suavidade não se altera,
eleva um canto cálido e me diz
que são garras de amor, e é bela a fera.
E assim, em carne rubra e cicatriz,
entrego à cor profunda que me espera
estes despojos em que sou feliz.
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quarta-feira, 11 de maio de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Essa mulher"
A que nunca amei e me ama pensa em mim à noite
antes de dormir, e nos escombros do sono
vê o meu rosto suave, arrogante, de há muitos anos
e sente uma mão fria empunhar-lhe o coração.
É bela a que nunca amei e me ama, cada vez mais bela
com seus cabelos soltos ao sopro da memória,
com uma voz onde sonham luas que jamais iluminaram
um caminho que me levasse à que nunca amei e me ama.
É doce essa mulher que acorda e diz o meu nome
com unção. Seus olhos me fitam do longínquo
e doem em mim como dói nessa mulher que me ama
amar quem nunca a amou, disperso em seus enganos.
A que nunca amei e me ama acaricia a minha ausência
com pena de mim, que teria sido feliz, bem sabe,
se a tivesse amado; a ela, que me ama e nunca amei
e nunca hei de amar, como até hoje, amargamente.
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quarta-feira, 27 de abril de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Leituras"
Livros, livros, livros...
Antes da palavra escrita,
o que lia o homem?
O Sol, certamente, como a Lua,
as estrelas, as nuvens, as árvores, as flores,
os pássaros, as águas,
o Vento...
Livros, livros, livros...
Mas também leio as coisas que os antepassados liam,
inclusive olhos,
que ao longo dos milênios aprimoraram muito
as suas dissimulações.
Os olhos,
que leio como leio os livros
e como os livros muitas vezes
são carregados de tolices, más intenções, fraudes,
aberrações,
ou opaca mediocridade.
Os olhos que também,
como os livros, de vez em quando nos levam a horizontes
em que a existência é cálida
e luminosa.
Livros, livros, livros...
Quando eu me for, aqui permanecerão
e quem quiser me visitar
só terá de abri-los.
Ali me verão, de alguma forma, porque por eles passei
e respirei seu ar, leve ou sufocante,
com maus cheiros ou vasto campo de perfumes.
Poi ali permanecerei
por mais um tempo ainda,
mesmo já fechado o último volume
de mim.
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segunda-feira, 11 de abril de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Canção de depois de tanto"
a Roniwalter Jatobá
Vamos beber qualquer coisa,
que a vida está um deserto
e o coração só me pulsa
sombras do Ido e do Incerto.
Vamos beber qualquer coisa,
que a lua avança no mar
e há salobros fantasmas
que não quero visitar.
Vamos beber qualquer coisa
amarga, rascante, rude,
brindando sobre o já frio
cadáver da juventude.
Vamos beber qualquer coisa.
O que for. Vamos beber.
Mesmo porque não há mais
o que se possa fazer.
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sábado, 2 de abril de 2016
Ruy Espinheira Filho
"Reflexos"
1.
Então assim foi
e estávamos sempre seguros
de que éramos todos muito ricos
de futuros.
E lá íamos nós,
como a vida ia,
rumo a horizontes
de luzentes pedrarias.
2.
Havia pouco
para ser lembrado,
muito escasso ainda
o passado,
de onde nada vinha
que nos fizesse compor,
de corações doloridos,
alguma balada sobre damas
de tempos idos.
3.
Mas já descobríamos
em dias assustados,
em noites infindas,
florescentes damas,
alegres e lindas,
que nos transformavam
em príncipes encantados
ou em tristes tigres
enjaulados.
4.
Trilhávamos dias e noites
inconsequentes
como quaisquer garotos
inteligentes.
Mas não da inteligência
dos gênios da escola,
campeões na gramática
e na ciência,
de comportamentos
austeros e puros,
os quais já antevíamos,
com clarividência
(confirmada pela vinda
dos futuros),
brilhantemente medíocres
e obscuros.
5.
E logo, para todos,
vieram os futuros,
tão subitamente,
que alguns nem os sentiram,
pois, antes que chegassem,
partiram.
6.
Outros foram ficando
e pouco a pouco
se dispersando,
fitando, do escuro,
um sol de futuro,
sempre belo e quente,
mas sempre amanhã,
jamais no presente.
Como hoje ainda,
brilha à nossa frente,
esse sol, agora
já morno, morrente,
quase nada aquecendo
a nós, que prosseguimos,
nesse rumo do poente,
pesados de passado
cada vez mais presente.
7.
Colho estes reflexos
de história finda
para uns, para outros
pulsando ainda.
Murcharam os futuros,
mas um dia os tivemos
em infinita paisagem
convocando à viagem.
A que sempre leva
ao fim do futuro,
destino comum
do puro e do impuro.
8.
Que seja, mas nada,
até o fim de tudo
nos tira a paisagem
do tão claro dia
em que íamos nós
como a vida ia:
sábios como Sócrates,
que nada sabia.
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sexta-feira, 25 de março de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Canção matinal"
a Ricardo Vieira Lima
Acorda bem cedo o homem
da casa de telha-vã
e abre janela e porta
como se abrisse a manhã.
E eis que a vida não é mais
nem triste, nem só, nem vã.
É doce: cheira a goiaba
e brilha como romã
orvalhada. E ele caminha,
o homem, com passos de lã
para em nada perturbar
a quietude da manhã.
Já não há mágoas de perdas
nem angústias de amanhã,
pois a alma que há na calma
entre a goiaba e a romã
é a própria alma do homem
da casa de telha-vã,
que declara a noite morta
e acende em si a manhã.
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domingo, 13 de março de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Canção de depois de tanto"
a Roniwalter Jatobá
Vamos beber qualquer coisa,
que a vida está um deserto
e o coração só me pulsa
sombras do Ido e do Incerto.
Vamos beber qualquer coisa,
que a lua avança no mar
e há salobros fantasmas
que não quero visitar.
Vamos beber qualquer coisa
amarga, rascante, rude,
brindando sobre o já frio
cadáver da juventude.
Vamos beber qualquer coisa.
O que for. Vamos beber.
Mesmo porque não há mais
o que se possa fazer.
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domingo, 6 de março de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Soneto do anjo de maio"
Então, em maio, um Anjo incendiou-me.
Em seu olhar azul havia um dia
claro como os da infância. E a alegria
entrou em mim e em sua luz tomou-me
o coração. Depois, suave, guiou-me
para mim mesmo, para o que morria,
em meu peito, de olvido. E a noite, fria,
fez-se cálida — e a mágoa desertou-me.
Já não eram as cinzas sobre o Nada,
mas rios, e ventos, e árvores, e flamas,
e montes, e horizontes sem ter fim!
Era a vida de volta, resgatada,
e nova, e para sempre, pelas chamas
desse Anjo de maio que arde em mim!
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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Campo de eros"
Amor: esta palavra acende uma
lua no peito, e tudo mais se esfuma.
E testemunho: eis que Amor deixou
ferida cada coisa que tocou.
E tudo dele fala: a mesa, a cama
(como abrasa este hálito de chama!),
o bar, cadeiras, livros e paredes
vivem, revivem: de fomes e sedes
a corpos saciados. Tudo fala,
tudo conta. Só a boca é que se cala.
Amor. Do extinto pássaro, o voo
prossegue, inexorável. Mas perdoo,
eu, essa lâmina que me escalavra,
revolve em mim, em sua funda lavra,
amor, restos de amor, gestos quebrados,
enganos, mais amor, olhos magoados,
e fúria, e canto, e riso, e dança, e dor.
E a Quimera. E amor, amor, amor
por toda parte trucidado e em flor.
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quinta-feira, 27 de agosto de 2015
Ruy Espinheira Filho, "Crepuscular"
Ainda poder
escutar a Musa,
embora já imerso
na sombra difusa
que vai se adensando
para se fazer
uma treva de
nunca amanhecer.
Ainda poder
chegar à extrema
duração do dia
na voz de um poema,
mesmo humilde, apenas
suspiro da Musa
num adeus à beira
da noite difusa.
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segunda-feira, 1 de junho de 2015
Ruy Espinheira Filho, "Retrato"
Eu te vejo neste retrato
como te via aos dezessete anos.
Tinhas trinta e nove, luminosamente.
Como passaste, pai! Como passamos!
Há tanto tempo já que tu partiste.
Todo um mundo se foi ─ e vai, e vai...
Olho o teu rosto na moldura e penso
que tenho hoje idade de ser teu pai.
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