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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Mário Faustino, "Viagem"


Apago a vela, enfuno as velas: planto
Um fruto verde no futuro, e parto
De escuna virgem navegante, e canto
Um mar de peixe e febre e estirpe farto -
E ardendo em festas fogo-embalsamadas
Amo em tropel, corcel, centauramente,
Entre sudários queimo as enfaixadas
Fêmeas que me atormentam, musamente -
E espuma desta vaga danço e sonho
Com címbalos e símbolos, harmônico
Onde executo a flor que em mim se embebe,
Centro e cetro, curvando-se ante a sebe
Divina — a própria morte hoje defloro
E vida eterna engendro: gero, adoro.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Mário Faustino, "Alma que foste minha"


Alma que foste minha,
desprendida de meu corpo e de meu espírito,
leque de palma sem raízes, sem tormentas,
que gênero esta noite te distingue,
que metro te organiza, por que dogmas,
que signos te orientam - rumo a que?

- Mestre, qual é o sexo das almas?

Desmarcada e sem cordas
alma que foste minha
sem cravos e sem espinhos
que trigo milenar te mata a fome
            divina        
que pirâmide encerra tua essência
            nudíssima
que corpo te defende de ti mesma
            do espaço
que idade, quantas eras, contra o tempo
            alma anárquica
desmarcada e sem cravos
sem precisão de estar
            ou de ficar
- Que te vale Bizâncio?
            ou de mudar
ou de fazer, ou de ostentar
- Que te vale este verso?
            apoética, absurda
como chamar-te alma, de quê, quando,
para que, alma de morto, para onde?

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Mário Faustino, "Legenda"


No princípio
Houve treva bastante para o espírito
Mover-se livremente à flor do sol
Oculto em pleno dia.
No princípio
Houve silêncio até para escutar-se
O germinar atroz de uma desgraça
Maquinada no horror do meio-dia.
E havia, no princípio,
Tão vegetal quietude, tão severa
Que se estendia à queda de uma lágrima
Das frondes dos heróis de cada dia.

Havia então mais sombra em nossa via,
Menos fragor na farsa da agonia,
Mais êxtase no mito da alegria.

Agora o bandoleiro brada e atira
Jorros de luz na fuga do meu dia -

E mudo sou para cantar-te, amigo .
O reino, a lenda, a glória desse dia.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Mário Faustino, "Não quero amar o braço descarnado"


Não quero amar o braço descarnado
Que se oculta em meu braço, nem o peito
Silente que se instala no meu lado,
Onde pulsa de horror um ser desfeito
Na presente visão de seu passado
Em futuro sem tempo contrafeito,
em tempo sem compasso transmudado.
O morto que em mim jaz aqui rejeito.
Quero entregar-me ao vivo que hoje sua
De medo de perder-me em pleno leito
Rubro de vida e de morte em que me deito
À luz de ardente e grave e cheia lua.
Ao que, se a morte chama de longe: Mário!,
Me abraça estremecendo em meu sudário.


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Mário Faustino














"Auto-retrato"

Oh não passar somente sugerido!
Desespero de nunca ver o anjo
Não conhecer nem mesmo a rosa e o lírio
Ter medo e ter vergonha ajoelhado
Querer ser puro e sempre ver-se impuro
A espera da morte a incerteza
A secreta esperança de ficar
A pétala da rosa sob a cota
O endereço guardado sobre o peito
Ver navios que chegam e vão sozinhos
E depois de tanta dor e tanta angústia
Pensar ter dado a luz a algo vivo
E levantar-se apenas com o poema.
 

domingo, 24 de junho de 2012

Mário Faustino, "O mundo que venci deu-me um amor".


O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer fosse de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor,
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória...

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mário Faustino, "Soneto branco"


E quando a luz e o vento me deixaram,
Negro e silente, fulcro do horizonte,
Mil vezes me acordei, e mais dormiam
Em mim, tão dormentes, que arrancar
Do verdadeiro a máscara foi duro;
Vi-me, entretanto, hirsuto e nu, presente;
E aprendi mais, naquele frio estar
Ali, que entre os doutores e os ladrões;
E muito que antes dava como oposto,
Imigo, adverso, carne e estrela, vi
Amar-se e penetrar-se, fogo e mar
Gerando esta cidade palpitante,
Feita de sangue e flama e grito, um só
Candente ser humano que me chama.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mário Faustino













“Breve Elegia”

Só ardem neste sono
os círios da memória e do desejo.
E turvos
na memória revolta são teus gestos –
os únicos repletos de perdão.

É preciso esquecer
tanto amar, tanta amarga
expiação de tudo que guardamos
por não sabermos dar.
E obscura
                    pelas vagas do leito
                                                  - tua sombra –
nenhuma outra é digna deste abraço.

Pudesse eu divagar
pelos bosques teu reino, mergulhar
contigo em tua fonte, ou ascender
ao teu éter contigo, ao teu mistério ...
mas não há via larga rumo à noite.

Então, luz após luz remota, um sol atroz
atira-me do sonho aos recifes
reais donde diviso tua fuga:
Jamais a madrugada traz nos braços
relíquias de uma lua que adoramos.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Ezra Pound



















"A água-furtada"

Vamos, lamentemos os que estão em melhor
          situação que a nossa.
Vamos meu amigo, e lembra-te:
          os ricos têm mordomos e não têm amigos.
E nós temos amigos e não temos mordomos.
Vamos, lamentemos os casados e os solteiros.

A aurora entra com pés pequenos,
          Pavlova dourada(*),
E estou perto do meu desejo.
E a vida não tem nada de melhor
Que esta hora de claro frescor,
          a hora de acordar juntos.

(*) Pavlova dourada - Referência à Anna Pavlova, bailarina russa muito conhecida na época.

Tradução de Mário Faustino

domingo, 6 de março de 2011

Mário Faustino, "Ego de Mona Kateudo" * e Safo de Lesbos.

Dor, dor de minha alma, é madrugada
E aportam-me lembranças de quem amo.
E dobram sonhos na mal-estrelada
Memória arfante donde alguém que chamo
Para outros braços cardiais me nega
Restos de rosa entre lençóis de olvido.
Ao longe ladra um coração na cega
Noite ambulante. E escuto-te o mugido,
Oh vento que meu cérebro aleitaste,
Tempo que meu destino ruminaste.
Amor, amor, enquanto luzes, puro,
Dormido e claro, eu velo em vasto escuro,
Ouvindo as asas roucas de outro dia
Cantar sem despertar minha alegria.

* O nome do poema - "Ego de Mona Kateudo" - vem do grego antigo.
Significa "E eu deitada estou, sozinha”, e é o último verso de um fragmento de Safo.

"A lua já caiu,
as Plêiades também.
É meia-noite.
A hora passa;
e eu deitada estou, sozinha".

domingo, 9 de maio de 2010

Mário Faustino, "Soneto Marginal"

Ressuscitado pelo embate da ressaca,
Eu, voz multiplicada, ergo-me e avanço até
O promontório onde um cadáver, posto em maca,
Hecatombado pela vaga, acusa o céu
Com cem olhos rasgados. Fujo e mais adiante,
O açor rebenta o azul e a pomba, espedaçada,
Ensanguenta-me o rastro. Avante, sombra, avante,
Cassa-me a permissão de ficar vivo. O nada
Ladra a meu lado, lambe e morde o calcanhar
Sem plumas de quem passa e no espaço se arrasta
Pedindo paz ao fim, que o princípio não basta:
O triunfo pertence ao tropel que no ar
Nublado esmaga o sol, troféu tripudiado
Por touros celebrando a noite e o mar manchado.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Mário Faustino, "Soneto Antigo"

Esse estoque de amor que acumulei
Ninguém veio comprar a preço justo.
Preparei meu castelo para um rei
Que mal me olhou, passando, e a quanto custo.

Meu tesouro amoroso há muito as traças
Comeram, secundadas por ladrões.
A luz abandonou as ondas lassas
De refletir um sol que só se põe

Sozinho. Agora vou por meus infernos
Sem fantasma buscar entre fantasmas.
E marcho contra o vento, sobre eternos

Desertos sem retorno, onde olharás
Mas sem o ver, estrela cega, o rastro
Que até aqui deixei, seguindo um astro.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Mário Faustino



"Carpe Dien"

Que faço deste dia, que me adora?
Pega-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou grava-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guarda-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar – tão nobre.
Já nele a luz da lua – a morte – mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Mário Faustino, "Balada"

(em memória do poeta suicida)

Não conseguiu firmar o nobre pacto
Entre o cosmos sangrento e a alma pura.
Porém, não se dobrou perante o facto
Da vitória do caos sobre a vontade
Augusta de ordenar a criatura
Ao menos: luz ao sol da tempestade.
Gladiador defunto mas intacto
(Tanta violência, mas tanta ternura).

Jogou-se contra um mar de sofrimentos
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim
Para afirmar-se além de seus tormentos
De monstros cegos contra um só delfim,
Frágil porém vidente, morto ao som
De vagas de verdade e de loucura.
Bateu-se delicado e fino, com
Tanta violência , mas tanta ternura!

Cruel foi teu triunfo, torpe mar
Celebrara-te tanto, te adorava
Do fundo atroz à superfície, altar
De seus deuses solares - tanto amava
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou
No mergulho fatal com que mostrou
Tanta violência, mas tanta ternura!

Envoi

Senhor, que perdão tem o meu amigo
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem com Tigo:
Tanta violência. Mas tanta ternura.

sábado, 25 de julho de 2009

Mario Faustino, "Soneto"

Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler

À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.

Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso

Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.