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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Maria Victoria Atencia, "Epitáfio para uma jovem"


Porque te foi negado o tempo da ventura
teu coração descansa já tão alheio às rosas.
Teu sangue e carne foram teu vestido mais rico
e a terra nunca soube o firme de teus passos.

Aqui começa e acaba tua semeadura
- tal se enterra um vencido no final do combate -
onde em novembro a água tua ternura embeba
e o latido de um cão tenha voz de presságio.

Tua vida toda quieta sob o tacto da morte,
que as sementes domina, cerceando seus gomos,
tu ficastes em botão por abrir, nunca mais
conhecerás o estalido floral da primavera.

sábado, 30 de março de 2013

Maria Victoria Atencia













"A cabra-cega"

Deixada neste mundo, tenteio* seus contornos
sem lenço que me cegue, como naquele jogo
que em menina aprendi. Torpe, apalpo palavras
e reconstruo gestos em busca de um estímulo
que me mantenha viva,
desde que surge o sol até ao seu ocaso.

Peço luz sem saber que não me é necessária
pois seus raios não chegam onde a sombra reside.
Peço pão e encontro pedras para a boca.
De uma esquina à outra deste corpo me invade
a amargura com crescente viscosidade morna.
Se eu encontrasse um vale, erguia aí a tenda.

Tradução de José Bento

* Tenteio - do verbo tentear:calcular, avaliar, sondar, examinar.