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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Francisco Sá de Miranda, "O sol é grande, caem com a calma as aves..."


O sol é grande, caem com a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria,
esta água que de alto cai acordar-meia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração que em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam de amores.

Tudo é seco e mudo, e, de mesura,
também mudando eu me fiz de outras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sá de Miranda












"Comigo me desavim"

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse:
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?


(Coimbra, 1481 -  Amares - 1558)