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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Raul Bopp, "Dona Chica"


A negra serviu o café.
- A sua escrava tem uns dentes bonitos, Dona Chica.
- Ah, o senhor acha ?

Ao sair
a negra demorou-se com um sorriso na porta da varanda.

Foi entoando uma cantiga casa a dentro:

Ai do céu caiu um galho
Bateu no chão. Desfolhou.

Dona Chica não disse nada.
Acendeu ódios no olhar.

Foi lá dentro. Pegou a negra.
Mandou metê-la no tronco.
- Iaiá Chica, não me mate!
- Ah! Desta vez tu me pagas.

Meteu um trapo na boca.
Depois
quebrou os dentes dela com um martelo.

- Agora
junte esses cacos numa salva de prata
e leve assim mesmo,
babando sangue,
pr'aquele moço que esta na sala, peste!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Raul Bopp, "Negro"


Pesa em teu sangue a voz de ignoradas origens.

As florestas guardaram na sombra o segredo da tua história.
A tua primeira inscrição em baixo relevo foi chicoteada no lombo.

Um dia atiraram-te no bojo de um navio negreiro.

E durante noites longas vieste ouvindo o barulho do mar
Como um soluço dentro do portão soturno.

O mar era um irmão da tua raça.


Um dia de madrugada, uma nesga de praia e um porto.

Armazéns com depósitos de escravos
E o gemido dos teus irmãos amarrados numa coleira de ferro.

Principiou aí a tua história.

O resto, o Congo longínquo, as palmeiras e o mar
Ficou se queixando no bojo do urucungo*.

* urucungo - o mesmo que berimbau.