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quinta-feira, 19 de julho de 2018
Al Berto, "Diários"
29.1.1985 rua do forte
lágrima
esqueci como se ama furiosamente. não venhas ter comigo, sobretudo hoje, que tanto tenho pensado em ti. não venhas.só na ausência ainda consigo desejar-te, se aqui vieres será um dia terrível para mim. terei de fingir, de enganar-me. quando estás não te amo, ou amo-te tão intensamente que às vezes me parece que isto não é amor. quando te sentas à minha frente e mexes as mãos ao falar, sinto-me atraiçoado. nenhum dos teus gestos me pertence verdadeiramente, nenhum deles foi criado só para mim. e fico cheio de ciúmes das tuas mãos. queria ser, ao menos, uma delas, ou um dedo apenas para poder andar sempre ligado a ti. saber o que tocas e acaricias. saber quem apontas e quem desejas, saber tudo que os dedos segredam quando adormecem enleados uns nos outros. estremeço ao pensar em ti, mas esqueci quase completamente como se ama. por isso vem, vem junto a mim e sorri. o teu sorriso aliviar-me-á da escuridão dos dias até amanhã.
domingo, 11 de março de 2018
Al Berto, "Diários"
26 MAR.1985 rua do forte
(nos maus poetas encontramos sempre a paixão como coisa realizável ou realizada.) a paixão é fulminate, desgrega-se mal se lhe toca. desfaz-se.
sexta-feira, 2 de março de 2018
Al Berto, "há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida..."
há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração.
mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Al Berto, "Diário"
23 Fev.91 Lx
Pensei nisto, não sei porque razão: uma força incontrolável, superior, desconhecida, pode crescer em mim, do fundo de mim; da parte mais obscura e quase animal, selvagem, de mim. / existirá um lobo, de ferocidade incalculável, adormecido algures em mim? (uma espécie de força telúrica invade-me, às vezes, e essa força dá-me alento para odiar o mundo. acho que sou um homem corajoso - e isso dá-me vontade de rir.)
Depois da paixão - pergunto-me - o que restará? em que sítio do caos brotará outra coisa? ou será ainda possível morrer - morrer simplesmente, por enjoo de tudo. O melhor de mim não é físico, por isso guardo esta desmedida disponibilidade para te amar. através do meu olhar escondido no teu posso ver o mundo, o pouco de alegria que lhe resta, e essa alegria não é nossa alegria.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
Al Berto, "Diários"
10 abril 1985 rua do forte
levo uma noite portátil no coração e um cão de lume guarda os silêncios o
corpo da traição
são horas de caminhar fora de mim ao teu encontro
vou
tropeçando na luz das avenidas
... o olhar preso ao interior dos passos onde não estás
levo numa noite transistorizada
na brancura do dia caminho para ti. silencio o corpo da noite ao
teu encontro tropeçando num som e no cão de lume que tens de guarda ao coração
domingo, 23 de abril de 2017
Al Berto, "Diários"
26 maio/ 1984 - quarta-feira
Procurar o meu corpo no corpo dos outros, atravessar espelhos e destruir os reflexos que me incitam a acreditar que aquilo que se reflecte sou eu.
Voltar à superfície e debruçar-me para os teus lábios. Colher neles a intriga da paixão. Devorar-te noite adiante. Mentir-me. Mentir-te.
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
Al Berto, "Diários"
Lx 25 de abril
Desde 6ª feira que nada sei. Vivo cada segundo à espera que o telefone toque. E não tocou. Que terá acontecido? Invento coisas para fazer, para me distrair, para passar o tempo e não pensar. Sinto um medo que me corrói o coração.
Alexandre adormecido no fogo deste poema
Enquanto dormes constrói-me um rosto novo, no fundo do teu sonho. Toca-o e acorda-me.
Caminha comigo, peço-te, na inquietação daquele rosto, e nesta alegria suspensa na solidão.
Ha tantos anos que te esperava para fugirmos. E não sabia que a fuga era possível pelas estradas de giestas, em direção à madrugada do mar.
Dorme e deixa que o meu coração escute o teu. Quero arder contigo, nesta eternidade feita de kms e segundos.
Para trás ficou a cidade. E tu sabes que a cidade só existe no apanhar de um táxi. E perdemo-nos até amanhã, sem sequer podermos dizer adeus, porque não se pode dizer adeus à paixão.
Amanhã, ou enquanto dormes, agora mesmo, vou pensar em ti, intensamente - até que as horas me doam e o movimento do tempo fique suspenso, até que tudo o que me rodeia tome a forma do teu corpo.
E em mim circulas, adormecido no fogo do meu sangue.
*
A ausência coalha sobre a pele. Por isso te escrevo, com esta luz encostada à boca. e espalho a cinza das palavras no silêncio da noite.
Perder-te me levaria ao fogo duma bala. Viagem de sangue pela terra sem mar deste quarto que me conhece e protege. A paixão foi construída com a lentidão das obras primas. E nela não há equívocos nem sombras. O teu rosto é intenso, brilha assim que lhe toco - borboleta lunar, sinal de vida, estremecer do mundo na tristeza perfeita das mãos.
Assim te raptei numa noite - com ansiedade delícia. E assim te amei (e amo) dentro e fora do poema.
Profecia
despedaçado
obscuro
densidade dos seres
Bruma
as coisas talvez existam porque as palavras o dizem.
morremos de amor quando já nem o amor existe.(?)
terça-feira, 12 de julho de 2016
Al Berto, "Diários"
terça - 16 ab.91 / Sines.
Já não tenho um corpo para te oferecer. Tenho outra coisa que ainda não aprendi a nomear. o corpo em que vivi está agora, intacto, no fundo desse lugar inacessível e ainda sem nome.
*
é um tempo de cinza, este que vivo sem ti. é um tempo nulo, este que atravessa os dias de espera. tempo de cardos no coração. tempo que se amachuca numa folha de papel escrita. nada, a não ser a respiração que acredito ser a minha.
*
o mundo desfaz-se, apressadamente.
quarta-feira, 6 de julho de 2016
Al Berto, "Diários"
19 de junho 1985 rua do forte
ao Rui Falcão
o poema// essa construção de ossos
e de pedra atravessada por incendiados corpos
cinzentos dias húmidos lentos
por onde apercebemos a minúscula fama
da nossa tristeza
sábado, 14 de março de 2015
Al Berto, "Diários"
rua do forte
9 de abril de 1985
os dias em cinza correm velozes onde não te alcanço.
que me visites de tempos a tempos é o que desejo. de resto, vou perdendo a vontade de tudo, até de escrever. de te reinventar, cada instante por trás das palavras. é uma ilusão, eu sei, mas é também a única maneira de ir sobrevivendo ao imenso caos que me assola nestes últimos tempos.
o pior é que, se calhar, não existes muito mais para além da forma das palavras. um terrível silêncio separa-nos porque não te posso amar mais naquilo que escrevo. Quando me surges escrito és outro já. não aquele que amo e a quem escrevo. mato-te assim, ao longo das noites. matando-me também a mim. ou aquele que julgo ser quando te sobrevivo. quem morre?
qual de nós é o outro? quem mata quem? quem escreve? quem ficou escrito? em que momento preciso do silêncio nos tocamos? tu, vivendo nas palavras, e eu alimentando-me delas. ou vice-versa. onde? quando?
quinta-feira, 5 de março de 2015
Al Berto, "No centro da cidade, um grito"
No centro da cidade, um grito.
Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar
e sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado.
Tem a dimensão de um túmulo e todos os teus gestos
são uma sinalização em direcção à morte.
Mas hoje, ainda longe daquele grito,
sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso.
Possuo para sempre tudo o que perdi,
e uma abelha pousa-me no azul do lírio
e no cardo que sobreviveu à geada.
Bebo, fumo, mantenho-me atento,
absorto - aqui sentado, junto à janela fechada.
oiço-te ciciar: amo-te, pela primeira vez,
e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte,
acaba o corpo.
Recolho o mel, guardo a alegria,
e digo-te baixinho:
Apaga as estrelas, vem dormir comigo
no esplendor da noite do mundo que nos foge.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Al Berto, "Visita-me enquanto não envelheço"
visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne* a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
* Jeanne Hébuterne foi a companheira de Modigliani, e mãe da sua única filha.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Al Berto, "Os amigos"
no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias
tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite
prendiam sóis nos cabelos entrançados lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume
ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência
sobre infindáveis areias
tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite
prendiam sóis nos cabelos entrançados lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume
ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Al Berto
"Notas para o diário"
deus tem que ser substituído rapidamente por poemas,
sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
a dor de todas as ruas vazias.
sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de aca-
bar comigo mesmo.
a dor de todas as ruas vazias.
mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração,
ou onde o medo tem a precariedade doutro corpo.
a dor de todas as ruas vazias.
pois bem, mário – o paraíso sabe-se que chega a lisboa
na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no
cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem
cadastro.
a dor de todas as ruas vazias.
sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.
a dor de todas as ruas vazias.
os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas. ..e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida – e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.
a dor de todas as ruas vazias.
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Al Berto
"há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida..."
há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentado à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
sábado, 21 de junho de 2014
Al Berto, "foram breves e medonhas as noites de amor"
foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos
estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição
os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida
e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Al Berto, "Mar-De-Leva nº 6"
é tarde meu amor
estou longe de ti, com o tempo diluíste-te nas veias das
marés, na saliva de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituram-me, cospem-me, interrompem o
sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido
dos corais... e no ventre impossível das cidades noturnas
a solidão tem dias mais cruéis
tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro...quis ser grande e
morrer contigo
enfeitar-te com tuas luas brancas, pratear a voz em tuas
águas de seda... cantar-te os gestos com ternura
mas não
águas, águas inquinadas* pulsando dentro de meu corpo,
como um um peixe ferido, louco
em mim a lama... e o visco inocente dos teus náufragos sem
nome-de-rua, nem estátua de jardim-público
aceito o desafio com desdém
na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras
tristes que te cantam
* inquinadas - sujas, corrompidas.
domingo, 22 de maio de 2011
Al Berto
"Dizem que a paixão o conheceu ..."
Dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice
Conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo
Dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nunhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos
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