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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Nelson Ascher, "Soneto"


Fiz o que não devia,
o que devia, não;
compus uma canção
sem letra ou melodia.

À meia-noite ardia
meu sol que, sem razão,
legara de antemão
trevas ao meio-dia.

E enquanto lia tudo
que não dizia nada,
ouvindo na calada

da noite um eco mudo,
pensava, sobretudo,
que pouco sobrenada.

domingo, 4 de agosto de 2013

Nelson Ascher, "Bálsamos'


Embora eu sôfrego mordisque
nem tão leve o teu mamilo
vermelho a ponte de induzi-lo
à rigidez que lhe condiz -

querendo ainda mais, tranquilo
não ficarei sem que petisque
in loco os bálsamos sutis que
procedem - úmido sigilo -

da contração de internas dobras
que (enquanto delas se avizinha
meu hálito) afinal desdobras

para que se entredigam sábios
tudo o que sabem sobre minha
língua teus dois pares de lábios.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Nelson Ascher, "Homecoming"

Estar em meu país
e deduzir num golpe
de vista quem é o quê,
se gay ou se opus dei,

mais isto ainda é fácil,
algo exequível quer
nos parques, quer nos becos
de Osasco ou nos de Osaka.

Estar em meu país
é ser, desde o primário,
íntimo de alguém antes
de ser-lhe apresentado,

mas isto num país
mais incestuoso até
do que a menor das tribos
perdidas, ainda é fácil.

Estar em meu país
é de antemão poder
dizer quem faz o quê
e o que faria caso

pudesse, mas às vezes
parece (e constatá-lo
é fácil) que não há
ninguém fazendo nada.

Estar em meu país
é tanto intuir sem dúvida
quem é quem como ver
quem quer passar por quem,

embora, a rigor, isto
talvez se deva à idade
e, após alguma prática,
nem chegue a ser difícil.

Estar em meu país,
mais que saber por que
qualquer estranho pensa
saber tudo o que penso,

tem algo mais difícil
que o dom fácil de sempre
frustrá-lo e é simplesmente
estar em meu país.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Nelson Ascher, "Vício"

Cigarro, sim, mas, uma
após outra, asfixiando-me
ao deliciosamente
adulterarem o ar —

álcool também, mas, pouco
a pouco, submetendo-me,
conforme eu me entorpeço,
à sua própria lógica —

açúcar, sim, mas, dia
a dia, deformando-me
perversas ao sabor
de seu letal sabor —

sexo também, mas, cada
vez mais, pondo em perigo
quanto restou do meu
sistema imunológico —

sobremaneira e, embora
mereçam, tendo em vista
tudo o que, além do esôfago,
traquéia, reto e uretra,

carcomem, a advertência
de que à saúde causam
irreparáveis danos,
viciam-me as palavras.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Nelson Ascher











"Elegiazinha"
                                                [i. m. nikita (gata da Inês)]

Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

domingo, 2 de agosto de 2009

Elizabeth Bishop em duas traduções: "Uma Arte" ou "Uma Certa Arte".























Uma Arte - Tradução de Paulo Henriques Britto
"Uma Certa Arte" – Tradução de Nelson Ascher

A arte de perder não é nenhum mistério;
A arte da perda é fácil de estudar:
tantas coisas contêm em si o acidente
a perda, a tantas coisas, é latente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
que perdê-las nem chega a ser azar.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
Perde algo a cada dia. Deixa estar:
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
percam-se a chave, o tempo inutilmente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
A arte da perda é fácil de abarcar.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Perde-se mais e melhor. Nome ou lugar,
lugares, nomes, a escala subseqüente
destino que talvez tinhas em mente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
para a viagem. Nem isto é mesmo azar.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Perdi o relógio de mamãe. E um lar
lembrar a perda de três casas excelentes.
dos três que tive, o (quase) mais recente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
A arte da perda é fácil de apurar.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Duas cidades lindas. Mais: um par
que era meu, dois rios, e mais um continente.
de rios, uns reinos meus, um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Perdi-os, mas não foi um grande azar.

Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
Mesmo perder-te (a voz jocosa, um ar
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que eu amo), isso tampouco me desmente.
que a arte de perder não chega a ser mistério
A arte da perda é fácil, apesar
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.
de parecer (Anota!) um grande azar.