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sábado, 2 de setembro de 2017

Fiama Hasse Pais Brandão, "Epístola para os amados"


Ainda vos amos, porque aqui não há só tempo
e o amor, no tempo, é tão intenso e absoluto,
que transborda do tempo para o não-presente.
Havendo tempo e não-tempo, eu vos confesso agora
que em parques ao poente ainda vos estou a amar.
E não que vos ofereça hoje alucinados versos,
mas porque do meu tempo sois donos, como os poemas
que eu escrevo do tempo para o não-tempo, sempre.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Fiama Hasse Pais Brandão, "Epístola para um bandolim sempre em cima de uma mesa"


Não sabes onde está a tua alma eterna hoje
porque te deixei mudo e imóvel, sem os dedos
de alguém ignoto, um dia, que te possuiu
e ao teu etéreo dom. Perguntas-me se estarás
para sempre ali, e eu digo: não estarei para sempre.
Podes sonhar com a melodia antiga ainda,
que trocaste com o demo pelo teu silencio aqui,
pois estas mãos apenas imitam teu som subtil,
por erro e por defeito, nas palavras destes versos.

sábado, 20 de setembro de 2014

Fiama Hasse Pais Brandão, "Perguntai ao muro"


Muro, em que meditas,
ao longo da estrada, por estas quintas,
casas, ermos, entre paixões
de alma dos espectros
presentes e vindouros? E os vivos,
porque se escondem
por trás da tua fronte alta,
quieta, seca, que cobiça os astros,
sem saber que o teu corpo
de xisto corre, avança,
mas não pode soltar-se da Terra
e alcançar o Alto?

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Fiama Hasse Pais Brandão, "Trevos bravos"
















Durante alguns anos amei os trevos
com desespero e júbilo e veemência.
E no ano passado num súbito momento
o jardineiro cortou-os ao longo do muro
como de o serem daninhos fosse o opróbio.
Eu amava-os, como testemunham as
orações feitas contra o muro, de joelhos,
na adolescência sem palavras. Olhar só
a corola provisória, o caule tenro,
a repetição, ano depois de ano,
do movimento do abrir das pétalas.

E aquele amarelo tão ridente
sacudido por si próprio ou pelo vento
e os sons que estoiravam, em redor,
dos insectos que enchiam a minha boca.
Só por eles eu emitia o ruído
de estar ali também eu viva.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Fiama Hasse Pais Brandão, "Só a rajada de vento..."


Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.