sexta-feira, 27 de julho de 2018
Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos, "Soneto a quatro mãos"
Tudo de amor que existe em mim foi dado
Tudo que fala em mim de amor foi dito
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.
Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.
Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.
Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.
sábado, 1 de abril de 2017
Paulo Mendes Campos, "Por que bebemos tanto assim?"
Bar é um objeto que se gasta como camisa, isto é, depois de certo tempo de uso é sempre necessário comprar uma camisa nova e mudar de bar. É preciso escolher bem o nosso bar, pois tão desagradável quanto tomar um bonde errado é tomar um bar errado. O homem que toma o bar errado pode gerar aborrecimentos ou ser a vítima deles.
Não escrevo este artigo no bar. Não entendo pessoas que bebem para escrever. Georges Bernanos escrevia em bares com o risco de passar por bêbado, coisa que talvez tivesse sido (a afirmação é do próprio escritor católico) se as leis alfandegárias não taxassem tão alto os álcoois consoladores. A bebida consola; o homem bebe; logo, o homem precisa ser consolado. A dramaticidade fundamental do destino é o penhor dos fabricantes do veneno. Porque o álcool é um veneno mortal. Um veneno mortal que consola e... degrada o homem. Mas outro escritor católico (teve uma crise de irritação quando chegou a Nova Iorque durante a lei seca), o gordo, sutil e sedento G. K. Chesterton, nega que o álcool degrade o homem: o homem degrada o álcool.
Chesterton foi um louco que perdeu tudo, menos a razão; é claro, por isso mesmo, que a criatura humana é o princípio da degradação de todas as coisas sobre a Terra. O álcool é inocente. Só um típico alcoólico anônimo seria incapaz de entender a inocência do álcool e a inescrutável malícia dos homens.
Depois de dois escritores, cito agora um falecido artista de cinema, Humphrey Bogart, que dizia: "Todo homem está sempre três doses abaixo do normal." That's the question. Na verdade, não é bem isso: bebemos para empatar com o mundo. O mundo está sempre a ganhar da gente, de um a zero, dois a zero... Bebe-se na esperança de igualar o marcador. Uma ilusão, sem dúvida, mas toda la vida es sueño y los sueños sueños son. Calderón de la Barca, se bebia, era escondido; saiba portanto, leitor, que a sentença seguinte foi adulterada por mim: "Aún en sueños — no se pierde el beber bien."
Uma das exclamações mais doces (Luis de Góngora y Argote) da poesia espanhola é esta:
Oh bienaventurado
albergue a cualquier hora!
Um dos aforismos pungentes (Baudelaire) da literatura é este: "É preciso estar sempre bêbado — de vinho, de poesia, de religião". Uma expressão popular: beber para afogar as mágoas.
Bernanos, Chesterton, Humphrey Bogart, o falso Calderón de la Barca, Góngora e o povo estão perfeitamente certos: o homem bebe para disfarçar a humilhação terrestre, para ser consolado; para driblar a si mesmo; o homem bebe como o poeta escreve seus versos, o compositor faz uma sonata, o místico sai arrebatado pela janela do claustro, a adolescente adora cinema, o fiel se confessa, o neurótico busca o analista. Quem foge de si mesmo se encontra; quem procura encontrar-se afasta-se de si mesmo. Não é paradoxo, é o imbricamento humano. E este é uma espiral inflacionária cuja moeda, em desvalorização permanente, é a nossa precária percepção da realidade. Somos inflacionados pelo nosso próprio vazio: a reação nervosa da embriaguez parece encher-nos ou pelo menos atenuar a presença do espírito desesperado dentro do corpo, perfeitamente disposto a possuir os bens terrestres e gozá-los. Espírito e corpo não se entendem: o primeiro conhece exaustivamente a morte, enquanto o segundo é imortal, enquanto vive. Daí essa tocata e fuga a repetir-se indefinidamente dentro de cada ser, este desequilíbrio que nos leva ao bar, à igreja, ao consultório do analista, às alcovas sexuais, à arte, à ciência, à ambição de mando e dinheiro, a tudo. As fugas e fantasias são tantas, e tão arraigadas, que se confundem com a própria natureza humana. Não seria possível definir o homem como um animal que nasce, alimenta-se, pensa, reproduz e morre; o que interessa no homem é o que sobra; o fundamental nele é o supérfluo. Uma jovem atirou-se sem explicação dum décimo andar, um cientista experimentou em si mesmo o vírus duma doença mortal, um artista passa vários anos de fome e incompreensão para realizar uma obra, os tranqüilizantes são vendidos aos milhões, multidões acreditam na santidade duma menina, cresce o número de doentes mentais, o alcoolismo é um mal que se generaliza — estas são as manchetes que interessam à psicologia do indivíduo e da coletividade. Todos esses fatos, superficialmente plurais, possuem na base a singularidade da tristeza. É preciso beber. A natureza deu-nos a embriaguez natural do sono. Oito horas de sono não bastam. É preciso estar bêbado — de vinho, poesia, religião. É preciso estar bêbado de todas as mentiras vitais (a expressão é de Ibsen): de poder, de luxo, de luxúria, de bondade, de satanismo (o doutor Relling para consolar um pobre-diabo inventou para ele uma personalidade diabólica), de idealismo, de Deus, de violência, de humildade, de loucura, de qualquer coisa.
O álcool é tão-só a modalidade primária e comum à embriaguez. O bar é a primeira instância da causa do homem. O uísque (cachaça) é apenas uma das formas vulgares de todos os ritos milenares de encantamento.
O que comiam os centauros? O que transformava os homens em deuses? Que se comia durante as cerimônias dos Mistérios na Grécia? Provavelmente um cogumelo chamado amanita muscaria, incomparavelmente superior aos nossos melhores vinhos e aguardentes. O cogumelo leva-nos à morada de Deus — é o testemunho de uma médica e um banqueiro que o experimentavam várias vezes. Acredita Robert Graves que Sansão devia sua força aos cogumelos. A Sulamita refere-se aos cogumelos no Cântico dos Cânticos. Os indígenas mexicanos o usavam em suas festas rituais (culto ainda existente na província de Oaxaca). Portanto:
A embriaguez é religiosa, e o altar das religiões antigas inventou de certo modo a mesa do bar. Aí, o homem punha-se em comunicação com o espírito divino, ligava céu e terra, transcendia-se.
O homem entra no bar para transcender-se — eis a miserável verdade.
Entrei em muitos, bebo alguma coisa desde a minha adolescência, conheço bares em Belo Horizonte, Porto Alegre, Buenos Aires, Florianópolis, São Paulo, Rio, Salvador, Recife, Manaus, Brasília, João Pessoa, Petrópolis, Belém, Nova Iorque, Lisboa, Vigo, Londres, Stratford-on-Avon, Oxford, Paris, Grenoble, Gênova, Pisa, Arezzo, Florença, San Gemignano, Volterra, Spezia, Roma, Nápoles, Paestum, Reggio di Calabria, Messina, Catania, Siracusa, Licata, Agrigento, Marsala, Trapani, Palermo, Taormina, Veneza, Hamburgo, Berlim (Ocidental e Oriental), Heidelberg, Dusseldorf, Colônia, Munique, Goettingen, Francforte, Bonn, Varsóvia, Estocolmo, Leningrado, Moscou, Surrumi, Ircútsqui, Pequim, Múquiden, Xangai, Santa Luzia e Sabará...
Em 1954, viajando pela Alemanha de automóvel, cheguei pouco depois da meia-noite à cidade universitária de Goettingen. No Brasil, uma cidade cheia de estudantes costuma tumultuar-se pela madrugada. Mas Goettingen àquela hora entregava-se a um repouso unânime. Sem sono, reservei um quarto no hotel, perguntando ao empregado onde poderia beber qualquer coisa.
— Ah, senhor — respondeu entre sentido e orgulhoso o alemão
— Goettingen é uma cidade universitária, não existe nada aberto a esta hora.
— O senhor está completamente enganado — retruquei-lhe.
Ele se riu bondosamente de mim: tinha mais de 60 anos, nascera em Goettingen, conhecia todas as ruas da cidade, todos os bares, seria impossível encontrar qualquer venda aberta depois de meia-noite.
— O senhor está enganado — insistia eu.
Moeller, outro alemão, que viajava comigo, reforçou a opinião do empregado do hotel e começou a dissertar impertinentemente sobre as diferenças entre o Brasil e a Alemanha. Eu estava parecendo bobo — disse ele — não querendo aceitar sua germânica verdade: em Goettingen não havia um único bar aberto depois de meia-noite. A esta altura manifestei-lhes um princípio universal, pelo qual sempre me guiei:
— Pois fiquem vocês sabendo que em todas as cidades, todas as vilas e povoados do mundo, há pelo menos duas pessoas que continuam a beber depois de meia-noite; aqui em Goettingen há pelo menos duas pessoas que estão bebendo neste momento; vou encomendá-las.
Darwin Brandão, o terceiro homem nesta viagem, não me deixa mentir. Meio cético a respeito do meu princípio, mas solidário com o amigo, resolveu acompanhar-me, apesar do sarcasmo dissuasório de Moeller. Saímos para a noite morta de Goettingen, e vimos um gato, tão silencioso quanto os seus conterrâneos, ganhar às pressas o beiral dum telhado secular. Fomos andando pelas ruas paralisadas, eu tranqüilo, e Darwin me espiando de banda. No fim duma rua comprida e oblíqua, vi um cubo iluminado, mais parecido com um anúncio de barbearia, e afirmei:
— É ali. — Nas faces visíveis do cubo estava escrito: Weinclub. Ao fim da passagem lateral, por onde entramos, demos com a porta fechada. Batemos em vão, e já íamos embora, desapontados, quando notei no corredor uma escada circular para o porão, cavada na pedra. No primeiro patamar, ouvimos música. Tomei um ar superior de vidente e desci o segundo lance. Empurrada a grossa porta de carvalho (o carvalho é mera suposição), recebi uma salutar lufada de música, de tabaco, de gente, de aromas etílicos. Foi como se eu reconquistasse o paraíso. O Weinclub dançava e bebia animadamente, repleto de jovens universitários e lindas universitárias de bochechas coradas e riso amorável. Não havia uma única mesa vaga, mas três segundos depois eu estava a beber um magnífico branco do Reno, e a explicar para os estudantes, que nos acolheram com simpatia, o princípio universal que rege a vida noturna. E eles, os mais talentosos matemáticos do mundo, futuros inventores de balísticos e outros inteligentíssimos engenhos mortíferos, acataram o meu pacífico princípio como um axioma luminoso. Foi um dos bares mais consoladores de minha temporada sobre a Terra.
Um bar legal precisa apresentar cinco qualidades fundamentais: boa circulação de ar, bom proprietário, bons garçons, bons fregueses e boa bebida. Isto é raríssimo de acontecer. Quando o garçom é uma flor de sujeito, o dono do bar costuma ser uma besta; se os fregueses são alcoólicos esclarecidos, o ambiente às vezes é quente e abafado; vai ver um excelente e confortável bar refrigerado, e boa porcentagem de uísque é fabricada no Engenho de Dentro. Para dizer toda a verdade, o bar perfeito não existe.
Barmen and jockeys are the only people who are polite any more, doutrinou um homem que consumia álcool em quantidades industriais, o romancista Ernest Hemingway. O barman, de fato, é um dos segredos do bar. Cada freguês deve sentir a ilusão de que o barman tem uma predileção especial por ele, e em nome disso será capaz de resolver qualquer problema. O incompreensível é que resolvem mesmo. O homem que chega a uma grande metrópole desconhecida é como um avião voando em solidão por dentro dum espesso nevoeiro. Mas, se este homem pertence à comunidade internacional dos freqüentadores de bar, cada barman é uma torre com a qual ele poderá entrar em contato a fim de orientar-se. Os únicos estranhos aos quais eu falo sem timidez, com perfeita familiaridade, são os barmen, e estes igualmente reconhecem logo em mim o freguês escolado, curtido em todos os amargos, navegador de longo curso.
Todo freqüentador de bar tem o direito eventual de embriagar-se convenientemente uma vez por outra. Quem vende bebida deve ser linchado quando exige de seus fregueses comportamento de casa de chá. Aclarados neste ponto, podemos afirmar que o maior inimigo do bar e do alcoolismo é o mau bebedor que bebe anos a fio e não aprende a beber, o bebedor diariamente chato, incapaz de entender o tácito acordo de amabilidade e contenção que existe entre todos os bons bebedores do mundo. Eu os conheço todos e os abomino. Conheço toda a imensa variedade da espécie (sentimentalóides, untuosos, agressivos, prolixos, confidenciais, pedantes, questionadores, inoportunos, monocórdios, babugentos, ressentidos etc. etc). Ah, se um dia eu pendurar o meu copo numa prateleira, e passar a beber em casa, podereis estar certos, contemporâneos, de que foram os maus bebedores que me levaram a este extremo!
Não defendo o alcoolismo, sr. Alcoólico Anônimo. Queira entender-me com um pouco mais de sutileza, se me faz o favor. Modestamente embora, falando do alto duma tribuna para uma platéia vazia, defendo é o homem. O uísque não me interessa, o que me interessa é a criatura humana, esta pobre e arrogante criatura, já confrangida por um destino obscuro, arrumada odiosamente em castas duma sociedade sanguessuga, uma sociedade engenhosamente arquitetada para triturar as classes de baixo a fim de transformar a matéria-prima em petróleo, aço, eletricidade, veículos, aparelhos domésticos, tecidos, alimentos. Segue-se a segunda fase do processo industrial: correias de transmissão levam estes bens terrestres ao alto-forno, que os transforma em palácios, iates, cavalos de corridas, jóias, amantes de luxos, em todas as formas de prazer e domínio sobre a vida. Mas os ricos também bebem, e quanto! Bebem às vezes por má consciência, outras por má educação, e bebem porque todos os bens terrestres são fantasias que se desfazem de repente ao hálito da morte. Pois o que advogo no meu desespero-dialético é a melhor distribuição das fantasias terrestres. Será a única maneira eficiente de reduzir o alcoolismo. A máquina social cria sobre o indivíduo uma inumerável série de compreensões, que o desequilibram e infelicitam. O alcoolismo é uma das variadíssimas conseqüências desse extraordinário mal-estar coletivo. Transpondo a porta do bar, o homem age com toda a pureza e inocência, buscando fugir ao sofrimento, tentando cumprir a sua vocação para o prazer; se encontra no bar um novo mal, a degradação, o desemprego, a debilitação orgânica, a morte prematura, isto é outra história. A história triste das drinking classes.
sábado, 4 de março de 2017
Paulo Mendes Campos, "Fragmentos em prosa"
Nasci a 28 de fevereiro de 1922, em Belo Horizonte,
No ano de Ulysses e de The Waste Land,
Oito meses antes da morte de Marcel Proust,
Um século depois de Shelley afogar-se no golfo de Spezzia.
Nada tenho com eles, fabulosos,
Mas foi através da literatura que recebi a vida
E foi em mim a poesia uma divindade necessária.
Da casa em que nasci não me lembro nada.
Contam que via o demônio e o apontava na parede,
Alvoraçadamente, como se fora um anjo.
Minha vida começa em Saúde, arraial da minha infância,
De que cito algumas estampas essenciais:
Eu e Íris brincando no jardim.
Íris no caixão sobre a mesa escura.
A notícia do assassinato de meu tio Arquimedes,
Chegada cautelosamente no serão familiar,
Seu Rodolfo caçador com sua perna de pau
(Derrubou o cacho de cocos com um tiro),
Minha mãe, revólver em punho, procurando ladrão no quintal,
O leproso dos Correios que comia ovos cozidos,
A besta Mascote, a besta Mansinha,
Meu encontro com a morte de um tuberculoso em uma casa desconhecida,
O guizo da mula sem cabeça tilintando na várzea.
Lembro-me da partida sem pena.
Ainda hoje, quando subo os degraus do avião, do navio,
É sempre a mesma emoção, uma alegria doloridamente física,
Uma névoa infantil nos olhos, imitando as lágrimas,
Uma pulsação dentro de mim como antes de um beijo.
Não sei se foi feliz a minha primeira infância.
Não trouxe no coração uma saudade direta
E tive terror dos mascarados e do batuque noturno dos tambores.
Em Belo Horizonte,
Ao grito de “avião! avião!” corria para a rua em uma agitação de fim de
[mundo.
Quantas tristezas de sexo precoce eu tive!
Não sei como dizer de todas as aflições
Quando senti, como um alarme, a violência do corpo.
Muitos anos esperei em dor para ter nos braços a mulher
E quando penso nisso sinto uma vontade pesada de ajoelhar.
As primeiras letras. Meu ódio à disciplina.
O mistério do pátio das meninas.
Minha primeira paixão chamava-se Maria e usava tranças.
Minha segunda paixão chamava-se Maria e tinha olhos bonitos.
A minha terceira paixão chamava-se Maria.
Brincar de grande era a gente mesmo, a correr em cavalos de pau,
Brincar de pequeno era retirar da caixa as figuras recortadas
E tecer os enredos.
As fitas em série aos domingos: O Grande Guerreiro!
Os filmes de cobói: Bob Steele! Buck Jones!
Ruas de Nova Iorque! Tempestade sobre a Ásia!
Os livros! A importância de retirar um livro da Biblioteca Pública!
Robinson, Gulliver, Dom Quixote! O Duplo assassinato da rua Morgue!
Quando veio a revolução de 30 estava de braço quebrado.
As negras se arrastavam da Barroca até a Serra
E aí chegavam famintas, esfarrapadas, apavoradas.
Lembro de meu pai comprando e distribuindo alimentos no armazém.
Da Caixa D’água da Serra, aos oito anos,
Vi pela primeira vez um avião atirar bombas.
Nossas molecagens! Nossas maldades!
Furto de frutas! A incrível pontaria de Mário Carolla!
As brigas da quadrilha do Abrigo Pernambucano.
O desprezo pela polícia, as excursões ao Banheirinho.
As árvores não cresciam em nossas ruas,
A grama não pegava nos jardins,
As lâmpadas não ficavam nos postes.
O resto de coragem física em mim vem desses tempos.
O Colégio Arnaldo, aversão à matemática, nulidade em desenho,
O dedo imenso e estúpido do Padre Coqueiro…
Aos onze anos, armado de revólver, fugi de casa.
Foi o romancista Osvaldo Alves que me vendeu latas de conservas no
[armazém.
Em companhia de Georges e Aristeu,
Demandei Goiás em busca de índios.
A primeira sede violenta,
O desconhecido amedrontando e tentando,
Cardoso, venho lenheiro, homem bom já falecido, que em sua casa na
[Mutuca nos deu cama de palha, café
[com broas e conselhos mansos:
Acho que vocês vão dar uma estopada, meninos. O mundo é grande!
Reprovado no primeiro ano ginasial,
Fui mandado para o colégio inter no de Cachoeira do Campo.
Lágrimas convulsas na primeira noite.
Lágrimas depois em muitas noites.
Conheço a pusilanimidade, a traição, a delação.
Conheço a covardia, a bofetada de um padre.
Feroz e indisciplinado é o coração da infância.
Experiência da solidão:
Um grande pátio com uma paineira e um retângulo no alto
De estrelas.
A saudade à hora do crepúsculo estragou-me todos os outros crepúsculos.
Tragédias do sexo e da afeição
Tiveram apenas o testemunho irreal dos professores.
Minha rebeldia fez-me a vida infeliz.
Meu medo do inferno fez-me a vida infeliz.
Minha sensibilidade fez-me a vida infeliz.
Meu tempo de internato em Dom Bosco, durante três anos intermináveis,
[foi uma coisa infeliz, irremediavelmente
[infeliz, até hoje infeliz.
No segundo ano, segundo a linguagem salesiana,
Comecei a ficar tíbio; participava da Société Impieté
Como um de seus mais revoltados membros.
Devo a Mário Lúcio Brandão minhas primeiras conversas literárias.
Achávamos uma injustiça Abílio Barreto não pertencer à Academia
[Brasileira de Letras.
Não esquecer as férias e o esperar por elas;
O sorriso de convivência feliz e de vingança contra o assistente,
Quando a primeira horda de bichinhos de luz invadia o estudo da noite,
prenunciando as férias.
Não esquecer os cigarros fumados sob o risco de dez escasso,
Não esquecer os tapas nas caras dos xibungas, dos decuriões,
Não esquecer nada que seja contra o Colégio Dom Bosco,
Nada que haja escapado à vigilância.
Nenhuma rebeldia.
Alunos fortes que desafiavam professores,
Putas-que-o-pariu na cara deles,
Nada esquecer,
Os que fugiam e levavam os nossos votos de boa sorte,
O ridículo de certos pe-da-go-gos,
A oratória besta de Padre Benedito,
A vaidade de Padre Alcides,
A cara cruel de seu Yzver,
A raposice de um, lambdacismo de outro.
Não esquecer…
Não esquecerei nada.
Seu João Maria me chamava de Laplace:
Não me puniu quando me viu roubar laranjas.
Obrigado, seu João Maria,
seu Vicente era manso e consolava os que choram.
Obrigado, seu Vicente.
Seu Gilberto era um ótimo sujeito.
Obrigado, seu Gilberto.
Era suave o perfume do eucalipto, suave era o ar,
Doces eram as laranjas, as ameixas, as jabuticabas,
Majestosos eram os pinheiros,
Frescas eram as águas nascentes,
Ásperos e belos os caminhos da montanha.
Coisas da natureza, obrigado, obrigado.
Obrigado, amigos meus.
Que contentamento deixar Dom Bosco e seus fantasmas!
Ah! se pudesse levar apenas o aroma das resinas!
Que contentamento tomar o trem na antiga Hargreaves
E voltar à casa. Que alvoroço de abelhas voltar!
Foi em Georges Bernanos que li esta passagem que sempre me comoveu.
“A honra e a pouca coragem que possuo herdei-as da criatura, hoje para mim misteriosa, que caminhava sob a chuva de setembro, através dos campos encharcados de água, o coração já cheio do próximo regresso, dos recreios fúnebres, onde a acolheria logo o negro inverno, dos refeitórios invadidos de um hálito gorduroso, das intermináveis missas cantadas, onde uma pequena alma fatigada só poderia compartilhar com Deus o seu tédio — criança que fui e que é hoje para mim como um antepassado. Por que, entretanto, terei mudado? Por que mudarei? As horas me são medidas, as férias vão terminar como sempre e o pórtico negro que me espera é ainda mais negro do que o outro.”
Em 1937, fui para o Ginásio de Santo Antônio, em São João del-Rei,
De sadios holandeses franciscanos.
Várias liberdades desconhecidas:
A de fumar,
A de pôr as mãos dos bolsos,
A de fazer rodinhas,
A de sentar-se nos recreios,
A de conversar com maiores e menores,
A de sair aos domingos,
A de namorar,
A de opinião.
Pouco a registrar.
O esporte,
As namoradas sem consistência,
Os primeiros amigos mortos, a desfiar um rosário de tristezas minhas,
Aplicação e desprezo pelos estudos,
Uma adivinhação de poesia nos florilégios estúpidos,
Estudos de gramática portuguesa
(Nasóculos, quotiliquê, ludopédio),
Romances: Júlio Diniz, Júlio Verne, Camilo, Coelho Neto;
Desorientadas e frustradas inquietações políticas e patrióticas;
A amizade dura de Frei Godberto;
Orador do grêmio Literário Jackson de Figueiredo;
A vontade de escrever uma coisa;
O medo da morte;
O medo do tempo.
Registrem-se ainda algumas ternuras da memória:
A voz grossa e rápida de Frei Rufino,
A vaguidão de Frei Lau querendo escrever com o charuto,
O irrepreensível Frei Norberto,
O sorridente Frei Virgílio,
Un tas de choses,
Coisas inocentes que gelam dentro de mim um bloco de saudade.
Ginasial — é o grau de instrução que tenho.
Em 1940, em Porto Alegre,
Aluno da Escola Preparatória de Cadetes,
Queria ser aviador.
Em dez meses de disciplina, de estudos bélicos,
De marchas, de ordem unida, maneabilidade,
Manobrando fuzis e metralhadoras,
Não descobri dentro de mim, sob a farda, o soldado.
Fui definitivamente um paisano.
Elza era delicada e ia ser dentista.
Altamira apaixonou-me logo, muito branca de olhos verdes.
Uma judia guardei como lembrança de perfeição adolescente.
Também as decaídas inesquecíveis.
As putas são ásperas e guardam purezas intratáveis.
Os dias de acampamento ficaram inesquecíveis
Com suas estrelas
Suas alvoradas em cima do Guaíba,
E o brincar de guerra em correria pelos montes.
Inesquecível minha fuga, à noite, por uma corda
E os dez dias de cadeia que se seguiram
Ao lado de um colega de pincenê que lia O Vento Levou.
Em Florianópolis, um catraieiro me salvou de morrer afogado.
Inesquecível.
A adolescência é um tribunal inesperado:
O julgamento do pai pelo filho,
O julgamento do filho pelo pai.
Nesse conflito de culpas, apreensões, incertezas,
Está o mistério dos caminhos da vida sempre errados.
Toda a perplexidade do homem cabe no encontro do pai e do filho
Quando se encaram com um rancor de acusados à luz da madrugada.
Cabe às mulheres a melhor parte do amor e do sofrimento
Porque as mães não podem julgar.
Na ternura milagrosa das mulheres
É como se o filho não houvesse se desprendido do ventre —
E este é o mais simples e doce de todos os mistérios.
Em 1939, cursando o primeiro ano complementar de Odontologia.
Ainda tonto e feliz da liberdade, caí de amores.
Chamava-se Maria e era linda e magra.
Que sofrimento olhar o tempo quando se ama.
Só a lembrança de teu chapéu de palha, Maria,
Nas tardes cálidas do Minas Tênis me arrancariam muitas lágrimas.
Fantasiou-se de pirata no carnaval e me deixou.
Morreu tuberculosa, de repente. Fui à missa de sétimo dia.
Desde então me arrepio quando escuto o Dies Irae.
Outra Maria. Maria Elvira.
Deu-me o carinho de suas pernas claras.
Obrigado, Maria.
Simpáticas como você há poucas.
Poucas têm olhos cinzentos tão lindos quanto os seus,
Poucas tanta fraqueza no desejo da carne como você.
Vem de longe, dos tempos de ginásio, o meu gosto pelo álcool.
Vem de mais longe talvez, de regiões oprimidas da infância,
De um ancestral incompetente, de uma horda de heranças infelizes,
Uma vontade de falar, de cuspir.
Folha morta, déçà, délà, fui arrastado pelas ruas
Na tranqüilidade fresca da madrugada de Minas.
Havia um poder suicida em cada coisa:
O vento era uma coisa forte e me estremecia,
O azul era uma coisa forte e me estremecia,
A mulher era uma coisa forte e me estremecia,
A aurora, a tarde arrastando-se no quintal,
Tudo me estremecia e me empurrava para a vida e para a morte.
Em meus versos havia uma força louca de poesia,
Nos pensamentos meus e alheios radiavam deuses violentos,
Em todos os meus gestos, uma grandeza pensada e magnífica.
Ó confusa adolescência! já não entendo teu clamor,
Tuas vigílias, tuas angústias, as armas de teu combate.
Meu rosto está sereno quando penso em ti
Mas bem no íntimo tenho uma vontade de unhar-me,
De esbofetear-me, de morrer. Morreu contigo
O sol denso da tragédia. Morreu contigo
O pássaro rubro amigo de meu ombro. Morreu contigo
Uma palpitação, um frêmito constante. Morreu contigo
Meu inconformismo cruel, minha dignidade na desgraça. Contigo
A parte de mim mais infeliz e fiel.
Copiado do site https://prosaempoema.com do Paulo Sabino.
domingo, 13 de dezembro de 2015
Paulo Mendes Campos, "Tempo-eternidade"
do segredo que os dias encadeia
me abismo na canção que pastoreia
as infinitas nuvens do presente.
à luz desta canção que me rodeia
como se a carne se fizesse alheia
à nossa opacidade descontente.
e a minha eternidade uma bandeira
aberta em céu azul de solidões.
o tempo que se esvai é minha glória
e o susto de minh´alma sem razões.
domingo, 30 de agosto de 2015
Paulo Mendes Campos, "O suicida"
Ao coração desceu a sombra forte,
Um homem triste foi buscar a morte
Nas ondas, flor do mal aos pés da vida.
Como um falcão de súbito no alto
Estremece sentindo o sobressalto
Do abismo que lhe fala porque é mudo.
Na paz que lhe faltou e que me falta
E no confuso alarme do meu fim.
Enquanto faz-me a brisa respirar
O fumo da cidade atrás de mim.
sexta-feira, 13 de março de 2015
Paulo Mendes Campos
1923 - Morre o Rui, Stalin assume a chefia do poder soviético, putch de Hitler em Munique. Eu nada disse, nada me foi perguntado.
1924 - Revolução em São Paulo, estado de sítio. Dou para quebrar minhas mamadeiras, após o ato de esvaziá-las. O califado turco entra pelo cano.
1925 - Começo a ver o diabo dançando em torno de meu berço;e gosto.
1928 - Carmona, presidente de Portugal; Hiro-Hito, imperador do Japão. Ganho um par de botinas e durmo abraçado a elas.
1927 - Com o nome de Charles Lindbergh, atravesso o Atlântico pilotando o Spirit of Saint Louis.
1928 - Antônio de Oliveira Salazar torna-se precocemente ministro das finanças portuguesas; perco na Rua Tupis uma prata de dois mil-réis.
1929 - Craque na bolsa de Nova Iorque. Pulo do bonde em movimento na rua da Bahia, esborracho-me no chão, um Ford último modelo consegue parar em cima de mim, e quase não fico para contar a história.
1930 - Revolução: mesmo com fratura dupla no braço, dou o melhor de mim ao lado das tropas rebeldes e, logo após, ao lado das tropas legalistas. Na caixa d'água da Serra leio "0 Barão de Münchausen".
1931 - A Inglaterra deixa o padrão ouro, Afonso XIII deixa o trono espanhol. Eu, Robinson Crusoé, naufrago no Pacífico, chego a uma ilha cheia de ilustrações coloridas e me torno amigo de Sexta-Feira.
1932 - Revolução de São Paulo. Luto na Mantiqueira, tremendo de frio e de coragem; não tenho muita certeza se morro ou não.
1933 - Morre dentro da banheira o Presidente Olegário Maciel. O Padre Coqueiro vem dizer que as aulas estão suspensas por motivo de luto nacional. Viva Olegário Maciel! Fujo da casa paterna, materna, fraterna, mochila nas costas, em busca dos índios de Mato Grosso; regresso ao atingir as terras da Mutuca, hoje subúrbio de Belo Horizonte.
1934 - Hitler é Führer do Reich; eu não sei se sou Winetou ou Mão de Ferro.
1935 - Mussolini ataca a Abissínia; ataco e defendo no time da divisão dos médios como centro-médio.
1936 - Morre George V, viva Eduardo VIII, que renuncia, sobe ao trono George VI. Ganho com alegria o bilhete azul do colégio.
1937 - O golpe do Estado Novo me pega de surpresa, quando subo as escadas da capela do outro colégio para a benção do Santíssimo e uma prática chatíssima de Frei Mário.
1938 - Os japoneses tomam Cantão; no Hotel Espanhol, São João del-Rei, os bacharelandos do Ginásio de Santo Antônio tomam vinho Gatão e recitam um ditirambo de Medeiros de Albuquerque (estava no florilégio do compêndio): "Bebe! e se ao cabo da noite escura, / Hora de crimes torpes, medonhos, / Varrer-te acaso da mente os sonhos, / Cerra os ouvidos à voz do povo! / Ergue teu cálice, bebe de novo!" Foi o que fizemos.
1939 - Começo a guerra.
1940 - Caio com a França.
1941 - Não sou mais eu:
1) sou como o rei de um país chuvoso;
2) sou uma nuvem de calças;
3) sou 350;
4) sou triste e impenetrável como um cisne de feltro. E assim por diante.
1942 - Atingido pelo mal do século (XVIII), mato-me no Parque Municipal. Meu nome é Werther.
1943 - Venço a batalha de Stalingrado.
1944 - Maquis.
1945 - Tomo o noturno mineiro e me mudo para o Rio, acabo com a ditadura.
1946 - 1955 – Yo era un tonto.
1956 - 1960 - Lo que hé visto me ha hecho dos tontos.
1961 - Subo no espaço sideral, dou uma volta em torno da Terra na primeira nave cósmica tripulada por um ser humano. Depois desço no Bico de Lacre, bar dos mentirosos e sonhadores, e digo: "O Mundo é azul.
sábado, 10 de janeiro de 2015
Paulo Mendes Campos
"Três coisas"
Não consigo entender
sábado, 17 de agosto de 2013
Paulo Mendes Campos, "A morte"
Ontem sonhei com a morte
Por duas horas desertas:
As pálpebras não se fecharam,
Antes ficaram abertas.
Os olhos esbugalhados
Cravados num ponto incerto,
Por fora desesperados,
Por dentro o mal do deserto.
Todo de preto vestido
Me aparteava a nudez
De estar ali sem sentido
De um mundo que se desfez.
Se alguém quisesse podia
Cuspir-me em cima do rosto
O nojo que lhe subia
De ver-me assim tão composto.
Talvez um ríctus na boca
O meu segredo explicasse,
Foi-me sempre a vida pouca
E era a morte o meu disfarce.
Vi-me no esquife hediondo,
As mãos cruzadas de vez,
Vi-me só me decompondo,
Doído de lucidez.
Senti o cheiro das flores,
As velas que crepitavam,
O enjôo forte das cores
Que minha morte enfeitavam.
Vi um remorso ingente
Chegar ao pé do caixão,
Um animal repelente
Feito de amor e paixão.
Um padre de voz plangente
Depois de orar disse amém,
Em torno os olhos da gente
Me sepultavam também.
Sei que tudo era aflição
No meu destino acabado:
O terror da solidão
Ia comigo deitado.
sábado, 15 de outubro de 2011
Paulo Mendes Campos, "Congo"
Tua alma, minha amiga, é como a Bélgica suavizada de canais, mas a minha é como o Congo violentado, duma liberdade malnascida. Miséria misteriosa de meu sangue, suor negro de minha morte, martírio milenar de minh’alma, meu amor. A Bélgica é como a tua alma suave. O Congo é tumulto impenetrável, floresta de lama, felino ferido. Estou ao Norte, ao Sul, a Leste, a Oeste, crucificado em províncias paralíticas, em subúrbios de barro, onde se arrastam bestas mal abatidas, mulambos de Lisala, senzalas de Lusambo, Usumbara profunda com seu zabumba fúnebre, Inongo, Malonga – minha’alma. Mas a tua é suave de canais. Um crime se articula na aldeia petrificada, um guerreiro de lança percorre o vale ardente. Mas em tua alma, minha amiga, há um príncipe melancólico pendido para o crepúsculo. No Congo, violência, vingança, o ídolo vestuto que se estraçalha, o pântano de sangue, o voo do corvo, o rio da raiva, a garra do belga, a madrugada de carvão, a cova de Cristo, a luz de Lumumba. Na Bélgica, a suavidade dos canais, meu amor.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Paulo Mendes Campos, "Litogravura"
Eu voltava cansado como um rio.
No Sumaré altíssimo pulsava
a torre da tevê, tristonha, flava.
Não: voltava humilhado como um tio
bêbado chega à casa de um sobrinho.
Pela ravina, lento, lentamente,
feria-se o luar, num desalinho
de prata sobre a Gávea de meus dias.
Os cães quedaram quietos bruscamente.
Foi no tempo dos bondes: vi um deles
raiar pelo Bar Vinte, borboleta
flamante, touro rútilo, cometa
que se atrasa no cosmo e desespera:
negra, na jaula em fuga, uma pantera.
Passei a mão nos olhos: suntuosa,
negra, na jaula em fuga, ia uma rosa.
quinta-feira, 14 de abril de 2011
Paulo Mendes Campos
"Translúcido"
Rosas raras se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.
Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.
Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.
Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,
Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
Sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.
A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.
Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos.
Ah!Esta paixão de destruir-me à toa.
domingo, 6 de setembro de 2009
Paulo Mendes Campos, "Os bares morrem numa quarta-feira"
Um amigo de Kafka conta que este arquitetava o seguinte: um homem desejando criar uma reunião em que as pessoas aparecessem sem ser convidadas. As pessoas poderiam se ver ou conversar sem se conhecerem. Cada uma faria o que lhe aprouvesse sem chatear o próximo. Ninguém se oporia à entrada ou à saída de ninguém. Não havendo propriamente convidados, não se criariam obrigações especiais para com o anfitrião. E o espinho da solidão doeria mais ou menos.
É possível que Kafka não haja escrito esta alegoria por ter percebido que a mesmo já existia corporificada sob a fora de cafés, restaurantes e bares. Mas o episódio pode levar-nos a considerar com súbita estranheza o mil vezes conhecido: os bares já eram kafkianos quando surgiram no mundo. Ou este, o mundo, é que foi o primeiro bar, quando se encontraram num jardim duas criaturas desconhecidas, e a mulher, buscando comunicação, ofereceu ao homem uma fruta. Foi o primeiro ponto de encontro. E não durou muito.
Pois os bares nascem, vivem, parecem eternos a um determinado momento, e morrem. Morrem numa quarta-feira, como diria Mário de Andrade. O obituário dessas casas fica registrado no livro de memórias. Recordá-los, os bares mortos, é contar a história de uma cidade. Melhor, é fazer o levantamento das cidades que passaram por dentro de uma única cidade. Mesmo num lugar como Paris, que apesar dos pesares procura preservar a imagem histórica, os cafés de Leon-Paul Fargue não foram os cafés de Alphonse Daudet, e este não respirou a atmosfera dos cafés de Stendhal.
O curioso é que os bares do presente, por seus serviços e por sua freqüência, podem merecer até o nosso entusiasmo, mas não recebem jamais o nosso amor. O bom freguês só ama o bar que se foi. Só na lembrança os bares perdem suas arestas e se sublimam.
João do Rio tinha sete anos e se batia contra um enorme sorvete na Confeitaria Paschoal, quando ouvia a Baronesa de Mamanguape exclamar encantada: “Oh! Senhor Olavo Bilac!”
Esta cena não se passou conosco, mas é como se tivesse sido. Seu conteúdo emocional repetiu-se na existência de todas as pessoas que freqüentaram bares e confeitarias. E repetiu-se para o próprio João do Rio, que num livro de 1912 já escreve sobre a decadência das casas de chope; ou simplesmente chopes, como eram chamadas.
Conta como esses chopes surgiram e morreram, partindo a invenção da Rua da Assembléia, nas mesas de mármore do Jacó, onde estetas, imitando Montmartre. Inauguraram o prazer de discutir literatura e falar mal do próximo. Por esse tempo, uma mulher com voz de barítono, chamada Ivone, montou um cabaré satânico na Rua do Lavradio, com tudo o que havia de mais rive gauche, inclusive recitativos macabros de Baudelaire. Era o Chat Noir que perdeu fôlego por falta de verba.
Outros chopes apareceram nas ruas da Assembléia e Carioca, esmerando-se o proprietário na invenção promocional; seus chamarizes são inventariados nessa ordem cronológica de João do Rio: tenores gringos de colarinho sujo e luva na mão, acompanhados ao piano; grandes orquestrar tocando trechos de óperas e valsas perturbadoras; depois, árias italianas servidas com sanduíches de caviar, um chope chegou a apresentar uma harpista capenga, mas formosa. Foi aí que um empresário genial estreou um cantor de modinhas. Foi de endoidar. “A modinha absorveu o público. Antes para ouvir uma modinha tinha a gente que arriscar a pele em baiúcas equívocas e acompanhar serestas ainda mais equívocas. No chope tomava logo um fartão sem se comprometer. E era de ver os mulatos de beiço grosso berrando tristemente: Eu canto em minha viola ternuras de amor , mas de muito amor... E os pretos barítonos, os Bruants de nanquim, maxixando cateretês apopléticos”.
Na Rua da Assembléia, à meia-noite, Catulo da Paixão Cearense erguia um triste copo de cerveja para soluçar dorme que velo, sedutora imagem.
Tudo isso é narrado já no comecinho do século já em afinação de nostalgia; pois os chopes tinham morrido no início da segunda década. Uns poucos anos antes, só na Rua da Carioca, eram uns dez; na Rua do Lavradio, ficavam de um lado e de outro; alastraram-se pela Riachuelo, pela Cidade Nova, Catumbi, Estácio, Praça Onze. Num relampejar brilharam e sumiram as estrelas daquelas noites, esquecidas pela cidade, “a mais infiel das amantes”.
Mas o chope deu um jeito e conseguiu sobreviver; só mudou de cara e personalidade. Quando cheguei ao Rio, era chope o que se tomava em muitos bares famosos, hoje mortos: Túnel da Lapa, 49, Nacional, Brahma... Aí se misturavam pequenos empregados do comércio, a gente de boa roupa e até os derradeiros malandros. No antigo Vermelhinho, as mesas eram ocupadas por escritores, jornalistas, pintores, gente do palco e estudantes da Escola de Belas-Artes. Suas figuras mais constantes eram Santa Rosa, como cigarro pendurado na boca, Vinícius de Moraes, Rubem Braga, Lúcio Rangel. João Cabral de Melo Neto costumava chegar, conversar um pouco e, já alegando dor de cabeça, dar um pulo à Farmácia Normal. Os artistas pretos – Heitor dos Prazeres, Ismael Silva, Solano Trindade, Abdias Nascimento – sentiam-se em casa nas cadeiras de palhinha do Vermelhinho, assim como os estrangeiros trazidos pela guerra. Carlos Drummond de Andrade, deixando o Ministério da Educação, só passava de fininho pela Rua Araújo Porto Alegre.
Depois, uma parte da turma atravessou a rua, pegou o elevador e se instalou no ajardinado terraço da ABI, passando a tomar uísque de fato escocês, porém milimetricamente dosado pelo garçom Stuckert – o Estuca.
O que não se dava nas mercearias enxertadas de uisquerias . Nessas - Pardellas, Lidador, Grande Ponto, Casa Carvalho, Vilariño - o uísque era generoso, apesar de amplamente discutível sua autenticidade. Grande animador desses bares foi o médico pernambucano Eustáquio Duarte, criador do gabarito fosfórico: pleiteou e conseguiu que a dose chegasse à altura de uma caixa de fósforos colocada em pé ao lado do copo.
Eustáquio (Totó Borum para os íntimos) intitulava-se o proletário e era autor de elaborada classificação psicofísica das mulheres ( a pebologia); essa teoria era o enlevo de todos os freqüentadores notadamente do poeta Vinícius. Era ainda o médico (mas atribuía a paternidade a um tal de Fernando C. Pessoa, gerente de hotel na Bahia) autor de sonetos pornográficos da mais pura linguagem bocagiana.
Andou por esses bares ilustres – falo apenas dos que melhor conheci no centro da cidade – toda uma geração de vários sotaques. Eneida (que, antes do Baile dos Pierrots, criou no Vermelhinho um forró carnavalesco de portas cerradas) era vista a todo momento com seus balangandãs tilitantes, entrando no Instituto Nacional do Livro ou dele saindo. Rosário Fusco era onipresente, deixando à porta de todos os bares um táxi à espera. Hoje esse dom da ubiqüidade pertence ao corretor Luís Antônio Pontual.
Zé Lins do Rego era detectado à distância por sua gargalhada. Com ar de menino levado e lavado, Lamartine Babo já entrava trauteando uma canção amena. Ari Barroso, pelo contrário, turbilhonava para dentro do bar com gestos e gritos homéricos: parecia que a guerra fora declarada ou que um ônibus passara por cima dele; mas não era nada.
Por ali, entre Presidente Wilson e Almirante Barroso, circulou o Rio artístico, do fim da guerra à guerra fria, mas a verdade histórica manda dizer que a falta de transporte no fim da tarde foi também um determinante desse comportamento boêmio.
Em dezembro de 1949 foi inaugurado o Juca's Bar, na Rua Senador Dantas: era o alívio do ar refrigerado que chegava. Lá se instalaram rapidamente assessores do Presidente Juscelino, os irmãos Condé com o Jornal de Letras, os irmãos Chaves, que atraíam os nordestinos itinerantes. Olívio Montenegro era contumaz e Gilberto Freyre costumava dar as caras.
Era uma mistura sensacional, estimulante. Ali todos os setores tinham suas embaixadas. Dou uns poucos exemplos: Rubem Braga representava a prosa, Vinícius de Moraes o verso; Stanislaw Ponte Preta o humorismo; Carlos Leão representava a arquitetura renovadora, passando a noite a desenhar mulheres nuas em bom papel que um bom mineiro comprava na papelaria ao lado; o Coronel Amílcar Dutra de Menezes representava o Estado Novo em geral e o DIP em particular, mas soube tornar-se amigo dos velhos inimigos; Antiógenes Chaves falava em nome das classes empresariais; Zé Lins em nome do Flamengo; o Comandante João Milton Prates representava com elegância a Presidência da República; às vezes aparecia Agildo Barata ou outro representante histórico; Luís Jardim, chupitando o seu uísque com o relógio em cima da mesa era o próprio secretário da UDN; a jornalista Jane Braga vinha em nome do Texas; Di Cavalcanti era o ponto alto das artes visuais, embora só admitisse, como tema de conversa, literatura e mulheres bonitas; estas, por sua, vez, estavam muito bem representadas na pessoa de Tônia Carrrero, enquanto Araci de Almeida era o Samba em pessoa.
Mas algumas brechas iam se abrindo no trânsito compacto do crepúsculo e os boêmios começaram a deixar a cidade mais cedo e a criar alma nova na Zona Sul. Em bares que iam igualmente brilhando, apagando-se e morrendo. Ou pelo menos morriam para eles. É o caso do Alcazar e do Maxim's, em Copacabana; do Jangadeiro e do Zeppelin, em Ipanema; do Clipper, no Leblon. No Alcazar (em cima morava o poeta Augusto Frederico Schmidt) ia o pessoal que não perdia o cinema das dez e muito menos o chope da meia-noite às duas da manhã; o Maxim's, com Sílvio Caldas e Araci de Almeida à frente, absorveu todos os musicais do Vilariño; no Jangadeiro aparecia Lúcio Cardoso; ao Zeppelin afluía aos domingos uma boa torrente das reuniões da casa de Aníbal Machado; no Clipper imperavam Antônio Maria (fragorosamente) e Dorival Caymmi (de mansinho).
Mas esses bares morreram ou mudaram de personalidade como do uísque para a água, o que é mais antipático que a morte. Como morreram muitos outros que eu conheci no breve espaço de um entardecer que durou vinte anos. O bar do Hotel Central, por exemplo, na Praia do Flamengo, que servia rosbife de tira-gosto e era um encanto; a Brasileira, na Cinelândia, que era mais uma confeitaria, mas onde encontrei uma tarde o vigoroso romancista católico Georges Bernanos fazendo um escarcéu de mil diabos porque não podia escrever com o escarcéu que os garçons faziam; o Segunda Frente, em Copacabana, que morreu logo depois que os sócios (um deles era o pintor Raimundo Nogueira) e seus amigos beberam a última gota do estoque antes de entrar dinheiro na caixa.
São muitos outros, mas a História dos Bares do Rio, que deveria ser escrita, precisaria ser contratada por um editor.
Por fim, ultimamente, morreu o famosíssimo Lamas, no Catete. Foi devidamente chorado na imprensa e continuará sendo lacrimejado em centenas de bares em que se espalham hoje os remanescentes dos antigos antros de perdição. Pois agora, quando desaparece também o Bon Marché (Avenida Copacabana, esquina de Siqueira Campos), os boêmios do Rio, tangidos pela demolição imobiliária, vivem pelos descaminhos da diáspora. Agüentou 73 anos de existência. Aquela esquina estava predestinada a libações: em 1892, ao ser inaugurada ali defronte a estação dos bondes houve um auto lunch, com brindes de champagne ao Marechal Floriano Peixoto... à Guarda Nacional... à Armada... ao Exército...à Intendência Municipal... e à diretoria da Companhia do Jardim Botânico. Não, houve mais um, o de honra, erguido pelo Presidente do Senado ao Marechal Floriano Peixoto e ao engrandecimento da República.
No Bon Marché Pixinguinha animou bailes de carnaval. Por ali passaram generais, almirantes, escritores, desembargadores, artistas, jogadores de futebol, milionários, políticos, delegados, sambistas e o sempiterno Gasolina, que aliás não passou e nunca fez nada e não saberá aonde ir quando for removido o último tijolo do prédio.
Viveram no Bon Marché algumas gerações de bêbados ilustres, de gente que bebia e se entendia e que continuará se entendendo. Pois uma lei rege a harmonia das esferas humanas: Cristo nos convidou a amar o próximo como a nós mesmos; mas a verdade é que só os bêbados aturam os bêbados; e só os sóbrios aturam os sóbrios.


