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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Carlos Machado













"Certo"

as coisas não dão certo
nunca deram certo
não foram feitas para dar certo

nós é que temos a ambição do alinhamento
e da simetria

e até inventamos deuses imperfeitos
construídos à imagem
e semelhança do que sonhamos

as coisas não dão certo
nós é que cerzimos o pano
obturamos o dente
remendamos a fronteira no mapa

e inauguramos
na estátua de chumbo
um simulacro de ave

queremos crer
que as coisas dão certo
as coisas agora estão dando certo
e - se deus quiser -
sempre darão

terça-feira, 1 de abril de 2014

Carlos Machado, "Garrafa de náufrago"


não procures
teus objetos perdidos
nas gavetas
do implausível

tua aliança de ouro
que caiu no mar
(ou no bar?)
o guarda-chuva esquecido
no ônibus
o bibelô de estimação
que abriu a terra e sumiu

não busques a sombra
desses fantasmas:
os ácidos do tempo
diluíram tudo

guarda apenas
em tua caderneta de campo
que um dia tiveste
um anel
um guarda-chuva ou
um bibelô de estimação

e se quiseres terminar
a história com
um toque melodramático

escreve um bilhete
e lança no Tietê
uma garrafa de náufrago


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Carlos Machado














"Ponteiros"

são três punhais
desiguais
desfolhando a
epiderme da hora

três punhais em
sincronia
no mesmo eixo
no mesmo círculo

em cada giro
uma vertigem de
tempo  uma
fatia de passado

sábado, 25 de janeiro de 2014

Carlos Machado, "Heraclitiano"


na segunda chicotada
você já é outro

- não importa o lado
do chicote

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Carlos Machado, "Trama"


E se o amor - essa trama de pronomes
oblíquos e possessivos, frases feitas
e desatinos - adormecesse sereno
à sombra dos relógios? E se então

com o tecido a salvo e o fogo contido,
fosse possível abrandar o calor
das fornalhas e o fragor das batalhas,
quanto de sossego restaria? Quanto

de azul viria cortejar o amanhecer
do sábado? Quanto fermento seria
necessário para compor o pão de cada

dúvida? Quanto de amor, ele mesmo
- esse bicho sagaz e sangrento -, ficaria
para contar a história dos desatinos?