quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
Jorge de Sena
"Soneto ainda que não"
Como quando indiscreto às coisas me insinuo
E de infinito amor lhes dou sentido
Que de mim próprio é voz e precisão
De ser um ser que sendo as reconhece,
Me vejo ambíguo e distraído e firme
Na vã presciência que, rememorada,
É como um estar por sempre ininterrupto,
Aliciando humanamente as coisas.
Mas, meu amor, por ti tudo contemplo.
Por ti penetro como em ti em tudo
E torno realidade este fortuito
Encontro permanente de que vivo.
Se noutro mundo fora que existisses,
Eu te criara neste e às minhas coisas.
sábado, 23 de setembro de 2017
Jorge de Sena
"IIIº Soneto da Visão Perpétua"
Não mais! Não mais! Que eu esqueça que te tive,
E tu me esqueças debruçado em ti!
Que tudo seja como outrora eu vi:
Uma figura ao longe recortada,
E fina e esbelta, ou suave e alongada,
Não tão distante que me não entendas,
Nem tão perto de mim que tu me vendas,
No mesmo corpo belo, o que não vive
Nesse teu rosto ou sob a tua pele:
Uma malícia esplêndida, capaz
De se entregar violenta quando a impele,
Sem mais que orgulho, a força juvenil.
Assim será que, em mim, teu corpo jaz.
E sem nos lábios o sorriso vil.
Mas como há-de teu corpo em mim ter paz?
sexta-feira, 15 de julho de 2016
Jorge de Sena, "As evidências"
Desta vergonha de existir ouvindo,
sexta-feira, 20 de maio de 2016
Jorge de Sena
"É Tarde, Muito Tarde da Noite"
É tarde, muito tarde da noite,
l'amor che muove il sole e l'altre stelle.
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Jorge de Sena, "IVº dos Sonetos da Visão Perpétua"
O que o teu corpo foi, não imaginas:
A juventude, a força, a agilidade,
A fantasia obscena, a intensidade
Com que dos gestos se constrói prazer.
Mas isso ele foi em sonhos. Hei-de ver
Teu corpo assim, ou como o possuí?
Ou hei-de vê-lo como ao longe o vi?
Ou como estatua, em lixo de ruínas?
Jacente dormirá, estendida e pura?
Mas como dormirás, se em mim não dorme
O tempo que a teu rosto ainda tritura?
Como nos mata esta velhice enorme!
Que vinha vindo entre nós dois, tão dura,
Que melhor fora te tornar informe…
Ou sombra dúbia pela noite escura.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Jorge de Sena,"O ter e o dar"
Não me peças, ó vida, o que não dás.
Se o que sempre pedi nunca me deste,
e ao que não me atrevera tu trouxeste
às minhas mãos sem jeito de o conter,
para que pedes o que não me dás?
Se nada tenho do que desejara
e tendo tanto por que não esperara,
como hei-de dar-te, sem jamais saber
que meu foi teu, que teu foi meu, que nosso
foi só de empréstimo, como hei-de ou posso,
entre o que tenho, decidir e dar?
E como ao que não tenho hei-de perder,
pelo que me darias a escolher
como se fora tempo de acabar?
terça-feira, 10 de março de 2015
Jorge de Sena, "Tentações do apocalipse"
Não é de poesia que precisa o mundo.
Aliás, nunca precisou. Foi sempre
uma excrescência escandalosa que
se lhe dissesse como é infame a vida
que não vivamos para outrem nele.
E nunca, só de ser, disse a poesia
uma outra coisa, ainda quando finge
que de sobreviver se faz a vida.
O mundo precisa de morte. Não da morte
com que assassina diariamente quantos teimam
em dizer-lhe da grandeza de estar vivo.
Nem da morte que o mata pouco a pouco,
e de que todos se livram no enterro dos outros.
Mas sim da morte que o mate como um percevejo,
uma pulga, um piolho, uma barata, um rato.
Ou que a bomba venha para estas culpas,
se foi para isso que fizemos filhos.
Há que fazer voltar à massa primitiva
esta imundície. E que, na torpitude
de existir-se, ao menos possa haver
as alegrias ingénuas de todo o recomeço.
Que os sóis desabem. Que as estrelas morram.
Que tudo recomece desde quando a luz
não fora ainda separada às trevas
do espaço sem matéria. Nem havia um espírito
flanando ocioso sobre as águas quietas,
que pudesse mentir-se olhando a criação.
(O mais seguro, porém, é não recomeçar.)
domingo, 7 de setembro de 2014
Jorge de Sena, "Ser um grande poeta"
Ser um grande poeta
morto e nacional
é atrair as moscas
como idiotas e
os idiotas como
moscas.
Ser um poeta medíocre
vivo e universal
é atrair os catedráticos
de literatura como
idiotas e moscas.
Ser um poeta apenas
nem vivo nem morto
ou nacional ou universal
é atrair apenas os poetas
como moscas idiotas.
Moralidade: não há saída.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Jorge de Sena
"Ganimedes"
Os pensamentos pastam na verdura,
balindo mansamente em torno dele,
e o rio corre sussurrante em pedras
que as sombras do arvoredo fazem negras.
Numa árvore se encosta o torso magro
que os cotovelos finca nos erguidos joelhos,
enquanto as finas ancas pousam na verdura
e de uma sombra entre elas pende uma brancura.
Delicados e firmes, os lábios se contraem
na tersa flauta em que os seus dedos dançam
ao mesmo tempo segurando-a leves.
Quase é silêncio a curta melodia.
Do fundo e vítreo azul que imobiliza
o campo e o arvoredo, um ponto negro vem
crescendo em asas, garras, bico adunco
entreaberto à frente de sanguíneos olhos.
E adeja no alto, imensa e monstruosa,
uma ave gigantesca. Os pensamentos sentem-na,
que os faz fugir, dispersos, assustados.
A melodia se suspende. O pastor olha.
Numa surpresa vê que as asas se desabam
sobre ele, escurecendo e recobrindo tudo.
Quando abre os olhos, elas voam vastas
entre ele e o azul, e as garras pela cinta o cingem.
Lá em baixo o rio brilha entre o arvoredo,
e pontos brancos, vagos, são o seu rebanho.
O bico hiante à sua boca chega
numa doçura a atormentá-lo inteiro.
E a negridão se acende pouco a pouco
de um resplendor de carne que é o do céu em volta,
e que o rodeia e rasga de um calor ardente
em que o seu corpo avança como um róseo dardo.
Mas quem avança em quem? O deus se entrega,
ou é quem viola, e como, o corpo arrebatado?
Quem é o senhor de quem? Ou sempre, ou mutuamente?
Ou cada um se humilha à sujeição do outro.
E mais: sem que o soubesse, aquele humano estava
já destinado às garras longamente curvas?
Ou por acaso foi que o deus se apaixonou?
E essa paixão durou? E que destino teve
o rebanho dispersado em susto? E a flauta
que entre a verdura mal se vê, perdida?
E o corpo do pastor, que pensa agora?
Só isto – o decisivo – não sabemos.
Na mitologia grega, Ganimedes era um príncipe de Tróia por quem Zeus se apaixonou.
O jovem cuidava do rebanho das ovelhas de seu pai quando foi avistado por Zeus que, atordoado pela beleza do jovem, transformou-se numa águia e raptou-o, possuindo-o em pleno voo.
Depois, levou-o ao Olimpo, onde passou a servir aos deuses o néctar que oferece a imortalidade.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Jorge de Sena, "Independência"
Recuso-me a aceitar o que me deram.
Recuso-me às verdades acabadas:
Recuso-me, também, às que tiverem
Pousadas no seu fim as sete espadas.
Recuso-me às espadas que não ferem
E às que ferem por não serem dadas.
Recuso-me aos eus-próprios que vierem
E às almas que já foram conquistadas.
Recuso-me a estar lúcido ou comprado
E a estar sozinho ou estar acompanhado.
Recuso-me a morrer,. Recuso a vida.
Recuso-me à inocência e ao pecado
Como a ser livre ou ser predestinado.
Recuso tudo, ó Terra dividida.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Jorge de Sena
"Gênesis"
De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
Pois nasce e morre a cada madrugada.
Nem de existir, que é vida atraiçoada,
Para sentir o tempo andar comigo;
Nem de viver; que é liberdade errada,
E foge todo o Amor quando o persigo.
Por mais justiça... - Ai quantos que eram novos
Em vão a esperaram, porque nunca a viram!
E a eternidade... Ó transfusão dos povos.
Não há verdade: o mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.
sábado, 8 de outubro de 2011
Jorge de Sena, "Homenagem a Tomás Antonio Gonzaga"
Gonzaga: podias não ter dito mais nada,
não ter escrito senão insuportáveis versos
de um árcade pedante, numa língua bífida
para o coloquial e o latim às avessas.
Mas uma vez disseste:
“eu tenho um coração maior que o mundo”.
Pouco importa em que circunstâncias o disseste:
Um coração maior que o mundo —
uma das mais raras coisas
que um poeta disse.
Talvez que a tenhas copiado
de algum velho clássico. Mas como
a tu disseste, Gonzaga! Por certo
que o teu coração era maior que o mundo:
nem pátrias nem Marílias te bastavam.
(Ainda que em Moçambique, como Rimbaud na Etiópia,
engordasses depois vendendo escravos).
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Jorge de Sena, "Quem muito viu ..."
Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;
e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi –
não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.
Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Jorge de Sena, "Aviso de porta de livraria "
Não leiam delicados este livro,
sobretudo os heróis do palavrão doméstico,
as ninfas machas, as vestais do puro,
os que andam aos pulinhos num pé só,
com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,
enquanto com a terceira vão tapando a boca
dos que andam com dois pés sem medo das palavras.
E quem de amor não sabe fuja dele:
qualquer amor desde o da carne àquele
que só de si se move, não movido
de prémio vil, mas alto e quase eterno.
De amor e de poesia e de ter pátria
aqui se trata:que a ralé não passe
este limiar sagrado e não se atreva
a encher de ratos este espaço livre
onde se morre em dignidade humana
a dor de haver nascido em Portugal
sem mais remédio que trazê-lo n'alma.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Jorge de Sena
"Tu és a terra ..."
Tu és a terra em que pouso.
Macia, suave, tenra, e dura o quanto baste
a que teus braços como tuas pernas
tenham de amor a força que me abraça.
És também pedra qual a terra às vezes
contra que nas arestas me lacero e firo,
mas de musgo coberta refrescando
as próprias chagas de existir contigo.
E sombra de árvores, e flores e frutos,
rendidos a meu gosto e meu sabor.
E que uma água cristalina e murmurante
que me segreda só de amor no mundo.
És a terra em que pouso. Não paisagem,
não Madre.Terra nem raptada ninfa
de bosques e montanhas.Terra humana
em que me pouso inteiro e para sempre.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Jorge de Sena, "Conheço o Sal"
Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.
Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.
Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.
Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.
Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.
A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Jorge de Sena, "Os paraísos artificiais".
Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.
Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar
                                                                                              [as árvores.
O cântico das aves – não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.
Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.
A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Jorge de Sena
"Camões Dirige-se a seus Contemporâneos"
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.





