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sábado, 26 de maio de 2018
Donizete Galvão, "O poço"
I
O poço não é um buraco com água a céu aberto,
mas cristal líquido, cravado no tijuco cinza.
Cada dia o poço é um e está mudado em outro:
à custa de tanto uso, cada manhã mais novo.
Sempre outra é a dança dos círculos até a borda,
que pouca pedra basta para infinitos movimentos.
A primeira água do poço não serve para o pote,
pois sempre há cisco, insetos ou pele de ferrugem.
Entretanto, o fundo do poço tem belezas de parto:
a mina lança brotos de água e insufla areia fina.
Se à noite chove, o poço turva-se como quem morre.
Não amanhece espelho e sim buraco com água suja.
II
Beber água do poço, direto, sem caneca, exige tento,
pois a concha da mão não basta para quem tem sede.
Um modo elegante de para o poço fazer reverência
é tirar o chapéu e mergulhá-lo, agora mudado em copo.
O suor pode botar gosto de sal na água doce do chapéu,
mas o que refresca a garganta, também a cabeça esfria.
Outro modo, é quando há por perto folhas de inhame.
A água desliza no verde com sua película de prata.
E as gotas, na corda bamba, quais aquáticas bailarinas,
bailam tão puras, que a gente sente pena de bebê-las.
Mais um modo, é como o papa deitar-se de corpo inteiro:
a boca beija a água e, do fundo, outro olho nos enxerga.
Enquanto se engole a água, as costelas roçam o chão.
Não se sabe se o pulsar é dela, terra, ou dele, coração.
quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
Donizete Galvão, "Travo"
Para Ronald Polito
O sol bate nas encostas
e expõe o prata das pedras.
O gavião dá seu grito de triunfo
no último voo em direção à mata.
A flor de cacto abre suas pétalas.
Exala um odor de carniça
que embriaga as moscas
e as atrai para suas tramas de morte.
Os amantes debruçam-se
sobre o muro da varanda
e choram pelo frescor da pele
que lhes foi arrebatado.
No consolo do beijo,
o tempo pôs seu tanino.
terça-feira, 16 de maio de 2017
Donizete Galvão, "Dia de sombra"
O domingo expõe
Seus andaimes de sombras,
Zonas de exasperada ferrugem,
Falas e imagens deterioradas.
Unhas imploram
Para serem roídas.
Há um facho de luz
Cruzando o plexo.
Há a irrupção do desejo,
Aragem de um espasmo,
Antes que as ruínas das horas
Girem seus dentes
E triturem os ânimos.
Imobilidade do corpo
Em seu centro vazio.
sexta-feira, 28 de abril de 2017
Donizete Galvão, "Ostra"
A ostra
e a aspereza
de sua crosta.
O acúmulo
de craca
nas rugas
da carapaça.
O cheiro podre
de mangue
entranha-se nas digitais
e no tecido das narinas.
Lembram ao homem
seu invólucro de lama.
A ostra
é metade pedra,
calcárias escaras
brancas que se abrem
aos golpes da faca.
Por fora, objeto
coberto por perebas.
Por dentro, fêmea
líquida em leito
de nácar.
Trêmula rosa,
íntima e recém-nascida,
envolta em gosma.
A ostra
se fecha
e na sua
caixa tosca
purifica-se,
protege-se
do lodo.
Oculta,
eleva
sua carne
ao limite
da sólida
pérola.
terça-feira, 4 de outubro de 2016
Donizete Galvão
"Fora de linha"
para Antônio Nóbrega
Os homens obsoletos foram dispensados
como candidatos a recrutas, por excesso de contingente.
Os homens obsoletos vagam qual zumbis
em praças, parques e estações de metrô.
Os homens obsoletos alimentam-se de jornais
e engordam nos sofás diante da televisão.
Os homens obsoletos cumpriram as exigências:
faculdade, inglês e cursos de pós-graduação.
Os homens obsoletos mantiveram-se jovens
com dietas, ginástica e oficinas de auto-estima.
Os homens obsoletos tiveram bloqueados
seus crachás, suas senhas e cartões de crédito.
Os pais não querem os homens obsoletos.
— Ah, quanto dinheiro investido em sua educação!
Os amantes não querem amar os homens obsoletos
porque estes têm a pele com gosto de ferrugem.
O mercado não absorve os homens obsoletos,
pois não existe demanda para a exportação.
Não há como reciclá-los para que se encaixem
nos mutáveis programas de reengenharia.
Terapeutas recomendam aos homens obsoletos
que ocupem o tempo ocioso nos museus e galerias,
nas paróquias ou mesmo em clubes de filatelia.
Os homens obsoletos caíram em desuso
como os chapéus, as galochas e o jogo de bilboquê.
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Donizete Galvão, "Cenho"
A certa altura, íntima alquimia
alterou-lhe a textura da pele da barriga.
A trama das células perdeu o tônus
de carne de pêssego e sopro de brisa.
O fundo vale que lhe descia das costelas
já não exibia o frescor da parábola,
nem a tessitura de cetim da rosácea
que se abria sob o apalpo dos dedos.
Não disse adeus àquela que partia,
nem vi quando chegou esta outra
que cria enigmas no canto da boca.
Foi então que, entre os olhos fundos,
surgiram vincos de um cenho duro,
cuja natureza feriu de morte os dois.
domingo, 10 de janeiro de 2016
Donizete Galvão, "Lâmpada"
para André Luiz Pinto
De tanto ser vista,
gasta-se a beleza
das coisas que em si
guardam a perfeição.
Quando a retina
esquece o vício,
sai da embalagem
a escultura lisa.
Bulbo leitoso,
com vidro soprado,
com frágeis hastes
em florescências.
Leve máquina
que concentra
a capacidade
de engolir sombras.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Donizete Galvão, "Nem o corpo"
No seu bangalô,
sob o viaduto,
uma estrela
nunca salpicou o chão.
As balas dos revolveres
furaram o zinco.
Só restaram o abandono,
em sua nudez,
e umas roupas
penduradas no varal.
Ali permanecem,
tesas e encardidas,
em meio à fumaça
dos escapamentos.
Não,
ninguém as reivindicou
como herança.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
Donizete Galvão, "Urubu"
alça voo o urubu
paira
acima do improvável habitat
dos prédios de escritórios
das oficinas mecânicas e madeireiras
projeta sua sombra sobre os telhados
aguarda-se sua exibição
como uma cerimônia
a mímica de um oráculo
mestria nas parábolas
arrojo nos mergulhos
solene indiferença
ao fluxo da vida lá embaixo
alça voo urubu
abre uma fenda
na couraça da cidade
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
Donizete Galvão, "Arte poética"
A língua da vaca
lambe com gosto
o sal do cocho
e se não há mais sal,
a memória do sal
a madeira, o cocho,
até que tudo fique
polido por sua lixa.
A língua da vaca
recolhe com agrado
o restolho mijado
de rato do fundo do paiol
e mói, remói e tritura
o milho e a palha dura,
até que flores de espuma
brotem no canto da boca,
com suave perfume de leite.
A língua da vaca
lambe a cria trêmula,
num banho batismal,
e engole o mosto,
a gosma amniótica,
e a lamberá ainda,
quando quase novilha
exibir a filha
pústulas no lombo.
terça-feira, 26 de maio de 2015
Donizete Galvão, "A derrocada"
Para Carlos Loria
Estás sob
a sombra
de um anjo triste
que traz as asas
esfarrapadas.
Rastejante,
ombros em queda,
já nem tem
plano do voo
ou de partida.
Coberto de terra e cinza,
está exausto de te buscar
nos becos e poços
em que te tens encalacrado.
Exaspera-o a tarefa insípida
de te acompanhar
em tua derrocada anônima,
sem grandezas
que possam ser anunciadas.
segunda-feira, 2 de março de 2015
Donizete Galvão, "Depois da queda"
Memória do paraíso
não tenho não.
Lembro-me da dor.
Da vergonha.
Do desgosto.
Da gota de suor
pingando do rosto.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
Donizete Galvão
"Tapera"
Deixe que os morcegos
ocupem o forro
e as caixas de marimbondo
tomem conta dos seus cantos.
Deixe que a macega
suba pela escada até o alpendre
e prolifere nas rachaduras do reboco.
Deixe que o musgo
cubra o tampo da cisterna
e que os escorpiões
armazenem veneno sob os tijolos.
Nada dói mais do que a lembrança da casa,
encravada como um prego
que lateja na memória.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Donizete Galvão, "Caros amigos"
Não ter amigos.
Ansiar por tê-los.
E dispensá-los.
Recriá-los, outros,
na imaginação.
Estar com todos
e com nenhum.
Beijá-los agora,
adeus depois,
amá-los sempre,
ateu,
que a solidão
não dura mais
que uma vida.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Donizete Galvão, "Diálogo"
-
Imagine o toque da navalha
trilhas abertas na pele da cara.
-
pense no corte da gilete
rompendo o tecido das veias
rastro de sangue
na areia
mar azul tinto de vermelho
-
e a possibilidade do salto
do edifício da Sears
gosto de abismo na boca
no voo reto para o asfalto?
-
e por que não a roleta russa
a bala exata zumbindo no ouvido?
-
e por aí foram
até que se quedaram
mortos
de tédio
domingo, 28 de setembro de 2014
Donizete Galvão, "Lição de casa"
I
Primeiro ano do ginásio.
Leitura: Mudanças.
Autor: Paulo Mendes Campos.
Comentar a seguinte frase:
Viver é colecionar ruínas.
II
Oh, sim
a cidade está lá.
Toda manhã, o sol
passa entre as folhas da piteira
e ilumina a sala de aula.
Continuam lá
as ruas de paralelepípedos,
os botequins de cachaça,
as lojas com seus algodões e chitas.
Para quem partiu
a cidade é só um estilhaço.
E não há passagem de volta
que cole esse cenário em ruínas.
III
Vinte anos depois.
Lição aprendida.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Donizete Galvão, "Solitude"
Juntos, em solitude.
Cada qual com sua chaga.
Cada qual com sua cruz.
Dois corpos antes tão próximos,
separados pela geografia
que a mágoa desenha.
Entre os braços,
interpõe-se
desertos, salinas e dunas.
O amor morreu?
Não. Condensou-se.
Soterrou-se em veios
de duro e negro minério.
Duas árvores cujas raízes
trançaram-se rumo ao fundo.
Que frutos falhos e ásperos
nessas mãos antes tão íntimas,
que, mesmo durante o sono,
permanecem bem fechadas.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Donizete Galvão, "Resposta"
Na infância, o que se grava na carne permanece.
O sentimento de humilhação por se sentir
torto
fraco
desastrado
quatro-olhos.
Aprende-se a viver inacabado,
a esconder, constrangido, o corpo
nas penumbras.
Como querer que o homem velho,
com sua parca energia já gasta,
mude o registro consolidado?
Como querer que ande horas sob o sol
e faça exercícios vigorosos
como se fora um ginasta?
quarta-feira, 26 de março de 2014
Donizete Galvão, "Mundo mudo"
salta, mundo,
desse caroço
de pedra
em que estás aprisionado
toda rua termina
em muro
toda palavra representa
uma falha
salta, mundo,
desse caroço
de pedra
vence
as camadas de aluvião
para que aflore
um grão
um broto
um grito
para quem está exausto
de auscultar teu corpo
ferido
quarta-feira, 19 de março de 2014
Donizete Galvão, "Oração natural"
Fique atento
ao ritmo,
aos movimentos
do peixe no anzol.
Fique atento
às falas
das pessoas
que só dizem
o necessário.
Fique atento
aos sulcos
de sal
de sua face.
Fique atento
aos frutos tardios
que pendem
da memória.
Fique atento
às raízes
que se trançam
em seu coração.
A atenção:
forma natural
de oração.
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