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quinta-feira, 23 de março de 2017
Marly de Oliveira, "1º poema da série 'Suave Pantera'"
Como qualquer animal,
olha as grades flutuantes.
Eis que as grades são fixas:
Ela, sim, é andante.
Sob a pele, contida
— em silêncio e lisura —
a força do seu mal,
e a doçura, a doçura,
que escorre pelas pernas
e as pernas habitua
a esse modo de andar,
de ser sua, ser sua,
no perfeito equilíbrio
de sua vida aberta:
una e atenta a si mesma,
suavíssima pantera.
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Marly de Oliveira, "Um súbito silêncio enfreia a mágica..."
À Mônica (aos três anos)
Um súbito silêncio enfreia a mágica
aventura de estar entre os objetos
que apenas reconhece. Ela adormece
a meus pés como um gato, um bicho quieto,
com doçura felina, suave e intensa,
recolhida em si mesma contra o frio
da noite. Ela me é, me dorme no seu sono,
desdobrada de mim, além de mim,
que a recebi sem entender, atenta
ao milagre de vida de que fui
receptáculo apenas, serva mansa,
e em tudo obediente à natureza.
Dorme a meus pés, e meu amor reinventa-se
vendo-a tão calma assim, tão sem defesa.
terça-feira, 30 de agosto de 2016
Marly de Oliveira, "Epigrama"
Bom é ser árvore, vento,
sua grandeza inconsciente;
e não pensar, não temer,
ser, apenas, altamente.
Permanecer uno e sempre
só e alheio à própria sorte,
com o mesmo rosto tranquilo
diante da vida e da morte.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Marly de Oliveira, "Retrato"
Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece
essa é a face necessária.
Escuto quando me falam,
de alma longe e rosto liso,
e os lábios vão sustentando
indiferente sorriso.
A força heróica do sonho
me empurra a distantes mares,
e estou sempre navegando
por caminhos singulares.
Inquiri o mundo, as nuvens
o que existe e não existe,
mas, por detrás das mudanças,
permaneço a mesma, e triste.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Marly de Oliveira
"Na minha solidão ..."
Na minha solidão sem esperança,
não grito, não proclamo,
nem alcanço entender por que motivo
sempre perco o que amo.
Segue a tristeza seu infecundo curso,
enquanto cresce a grama
discreta, no jardim.
Tudo tão deserto e nu,
onde o sol brilha, e em mim,
que ponho toda a força na minha recusa:
só sou livre assim.
terça-feira, 24 de abril de 2012
Marly de Oliveira, "Natureza morta"
A mesa, a tolha branca,
e sobre a mesa, plácido,
como em puro repouso,
um faisão dourado.
De que aljava, de que arco,
sobre o mar, que tardes,
que navegando céus
azuis de aves e barcos,
de que mãos, de que cega
vontade de ferir
terá partido a seta,
direto ao voo, ao peito,
às plumas frias e altas?
Que cega pontaria
te tombou no horizonte,
como um feixe de luzes
tuas penas brilhantes,
tua mínima vida
colorida e deserta?
Vejo teu corpo, o claro
movimento retido
na pousada asa aberta,
e penso, em ti,
urdo os fios da trama,
e temo a minha seta.
domingo, 1 de abril de 2012
Marly de Oliveira
"Vertigem"
1. Meu nome é o nome que me deram
numa pia de batismo,
cuja origem desconheço.
Mas há um nome secreto
que cada um escolhe quando chega a tempo
de repelir o acessório:
e sou apenas um eu, um tu.
Despojada de tudo o que me acrescentaram
- sem a minha aquiescência -
retorno ao centro de mim mesma,
ao núcleo.
2. Às vezes certa doçura
é confundida com fraqueza
(temor ou submissão).
Ninguém está preparado
para o amor real, fraterno,
sem a vertigem do egoísmo
ou da paixão.
3. Se de ânimo cativo se pudesse
de forma inteira e livre então provar
o excesso, a que me esquivo por costume
e disciplina de alma, ah, se chegava
então ao êxtase, em virtude
de, enfim, acreditar na entrega
sem temor, franqueando
à invasão do inimigo
o muro erguido.
4. Pois recapitulemos:
o tempo flui, a vida passa,
e se o sentido me escapa
de estar aqui querendo ainda
entender o motivo de meu estar aqui,
é que ando dividida
entre ser e viver numa insensata
ânsia que me perde
os anos mais felizes.
(Relembrei Leopardi.)
5. Sempre desejei estar onde estava,
sempre quis ter o que tinha.
Inútil fingir que vivia
à cata do que faltava,
que, na verdade, é o que falta
sempre: o entendimento do mundo
e este vazio, esta ausência disfarçada
numa pedra, no cedro, na esmeralda.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Marly de Oliveira, Excerto do poema "Explicação de Narciso"
Num tempo alheio ao tempo, a sós comigo
mais uma vez diante de mim, me escuto:
o meu rebanho ficou longe, longe,
e sou pastor apenas do meu luto.
Mana de mim como um silêncio o amor,
e uma angústia, uma estrela em que me escudo
extremamente para não morrer,
de meus próprios recursos inseguro.
Que saudade de mim me vem agora
quando revejo a fonte com seu brilho
onde meu rosto urgia um tempo-outrora!
Permanência do amor ou desafio
ao tempo, no âmago de mim se vota
um sol eterno e cada vez mais frio.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Marly de Oliveira, "Morte"
E lutarás comigo,
fresca ainda de vento,
presa às luzes do dia
pelos cabelos últimos.
Quebrantarás meus olhos,
sei.
Apagarás as mãos
para a ternura,
para o amor,
também sei.
E alçarás a distância
entre mim e quem amo,
imperdoável.
E me terás por fim.
mas sem entrega, dura.
Mais que difícil,
fria.
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