quarta-feira, 6 de junho de 2018
Manuel Bandeira
"Quando perderes o gosto humilde da tristeza..."
Quando perderes o gosto humilde da tristeza,
Quando, nas horas melancólicas do dia,
Não ouvires mais os lábios da sombra
Murmurarem ao teu ouvido
As palavras de voluptuosa beleza
Ou de casta sabedoria;
Quando a tua tristeza não for mais que amargura,
Quando perderes todo estímulo e toda crença,
- A fé no bem e na virtude,
A confiança nos teus amigos e na tua amante,
Quando o próprio dia se te mudar em noite escura
De desconsolação e malquerença;
Quando, na agonia de tudo o que passa
Ante os olhos imóveis do infinito,
Na dor de ver murcharem as rosas,
E como as rosas tudo o que é belo e frágil,
Não sentires em teu ânimo aflito
Crescer a ânsia de vida como uma divina graça:
Quando tiveres inveja, quando o ciúme
Crestar os últimos lírios de tua alma desvirginada;
Quando em teus olhos áridos
Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas
Em que se amorteceu o pecaminoso lume
De tua inquieta mocidade:
Então sorri pela última vez, tristemente,
A tudo que outrora
Amaste. Sorri tristemente...
Sorri mansamente... em um sorriso pálido... pálido
Como o beijo religioso que puseste
Na fronte morta de tua mãe... Sobre a sua fronte morte...
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Francis Jammes, "Meu humilde amigo"
Meu cão fiel, humilde amigo, sucumbiste
Sob a mesa, fugindo à morte como à vespa
Tu fugias em vida. Ali tua cabeça
Voltaste para mim no passo breve e triste.
Companheiro banal do homem, tu que em teus dias
No que falta ao teu dono achas o que te baste,
Ó ser bendito que a jornada acompanhaste
Do arcanjo Rafael e do jovem Tobias...
Tal como um santo ama ao seu Deus, num grande exemplo
Amaste-me também, ó servo verdadeiro!
O mistério de tua obscura inteligência
Vive num paraíso inocente e fagueiro.
Ah se de vós, meu Deus, a graça eu alcançasse
De face a face vos olhar na eternidade,
Fazei que um pobre cão contemple face a face
Quem para ele foi um deus na humanidade.
Tradução de Manuel Bandeira
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
Manuel Bandeira
"Inscrição"
Aqui, sob esta pedra, onde o orvalho roreja,
Repousa, embalsamado em óleos vegetais,
O alvo corpo de quem, como uma ave que adeja,
Dançava descuidosa, e hoje não dança mais...
Quem não a viu é bem provável que não veja
Outro conjunto igual de partes naturais.
Os véus tinham-lhe ciúme. Outras, tinham-lhe inveja.
E ao fitá-la os varões tinham pasmos sensuais.
A morte a surpreendeu um dia que sonhava.
Ao pôr do sol, desceu entre sombras fiéis
À terra, sobre a qual tão de leve pesava...
Eram as suas mãos mais lindas sem anéis...
Tinha os olhos azuis... Era loura e dançava...
Seu destino foi curto e bom...
— Não a choreis.
terça-feira, 2 de agosto de 2016
Manuel Bandeira
"Consoada"
Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou coroável).
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
- Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Manuel Bandeira
"Poema de uma Quarta-feira de Cinzas"
Entre a turba grosseira e fútil
domingo, 28 de dezembro de 2014
Manuel Bandeira, "Poema de Finados"
Amanhã que é dia dos mortos.
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto aqui.
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Manuel Bandeira, "Na rua do sabão"
"Na Rua do Sabão"
Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
O que custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de seda, cortou-o com amor,
[compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.
Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de cor.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!
Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das
[mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
para longe...
serenamente...
Como se o enchesse o soprinho tísico do José.
Cai cai balão!
A molecada salteou-o com atiradeiras
assobios
apupos
pedradas.
Cai cai balão!
Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas
[municipais.
Ele foi subindo...
muito serenamente...
para muito longe...
Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar - nas águas puras do mar alto.
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Paul Verlaine
"As mãos que foram minhas..."
As mãos que foram minhas, mãos
Tão bonitas, mãos tão pequenas,
Após tanto equívoco e penas,
Tantos episódios pagãos,
Após os exílios medonhos,
Ódios, murmurações, torpezas,
Senhoris mais do que as princesas
As caras mãos abrem-me os sonhos.
Mãos no meu sono e na minh'alma,
Pudera eu, Ó mãos celestes,
Adivinhar o que dissestes
A est'alma sem pouso nem calma!
Mente-me acaso a visão casta
De espiritual afinidade,
De maternal cumplicidade
E de afeição estreita e vasta?
Caro remorso, dor tão boa,
Sonhos benditos, mãos amadas,
Oh essas mãos, mãos consagradas,
Fazei o gesto que perdoa!
Tradução de Manuel Bandeira.
domingo, 24 de agosto de 2014
Archibald Mcleish, "Chartres"
Pedras, o que me espanta
Não é que tenhais resistido
Por tanto tempo a tanto vento e a neve tanta:
Pois não vos tinham construído
Para arrostar nesta colina
O inverno e o vento desabrido?
Meu espanto é que suportais,
Sem vos gastardes, nossos olhos,
Nossos olhos mortais.
O poema refere-se à Catedral de Nossa Senhora de Chartres, na França, cujo prédio (com a forma atual) existe desde o século XIII.
Tradução de Manuel Bandeira.
sábado, 16 de agosto de 2014
Gabriela Mistral, "O pensador de Rodin"
Apoiando na mão rugosa o queijo fino,
O pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne de cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.
E tremeu de amor, toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O "haveremos de morrer" passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.
E na angústia seus músculos se fendem sofredores,
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte
Que o reclama nos bronzes. Não há árvore torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.
Tradução de Manuel Bandeira
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Manuel Bandeira, "Pardais novos"
Um dia o meu telefone, instalado à cabeceira de minha cama, retiniu violentamente, às sete da manhã. Estremunhado tomei do receptor e ouvi do outro lado uma voz que dizia:
Mestre, sou um pardal novo. Posso, ler-lhe uns versos par que o senhor me dê a sua opinião?
Ponderei com mau humor ao pardal que aquilo não eram horas para consultas de tal natureza, que ele me telefonasse mais tarde. O pardal não telefonou de novo: veio às nove e meia ao meu apartamento.
Mal o vi, percebi que não se tratava de pardal novo. Ele mesmo como que concordou que o não era, pois perguntando-lhe eu a idade, hesitou contrafeito para responder que tinha trinta e cinco anos. Ainda por cima era um pardal velho!
Desde esse dia passei a chamar de pardais novos os rapazes que me procuram para mostrar-me os seus primeiros ensaios de voo no céu da poesia. Dizem eles que desejam saber se têm realmente queda para o ofício, se vale a pena persistir, etc. Fico sempre embaraçado para dar qualquer conselho. A menos que se seja um Rimbaud ou, mais modestamente, um Castro Alves, que poesia se pode fazer antes dos vinte anos? Como Mallarmé afirmou certa vez que todo verso é um esforço para o estilo, acabo aconselhando ao pardal que vá fazendo os seus versinhos, sem se preocupar com a opinião de ninguém, inclusive a minha.
A semana passada recebi carta, não de um pardal, mas de uma pardoca. De urna pardoquinha. Com dezesseis anos, que beleza! Mandava-me versos não só em português, mas em francês também e inglês. Havia qualquer coisa naqueles balbucios. O francês estava bem erradinho, mas o inglês não, e até saiu bonitinho. Respondi-lhe assim:
Dos poemas que você me mandou o melhor está no próprio texto de sua carta e é isto:
Tenho dezesseis anos
Estou cursando o 1.° cientifico
E fico eufórica sempre que escrevo algo.
Se você se sente eufórica quando escreve alguma coisa, vá continuando a escrever, pelo só prazer de escrever, que já não é pouco.
Dezesseis anos! Que idade risonha e bela, não, leitores?
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Manuel Bandeira
"Minha grande ternura"
Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos,
Pelas pequeninas aranhas.
Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de ser;
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.
Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.
Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.
Minha grande ternura
pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite
De um túmulo.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Manuel Bandeira, "O martelo"
As rodas rangem na curva dos trilhos
O meu quarto resume o passado em todas as casas que habitei
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de pomba.
Sei que amanhã quando acordar
Ouvirei o martelo do ferreiro
Bater corajoso o seu cântico de certezas.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Manuel Bandeira, "Soneto inglês nº 2"
Aceitar o castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
Morrer sem uma lágrima, que a vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
terça-feira, 6 de novembro de 2012
Manuel Bandeira
"Poema do mais triste maio"
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo*.
Acabou-se a idade das rosas!
Das rosas, dos lírios, dos nardos
E outras espécies olorosas:
É chegado o tempo dos cardos.
E passada a sazão das rosas,
Tudo é vil, tudo é sáfio**, árduo.
Nas longas noites dolorosas
Pungem fundas as puas do cardo.
As saudades não me consolam.
Antes ferem-me como dardos.
As companhias me desolam.
E os versos que me vêm, vêm tardos.
Meus amigos, meus inimigos,
Saibam todos que o velho bardo
Está agora, entre mil perigos,
Comendo, em vez de rosas, cardo.
* Cardo - Nome comum a várias plantas com folhas e hastes espinhosas.
** Sáfio - Grosseiro, rude, ordinário, vil.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Manuel Bandeira, "Visita"
Fui procurar-te à última morada,
Não te encontrei. Apenas encontrei
Lousas brancas e pássaros cantando...
Teu espírito, longe, onde não sei,
Da obra na eternidade assegurada,
Sorri aos amigos que te estão chorando.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Manuel Bandeira, "Maçã"
Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda
[o cordão placentário
És vermelha como o amor divino
Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente
E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Manuel Bandeira, "LIBERTINAGEM"
"Libertinagem contém os poemas que escrevi de 1924 a 1930 - anos de maior força e calor do movimento modernista. Não admira, pois, que seja entre os meus livros o que está mais dentro da técnica e da estética do modernismo. Isso todo o mundo pode ver. O que no entanto poucos verão é que muita coisa que ali parece modernismo, não era senão o espírito do grupo alegre de meus companheiros diários daquele tempo: Jaime Ovalle, Dante Milano, Osvaldo Costa, Geraldo Barrozo do Amaral. Senão tivesse convivido com eles, decerto não teria escrito, apesar de todo o modernismo, versos como os de "Mangue", "Na Boca", "Macumba de Pai Zusé", "Noturno da Rua da Lapa" etc.(este último é aproveitação de um caso que se passou com Ovalle em sua casa da rua Conde de Laje).
Alguns dos poemas de Libertinagem, "Mangue", por exemplo, foram publicadeos no "Mês Modernista", seção que "A Noite" manteve em sua primeira página não me lembro em que mês do ano de 1915. A coisa tinha sido arranjada por Oswald de Andrade, que fizera relações com Geraldo Rocha, proprietário do jornal, e o induzira a essa espécie de "demonstração modernista". Mas quem dirigiu a iniciativa foi Mário de Andrade, e a ele coube indicar os colaboradres: Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Milliet, Prudente de Moraes, neto, Martins de Almeida e eu. A princípio não quis aceitar o convite, porque me pareceu que a gente d'A Noite, cuja diretor na ocasião era Viriato Correa, ia apresentar-nos um pouco como o Sarrasani exibia no circo os seus elefantes ensinados. Mário respondeu-me: "Vocês tão fazendo chiquê com A Noite. Aceitem isso logo ! Liberdade de escrever o que quiser. Eu pretendo mandar pedacinhos vivos porém sem importância, é lógico. Importância de meia-coluna. Acho que vocês devem aceitar". Afinal concordei em colaborar e a respeito dos elefantes Mário me escreveu: "Se você me dá os elefantes do Circo Sarrasani para mim, faço uma das meias colunas com isso. É um bom jeito de mostrar que a gente não cai na esparrela e em última análise nada mais somos que elefantes ensinados, nós artistas. Deixe de ser historiente que é isso mesmo!" Não levei muito a sério "O Mês Modernista": o que fiz foi me divertir ganhando cinquenta mil réis por semana, o primeiro dinheiro que me rendeu a literatura. A uma das minhas quatro ou cinco crônicas chamei "Bife à moda da casa", que era o nome do nosso (nosso: meu, do Ovalle, do Dante Milano, do Oswaldo Costa, da Germaninha Bittencourt) prato de resistência no Restaurante Reis. No prato do restaurante entrava de tudo: era uma mixórdia, que entupia. Assim a minha colaboração, onde havia um cocainômano que rezava: "O pó nosso de cada dia nos dai hoje ...", e de pois da "Lenda Brasileira" e da "Notícia tirada de um jornal", este "Dialeto brasileiro", escrito especialmente para irritar certos puristas:"Não há nada mais gostoso do que 'mim' sujeito de verbo no infinitivo: 'Pra mim brincar'". As cariocas que não sabem gramática falam assim. Todos os brasileiros deviam de querer falar como as cariocas que não sabem gramática. - O erro mais feio de brasileiro é a construção dos pronomes "me", "te", "lhe", "nós", "vós", com o pronome "o", "a", "os", "as": "Ele já mo deu". - As palavras mais feias da língua portuguesa são "quiçá", "alhures" e "amiúde".
Em outra semana fiz "Duas traduções para moderno acompanhadas de comentários". "Traduzi" para o moderno o famoso soneto de Bocage que começa pelo verso "Se é doce no recente, ameno estio".
Eram assim os quartetos:
Doçura de, no estio recente,
Ver a manhã toucar-se de flores,
E o rio,
mole
queixoso
Deslizar, lambendo areias e verduras;
Douçura de ouvir as aves
Em desafio de amores
cantos
risadas
Na ramagem do pomar sombrio.
Como se vê, eu estava mas era assinalando maliciosamente certas maneiras de dizer, certas disposições tipográficas que já se tinham tornado clichês modernistas.
A outra "tradução" era do "Adeus de Tereza". Num comentário, de humour muito sofisticado, dava o meu poema "Teresa" como tradução "tão afastada do original", que a espíritos menos avisados pareceria criação".
Na semana seguinte voltei "traduzindo" estes versos do autor da Moreninha:
Mulher, irmã, escuta-me: não ames.
Quando a teus pés um homem terno e curvo
Jurar amor, chorar pranto de sangue: ele te engana!
As lágrimas são gala da mentira
E o juramento manto da perfídia.
Bem, dessa vez eu queria mesmo brincar falando cafageste, e a coisa foi apresentada como "tradução caçanje":
Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele se ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA.
Piada ... Piadas como mais tarde as faria Murilo Mendes a propósito do Rio Paraibuna e da Batalha de Itararé. Por essas e outras brincadeiras estamos agora pagando caro, porque o "espírito de piada", o "poema-piada" são tidos hoje por característica precípua do modernismo, como se toda obra de Murilo, de Mário de Andrade, de Carlos Drummonmd de Andrade e outros, eu inclusive, não passasse de um chorrilho de piadas. Houve um poeta na geração de 22 que se exprimiu quase exclusivamente pela piada: Oswald de Andrade. Mas isso nele não era "modernismo": era, e continua sendo, o seu modo peculiar de expressão. O caso do grande poeta colombiano recentemente falecido: Luis Carlos Lopes. Mas quem negará a carga de poesia que há nas piadas de Pau Brasil ? E porque essa condenação da piada, como se a vida só fosse feita de momentos graves ou se só nestes houvesse teor poético ?
Em Libertinagem inclui dois poemas escritos em francês: "Chambre vide" e "Bonheur lyrique". Ao tempo em que os compus e em anos anteriores fiz outros que nunca publiquei; posteriormente mais um intitulado "Chanson des petits esclaves", incluído na Estrela da Manhã. Esses versos me saíram em francês sem que eu saiba explicar porque. Certa vez em que eu estava preparando uma edição das Poesias Completas, quis acabar com isso de versos em francês, que poderia parecer pretensão da minha parte, e esforcei-me por traduzi-los. Pois fracassei completamente, eu que tenho traduzido tantos versos alheios. Outra experiência minha: mandaram-me um dia uma tradução para o francês de poema meu, pedindo-me não só que sobre ela desse a minha opinião, como que emendasse, mudasse à vontade. Pus mão à obra e vi que para ser fiel ao meu sentimento teria que suprimir certas coisas e acrescentar outras. No fim não deu também nada que prestasse. Tudo isso me confirmou a idéia de que poesia é mesmo intraduzível. No entanto, lá estavam em Libertinagem três sonetos de Elizabeth Barrett Browning, aos quais depois acrescentei um quarto. O português dessas traduções contrasta singularmente com o dos poemas originais. É que na ginástica de tradução fui aprendendo que para traduzir poesia não se pode abrir mão do tesouro que são a sintaxe e o vocabulário dos clássicos portugueses. Especialmente quando se trata de tradução do inglês ou alemão. A sintaxe dos clássicos, mais matizada do que a moderna, sobretudo a moderna do Brasil.
Não passarei além de Libertinagem sem tocar ainda em três dos seus poemas:"Profundamente", "Vou-me embora p'ra Pasárgada" e "Oração do saco de Mangaratiba".
No primeiro não falo da Rua da União, mas ela está ali tão presente quanto na "Evocação do Recife":
Meu avô
Minha avó
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa.
Na "Evocação" já havia mencionado o nome de Totônio Rodrigues, "que era muito velho e botava o pince-nez na ponta do nariz". Esse Totônio era sobrinho de meu avô e me parecia muitíssimo mais velho do que ele. Não sei se foi isso ou a maneira de usar o pince-nez, ou o jeito de falar que o marcou tão profundamente na minha memória. Tomásia era a velha preta cozinheira da casa da Rua União. Tinha sido escrava do meu avô e fora por ele alforriada. Naquela cozinha, com seu vasto fogão de tijolo, o seu enorme pilão, e que pelas festas de Santo Antônio, São João e São Pedro resplandecia quentemente com as grandes tachas de cobre areadas até o vermelho, Tomásia, pequena, franzina e de poucas falas, mandava sem contraste e me inspirava um sagrado respeito com as suas duas únicas respostas a todas as minhas perguntas: "hum" e "hum-hum", que eu interpretava por "sim" e "não". Rosa era a mulata clara e quase bonita que nos servia de ama-seca. Nela minha mãe descansava, porque a sabia de toda confiança. Rosa fazia-se obedecer sem estardalhaços e sentimentalidades. Quando estávamos à noitinha no mais aceso das rodas de brinquedo, era hora de dormir, vinha ela e dizia peremptória: "Leite e cama!" E íamos como carneirinhos para o leite e a cama. Mas havia, antes do sono as histórias que Rosa sabia contar tão bem...
"Vou-me embora p'ra Pasárgada" foi o poema de mais longa gestação em toda a minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. Estava certo de ter sido em Xenofonte, mas já vasculhei duas ou três vezes a Ciropédia e não encontrei a passagem. O douto Frei Damião Berge informou-me que Estrabão e Arrimo, autores que nunca li, falam na famosa cidade fundada por Ciro, o antigo, no local preciso que vencera a Astíages. Ficava a sueste de Persépolis. Esse nome de Pasárgada, que significa "campo dos persas" ou "tesouro dos persas", suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias, como o de "L'invitationa au voyage" de Baudelaire. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que eu não tinha feito na minha vida por motivo da doença, saltou-me de súbito do subconsciente este grito estapafúrdio: "Vou-me embora para Pasárgada!" Senti na redondilha a primeira célula de um poema, e tentei realizá-lo, mas fracassei. Abandonei a idéia. Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio, ocorreu-me o mesmo desabafo de evasão da "vida besta". Desta vez o poema saiu sem esforço como se já estivesse pronto dentro de mim. Gosto deste poema porque vejo nele, em escorço, toda a minha vida; e também porque parece que nele soube transmitir a tantas outras pessoas a visão e promessa da minha adolescência - essa Pasárgada onde podemos viver pelo sonho o que a vida madrasta não nos quis dar. Não sou arquiteto como meu pai desejava, não fiz nenhuma casa, mas reconstruí e "não como forma imperfeita neste mundo de aparências", uma cidade ilustre, que hoje não é mais a Pasárgada de Ciro, e sim "a minha" Pasárgada.
"Oração no Saco de Mangaratiba" não é poema, é resíduo de poema. Em 1926 passei duas semanas num sítio distante de Mangaratiba umas duas horas de canoa. A ida para lá, noite fechada ainda, foi a viagem mais bonita que já fiz na minha vida. Vênus luzia sobre nós tão grande, tão intensa, tão bela, que chegava a parecer escandalosa e dava vontade de morrer (daquela hora é que iria sair o título do meu livro seguinte: Estrela da Manhã). A viagem de volta foi também noturna. Saímos da Praia da Figueira às duas da madrugada para apanhar em Mangarataiba o trem das cinco. Ao virarmos a Ponta da Paciência, levantou-se um vento que quase dá conosco na Restinga da Marambaia. Chegamos em cima da hora para pegar o trem. Caí derreado no banco do vagão. E então, numa espécie de subdelírio da extrema fadiga, todo um poema, o mais longo que já se formou na minha cabeça, começou a fluir dentro de mim. O meu esgotamento era tal, que não tive ânimo para tomar o menor apontamento. Pensei poder recompor os versos em casa. Mas cheguei caí no sono ... Quando acordei, só me restavam na memória os seis versos da oração, única estrofe regular do poema, que era no mais em verso-livre. Nunca me consolei desse desastre."
* * * * * * * * * * * * * * * * * * **
Ler um poema se parece um pouco com olhar uma mulher.
Às vezes gostamos do rosto, mas não dos seios; de outras, admiramos as coxas e empacamos no rosto, e só de poucas admiramos tudo. Embora de algumas gostemos além do razoável sem entender porque.
Poemas também são assim. É exceção termos nossa admiração integral por algum. Podemos gostar do início e do meio; de outras, só do início ou do final, e também acontece de gostarmos sem conseguir explicar o motivo.
A admiração que temos por um determinado poema não é uniforme; é normal que num poema comum apareça uma sacada interessante, ou o contrário.
Em dois poemas de Libertinagem eu sinto isso; “Não sei dançar” e “Mulheres”, dos quais gosto muito do início, mas perco o interesse no resto do poema.
Acho a primeira estrofe de “Não sei dançar” perfeita:
“Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...”
Mas depois o poema se torna quase uma crônica sem interesse para mim.
Da mesma forma, o poema “Mulheres”:
“Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! Fraco!”
Depois, o final me parece que fica pobre.
Não sei se essa pobreza se deve à influência do “poema-piada” ou da “obrigação de ser moderno”. Mas eu considero que ele não consegue manter a força.
* * * * * * * * * * * * * * * * * *
Mas “O Cacto” é um dos grandes poemas que eu conheço:
“O CACTO
Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:
- Era belo, áspero, intratável.”
Petrópolis, 1925
Primeiro vamos falar desses dois cidadões, Laocoonte e Ugolino, citados no início.
"Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados."
Laocoonte
O conjunto escultórico de Laocoonte, atribuído a Agesandro, Atenodoro e Polidoro (três escultores da ilha de Rodes), foi criado entre 42 e 20 a.C. Ficava no palácio do Imperador romano Tito, e atualmente está no museu do Vaticano.Ugolino e os filhos
O Conde Ugolino é um dos personagens da Divina Comédia de Dante. Derrotado na luta pelo controle político da cidade de Pizza, foi julgado como traidor em 1289, e condenado a morrer de fome, tendo sido trancado com os filhos e netos numa torre, cuja chave foi lançada no rio.
Na Divina Comédia, Dante o encontra no Inferno por que ele teria comido os filhos e netos antes de morrer de fome.
Aliás, o Conde existiu de fato, porém, há poucos anos exumaram os restos dele e da família, e não encontraram marcas de dentes nos ossos, pelo que deduziram (sete séculos depois) que seu suposto canibalismo fora maledicência de Dante.
Mas o que importa aqui é a beleza e tragédia que a imagem escolhida por MB passa do Cacto, e, ao vermos as esculturas nas quais se baseou, também a dignidade e o tamanho que lhe dá, ao compará-lo com duas obras plásticas grandiosas, e inserí-lo na Odisséia e na Divina Comédia.
É difícil para mim comentar o poema. Ele faz parte dos que eu mais gosto sem entender porque. Acho que é por falar das coisas que são grandiosas e maiores do que a morte sem ter a consciência disso, pois mesmo morto, o Cacto ainda mostra sua força, como um Deus.
"- Era belo, áspero, intratável.”
É um poema pequeno, mas poderoso, tem apenas onze versos, mas é imensamente grande. Inclusive, o poema todo tem versos muito longos, sendo que o penúltimo verso tem mais de trinta sílabas, o que lhe dá um ritmo intenso, porém "bastante sem ritmo".
Era um dos que MB mais gostava, e é o preferido de muita gente. Numa enquete feita pela "Folha de São Paulo" ele foi escolhido entre os trinta melhores da poesia brasileira.
* * * * * * * * * * * * * * * * *
"PROFUNDAMENTE
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegrias e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosas
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente."
Gosto desse poema, primeiramente, porque também adormeci no colo de uma tia durante uma festa de São João. Só não acordei no meio da noite, mas no dia seguinte. E a sensação de perda só foi minorada durante a manhã. Creio que acordar ainda de noite deva ser muito pior.
Acho interessante que ele comece o poema falando de ontem : "Quando ontem adormeci Na noite de São João", como se tivesse sido ontem mesmo. Só depois, na segunda parte, ele conta que isso aconteceu quando ele tinha seis anos.
Mas a sensação de perda daquela noite se mantém, e parece que essa perda foi ontem. Eu tambem sinto isso, ainda que, no meu caso, entre hoje e o "meu ontem" já tenham se passado mais de cinquenta anos.
E no final do poema, MB faz uma ponte entre aquela noite, em que todos já dormiam e ele acordou, e agora; quando todos dormem uma outra noite e ele está vivo.
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"NA BOCA
Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer
Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
- Na boca! Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância
Outras porém faziam-lhe a vontade.
Ainda existem mulheres bastante puras para fazer
[vontade aos viciados
Dorinha meu amor...
se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como
[o outro:
- Na boca! Na boca!"
Me parece um poema sem ritmo, mas nada alí está demais.
A devassidão assumida é o que eu gosto nele. Aceita-se o álcool, o eter e o vício como forma de pureza.
Quando ele lembra da Dorinha e fala: "Na boca", seria o beijo ou o sexo oral ?
É estranho que a dor de "corno" é a dor que não se pode dizer, mas pedir "na boca", é permitido.
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"O ÚLTIMO POEMA
Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e
[menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes
[mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação".
O que admiro é que para o seu último poema, ele retira das coisas um atributo delas que é sua parte mais expressiva, mas o que delas resta sem essa parte parece até maior do que a coisa que antes havia, por se tornar um enigma. É como se a coisa que restasse existisse a partir da sua inexistência. Será isso a morte ?
O poema é terno por dizer as coisas mais simples, porém "menos intencionais".
Que seja ardente como "um soluço sem lágrimas".
Que tenha a beleza das flores "quase sem perfume".
"A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos". Como se sabe, o diamante é a cristalização do carbono sob alta pressão, à temperatura de 1.650ºC. Assim, ele pede a pureza da chama, e não a do diamante.
E a paixão dos suicidas "que se matam sem explicação."
Afinal, se matar sem motivo conhecido e não deixar sequer um bilhetinho explicando a razão deve gerar uma ausência maior do que toda presença que o suicida tenha tido durante sua vida.
Não sei se esse "último poema", tão forte pelo despojamento, seria possível, mas é a poesia mais pura escrever desejando-o.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Manuel Bandeira, "Arte de amar"
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus, ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
RITMO DISSOLUTO, de Manuel Bandeira.
No Itinerário, assim MB escreve:
"O Ritmo Dissoluto apareceu em 1924 conjuntamente com a segunda edição de “A Cinza das Horas” e “Carnaval”, num volume editado pela Revista de Língua Portuguesa. Causou grande e divertida surpresa nos arraias modernistas aparecer eu, autor de um poema já publicado (“Poética”), onde primitivamente havia este verso “Abaixo a Revista de Língua Portuguesa”, aparecer eu da noite para o dia editado por essa mesma revista. Eis como se tornou possível a coisa. Depois que morreu meu pai, fiquei sem nenhuma esperança de ver em livro os versos que fizera depois de Carnaval. Nunca procurei editores para eles, Ora, aconteceu que um dia, encontrando-me na Livraria Freitas Bastos com Goulart de Andrade, interpelou-me o poeta muito amavelmente: “Então, quando temos novo livro ?” Respondi-lhe que nunca, porque editor não me apareceria, nem eu tinha dinheiro para me editar por conta própria. Ao que Goulart acudiu prontamente: “Pois eu vou lhe arranjar editor”. Não fiz fé que o conseguisse. Dias depois em novo encontro de rua, ouvi-lhe com espanto recomendar-me que procurasse o Laudelino Freire, a quem falara sobre mim e com quem ficara acertado que o meu livro seria editado pela Revista. Assim a publicação do volume Poesias fiquei devendo-a a dois homens a quem atacara: ao poeta que eu satirizara nos “Sapos”, e ao editor contra cuja revista havia gritado “Abaixo!” num poema escandalosíssimo para o tempo (e creio que agora, de novo, para ao menos três trimestres da geração de 45). É verdade que o verso irreverente foi suprimido, mas para ser substituído pelo que lá está:”Abaixo os Puristas!”
O Ritmo Dissoluto é dos meus livros aquele sobre o qual os que apreciam a minha poesia mais discordam.
Para Adolfo Casais Monteiro, que tanto me desvaneceu escrevendo um estudo (Manuel Bandeira, Editorial Inquérito Limitada, Lisboa, 1944), o mais longo dedicado a minha obra poética, nesse livro “o parnasianismo quebrou definitivamente o seu instrumento de bronze; mas o que lhe ficou nas mãos não é um instrumento: são os pedaços com o que há de construir”. E mais adiante, acrescenta: “Em o Ritmo Dissoluto muitas são as poesias sem ritmo de espécie alguma; mais do que ritmo dissoluto portanto ... Mas a maioria delas oscila entre a notação sucessiva de impressões desagregadas uma das outras e a repetição de certos temas já cansados, em que a nota da melancolia se entrelaça com a da voluptuosidade, mas ‘sem poder de convicção’. Há nesse livro não sei o que de morno, de abatido e indiferente; indiferença à poesia como à vida, ausência daquela ressonância aguda ou profunda que é o sinal de que a poesia desceu sobre o poema”. O agudo crítico português confessou que O Ritmo Dissoluto lhe produziu certo mal estar.
Para Octávio de Faria (Estudo sobre Manuel Bandeira em Homenagem a Manuel Bandeira, Rio, 1936), ao contrário, O Ritmo Dissoluto era, dos quatro livros que eu tinha publicado até aquela data (A Cinza das Horas, Carnaval, O Ritmo Dissoluto e Libertinagem), o que mais lhe satisfazia. “É o momento”, explicou, “em que o poeta, vencendo as últimas barreiras da sujeição às regras que o tolhem demais, atinge a sua forma mais agradável.” Diz ainda que lido o livro Libertinagem logo em seguida ao Ritmo Dissoluto, decepciona um pouco; que depois de poesias como”Quando perderes o gosto humilde da tristeza”, “Sob o céu estrelado”, “Carinho Triste” (todas do Ritmo Dissoluto), até “Evocação do Recife”, “Noturno da Rua da Lapa” ou “O impossível carinho” (todas de Libertinagem), não deixam de dar uma impressão de tenuidade, de diminuição de forças, de menor capacidade criadora.
A mim me parece bastante evidente que “O Ritmo Dissoluto” é um livro de transição entre dois momentos da minha poesia. Transição para que ? Para a afinação poética dentro da qual cheguei, tanto no verso livre como nos versos metrificados e rimados, isso do ponto de vista da forma; e na expressão das minhas idéias e dos meus sentimentos, do ponto de vista do fundo, à completa liberdade de movimentos, liberdade de que cheguei a abusar no livro seguinte, a que por isso mesmo chamei Libertinagem. No Ritmo Dissoluto prossegui em certas experiências de Carnaval, como rimas toantes, mistura de versos brancos e versos rimados, versos livres que ainda persiste certo ritmo de medidas e rimados, coisa que depois tomei horror. Devo dizer que figuram nele poemas que são contemporâneos dos de Carnaval ou mesmo anteriores a eles (“Na solidão das noites úmidas”, “Felicidade”, “Mar bravo”, que é de 1913, “A vigília de Hero”, também de 1913 ou 1914, pois escrevi-o em Clavadel, “Quando perderes o gosto humilde da tristeza”). Os demais é que foram compostos a partir de 1921, na Rua do Curvelo ou na Mosela (Petrópolis). (Às influências assinaladas anteriormente há que acrescentar essa da atmosfera de Petrópolis. Dos vinte e quatro poemas que perfazem o Ritmo Dissoluto, oito foram escritos na Mosela. Mas a ação de Petrópolis só se exerce quando estou lá, a ação lenitiva, que atuando sobre a minha sensibilidade, logo me comunica aos versos um manso ritmo de aceitação). Aliás, dois pelo menos dos poemas de O Ritmo Dissoluto são dissolutos de ritmo: “Noite Morta” e “Berimbau”. O primeiro é um dos meus prediletos em minha obra, não sei se porque até hoje guardou para mim a atmosfera do lugar e do momento em que o escrevi, ou se porque, embora em versos-livres, o sinto, na forma, bem mais necessariamente inalterável do que os meus poemas de metro cuidadosamente construído. “Berimbau”, que é de certo modo a minha “Amazônia que ao vi”, está cheio de intenções formais e me recorda um dos maiores prazeres que já tive em minha vida de poeta e foi a atenção com que o ouviu Guilherme de Almeida quando eu disse pela primeira vez o poema ( e só nessa vez o disse bem), poucos dias depois de o ter escrito. À proporção que eu ia recitando, via os olhos de Guilherme que nada lhe escapara dos efeitos que eu ali pusera, por mínimo que fosse. “Berimbau” foi musicado por Jaime Ovalle".
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Existem debates que são datados. Por exemplo: as polêmicas do verso livre, rimado ou da métrica. Hoje, lemos poemas da mais variadas formas sem necessidade de tomar posição estética contra ou a favor. Existe um gosto pessoal, mas sem maniqueismos.
Não era o que acontecia na época. Daí a importância de alguns poemas de Ritmo Dissoluto. Acho até que uma parte da obra de MB é a sua luta para se livrar das formas parnasianas e simbolistas.
Porém, da mesma forma que me parece impossível dissociar a Revolução Francesa da quilhotina, também não conseguimos dissociar a conquista da liberdade da forma empreendida por MB de alguns poemas radicais.
Nem por isso somos obrigados a gostar deles, e nem da guilhotina.
Do livro todo, só gosto de um poema, que me parece seja dos mais perfeitos na forma livre. Trata-se de Gesso:
"GESSO
Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
- O gesso muito branco, as linhas muito puras -
Mal sugeria imagem da vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de
[pátina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na de minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoalhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos,
[recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo
[mordente da pátina...
Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu. "
O que é possível dizer desse poema ?
Não falo do tema, que é tocante. Nem da forma da composição, onde a partir de uma história até banal, o poeta encerra com esta afirmação forte e repentina:
"Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu."
Falaria - se pudesse - da unidade que ele tem, e da poesia que escapa das suas frases.
Ainda que seja em versos livres e sem ritmo, nenhuma palavra aí está a mais. Considero "Gesso"um dos grandes poemas modernos da língua portuguesa.






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