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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
Guilherme de Almeida, "Essa que eu hei de amar..."
Essa que eu hei de amar perdidamente um dia,
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a esta alma escura e fria.
E, quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela...
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz... Tudo isso eu me dizia,
quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste...
E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"
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terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Guilherme de Almeida, "Mormaço"
Calor. E as ventarolas das palmeiras
e os leques das bananeiras
abanam devagar
inutilmente
na luz perpendicular.
Todas as coisas são mais reais, são mais humanas:
não há borboletas azuis nem rolas líricas.
Apenas as taturanas
escorrem quase líquidas
na relva que estala como um esmalte.
E longe uma última romântica
- uma araponga metálica - bate
o bico de bronze na atmosfera timpânica.
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domingo, 2 de setembro de 2012
Guilherme de Almeida, "Álibi"
Não estive presente
quando se perpetrou
o crime de viver:
quando os olhos despiram,
quando as mãos se tocaram,
quando a boca mentiu,
quando os corpos tremeram,
quando o sangue correu.
Não estive presente.
Estive fora, longe
do mundo, do meu mundo
pequeno e proibido
que embrulhei e amarrei
com cordéis apertados
de meridianos meus
e de meus paralelos.
Os versos que escrevi
provam que estive ausente.
Eu estou inocente.
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sábado, 25 de julho de 2009
Guilherme de Almeida, "Chaves de Ouro Para Onze Sonetos Que Não Foram Escritos"
Paraíso perdido que eu achei!
Tua essência que é tudo em meu todo que é nada.
Quanto mais juntos, tanto mais sozinhos.
Alternativamente a noite e o dia.
O que de olhos abertos eu não via.
Sem nunca ter começo, teve fim.
A mentira da vida e a verdade do sonho.
Mas nem sequer ouviste o que eu não disse.
E partiste. E eu fiquei no dia sem paisagem.
Nos meus fecundos arrependimentos.
Cai o pano final das pálpebras fechadas.
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