quarta-feira, 1 de julho de 2015
Bertold Brecht, "O nascido depois"
Eu confesso: eu
Não tenho esperança.
Os cegos falam de uma saída. Eu
Vejo.
Após os erros terem sido usados
Como última companhia, à nossa frente
Senta-se o Nada.
Tradução de Paulo César de Souza.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Bertold Brecht
"A solução"
Depois da rebelião do 17 de junho
O secretário da Associação dos escritores
mandou distribuir panfletos na Alameda Stalin
Onde se podia ler que o povo havia
Levianamente perdido a confiança no governo
E somente a reconquistaria
mediante trabalho dobrado. Ora,
Não seria bem mais fácil
Se o governo dissolvesse o povo e
Elegesse um outro?
domingo, 23 de setembro de 2012
Bertold Brecht, "A máscara do mal"
Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa
Máscara de um demônio mau, coberta de esmalte dourado.
Compreensivo observo
As veias dilatadas da fronte, indicando
Como é cansativo ser mau.
sábado, 18 de agosto de 2012
Bertold Brecht, "Quem se defende"
Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legítima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando você se defende porque lhe tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Não lhe é permitido se defender.
domingo, 8 de maio de 2011
Alguns poemas da “CARTILHA DE GUERRA ALEMÃ II”, de Bertold Brecht
I
NA GUERRA MUITAS COISAS CRESCERÃO
Ficarão maiores
As propriedades dos que possuem
E a miséria dos que não possuem
As falas do Führer
E o silêncio dos guiados
SE OS CAMPOS DOS JUNKERS (*) FOREM DIVIDIDOS
Não será preciso conquistar os campos dos camponeses ucranianos
Se os campos dos camponeses ucranianos forem conquistados
Os Junkers terão mais campos.
(*) Junkers eram os grandes proprietários de terras na Prússia, que também pertenciam à nobreza germânica mais tradicional (como os "coronéis" do nosso nordeste).
III
Lutam agora contra outros povos
Novos escravos
Se juntarão aos velhos.
IV
Os casais
Deitam-se nos leitos. As mulheres
Parirão órfãos.
V
Que os trabalhadores fabricam ?
Os trabalhadores
Ficariam de bom grado com eles.
VI
Dura quatro semanas. Quando chegar o outono
Vocês estarão de volta. Mas
O outono virá e passará
E tornará a vir e passar muitas vezes
E vocês não voltarão.
O pintor lhes dirá: AS MÁQUINAS
Farão tudo por nós. Bem poucos
Precisarão morrer. Mas
Vocês morrerão às centenas de milhares, tantos
Como nunca se viu morrer.
Quando eu ouvir que vocês estão no Pólo Norte
Ou na Índia ou no Transvaal, apenas saberei
Onde um dia se encontrarão seus túmulos.
Tradução de Paulo Cezar de Souza
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Bertold Brecht
"A fumaça"
A pequena casa entre as árvores no lago.
Do telhado sobe fumaça.
Sem ela
Quão tristes seriam
Casa, árvores e lago.
Tradução de Paulo César de Souza
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Bertold Brecht, "A minha mãe"
Flores nascem, borboletas esvoejam por cima...
Leve, ela não fez pressão sobre a terra
Quanta dor foi preciso para que ficasse tão
leve!
Tradução de Paulo César de Souza.
Copiado do site http://antoniocicero.blogspot.com/.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Bertolt Brecht, "Aos que vierem depois de nós"
                        I
Realmente, vivemos tempos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes,
em que é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?
É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"
Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.
Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.
                        II
Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.
                        III
Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.
Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.
E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.
Tradução de Manuel Bandeira (?)

