Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de abril de 2017

Carlos Heitor Cony "Pesquisa de Opinião"


Em Fontamara, no alto do morro da região mais miserável da Itália, o governo fascista de Mussolini mandou uma comissão do partido fazer uma espécie de plebiscito entre os "cafoni" (camponeses) para saber o que eles pensavam politicamente.

O líder dos fascistas perguntou ao sapateiro: "Viva quem?". A resposta foi respeitosa: "Viva a rainha Margarida!"; "A rainha Margarida já morreu". O mesmo inquisidor escreveu ao lado: "alienado". O segundo a ser interrogado respondeu: "Abaixo os ladrões". Foi classificado como anarquista. O terceiro não sabia dizer "vivas". Só sabia dizer "abaixo" e respondeu: "Abaixo os impostos". Também foi classificado como anarquista.

O "cafone" seguinte foi Rafael Scarpone, que gritou: "Abaixo os bancos". Foi classificado como comunista. Um outro gritou de mãos postas: "Viva a Virgem de Loreto". Um outro discordou. Mas foi contestado, alguém reclamou: "Viva São Roque". Foi anotado como clerical. O sacristão preferiu dar o viva ao "pão e ao vinho".

Della Croce, alfaiate, considerado um homem prudente e sábio, percebendo que nenhuma das respostas satisfazia a comissão de fascistas, subindo num caixote, proclamou: "Vivam todos!". O chefe dos fascistas mandou anotar: "liberal".

Uliva berrou com emoção: "Viva o governo!". "Qual governo?", perguntaram. "O governo legítimo." Foi definido como "patriota". Em seguida, o lavrador Sexta-Feira Santa respondeu: "O governo ilegítimo". Foi anotado como "subversivo perigoso".

A comissão de fascistas voltou para Roma e fez um relatório sobre Fontamara: "Com jeitinho e óleo de rícino, pode ser aproveitada". Quiseram saber a quem o vigário dera o viva. O vigário não foi encontrado, estava na casa de Gina, a prostituta mais famosa de Fontamara.

Crônica publicada no jornal "Folha de São Paulo" em 02/04/2017.

sábado, 1 de abril de 2017

Paulo Mendes Campos, "Por que bebemos tanto assim?"


Bar é um objeto que se gasta como camisa, isto é, depois de certo tempo de uso é sempre necessário comprar uma camisa nova e mudar de bar. É preciso escolher bem o nosso bar, pois tão desagradável quanto tomar um bonde errado é tomar um bar errado. O homem que toma o bar errado pode gerar aborrecimentos ou ser a vítima deles.

Não escrevo este artigo no bar. Não entendo pessoas que bebem para escrever. Georges Bernanos escrevia em bares com o risco de passar por bêbado, coisa que talvez tivesse sido (a afirmação é do próprio escritor católico) se as leis alfandegárias não taxassem tão alto os álcoois consoladores. A bebida consola; o homem bebe; logo, o homem precisa ser consolado. A dramaticidade fundamental do destino é o penhor dos fabricantes do veneno. Porque o álcool é um veneno mortal. Um veneno mortal que consola e... degrada o homem. Mas outro escritor católico (teve uma crise de irritação quando chegou a Nova Iorque durante a lei seca), o gordo, sutil e sedento G. K. Chesterton, nega que o álcool degrade o homem: o homem degrada o álcool.

Chesterton foi um louco que perdeu tudo, menos a razão; é claro, por isso mesmo, que a criatura humana é o princípio da degradação de todas as coisas sobre a Terra. O álcool é inocente. Só um típico alcoólico anônimo seria incapaz de entender a inocência do álcool e a inescrutável malícia dos homens.

Depois de dois escritores, cito agora um falecido artista de cinema, Humphrey Bogart, que dizia: "Todo homem está sempre três doses abaixo do normal." That's the question. Na verdade, não é bem isso: bebemos para empatar com o mundo. O mundo está sempre a ganhar da gente, de um a zero, dois a zero... Bebe-se na esperança de igualar o marcador. Uma ilusão, sem dúvida, mas toda la vida es sueño y los sueños sueños son. Calderón de la Barca, se bebia, era escondido; saiba portanto, leitor, que a sentença seguinte foi adulterada por mim: "Aún en sueños — no se pierde el beber bien."

Uma das exclamações mais doces (Luis de Góngora y Argote) da poesia espanhola é esta:

Oh bienaventurado
albergue a cualquier hora!

Um dos aforismos pungentes (Baudelaire) da literatura é este: "É preciso estar sempre bêbado — de vinho, de poesia, de religião". Uma expressão popular: beber para afogar as mágoas.

Bernanos, Chesterton, Humphrey Bogart, o falso Calderón de la Barca, Góngora e o povo estão perfeitamente certos: o homem bebe para disfarçar a humilhação terrestre, para ser consolado; para driblar a si mesmo; o homem bebe como o poeta escreve seus versos, o compositor faz uma sonata, o místico sai arrebatado pela janela do claustro, a adolescente adora cinema, o fiel se confessa, o neurótico busca o analista. Quem foge de si mesmo se encontra; quem procura encontrar-se afasta-se de si mesmo. Não é paradoxo, é o imbricamento humano. E este é uma espiral inflacionária cuja moeda, em desvalorização permanente, é a nossa precária percepção da realidade. Somos inflacionados pelo nosso próprio vazio: a reação nervosa da embriaguez parece encher-nos ou pelo menos atenuar a presença do espírito desesperado dentro do corpo, perfeitamente disposto a possuir os bens terrestres e gozá-los. Espírito e corpo não se entendem: o primeiro conhece exaustivamente a morte, enquanto o segundo é imortal, enquanto vive. Daí essa tocata e fuga a repetir-se indefinidamente dentro de cada ser, este desequilíbrio que nos leva ao bar, à igreja, ao consultório do analista, às alcovas sexuais, à arte, à ciência, à ambição de mando e dinheiro, a tudo. As fugas e fantasias são tantas, e tão arraigadas, que se confundem com a própria natureza humana. Não seria possível definir o homem como um animal que nasce, alimenta-se, pensa, reproduz e morre; o que interessa no homem é o que sobra; o fundamental nele é o supérfluo. Uma jovem atirou-se sem explicação dum décimo andar, um cientista experimentou em si mesmo o vírus duma doença mortal, um artista passa vários anos de fome e incompreensão para realizar uma obra, os tranqüilizantes são vendidos aos milhões, multidões acreditam na santidade duma menina, cresce o número de doentes mentais, o alcoolismo é um mal que se generaliza — estas são as manchetes que interessam à psicologia do indivíduo e da coletividade. Todos esses fatos, superficialmente plurais, possuem na base a singularidade da tristeza. É preciso beber. A natureza deu-nos a embriaguez natural do sono. Oito horas de sono não bastam. É preciso estar bêbado — de vinho, poesia, religião. É preciso estar bêbado de todas as mentiras vitais (a expressão é de Ibsen): de poder, de luxo, de luxúria, de bondade, de satanismo (o doutor Relling para consolar um pobre-diabo inventou para ele uma personalidade diabólica), de idealismo, de Deus, de violência, de humildade, de loucura, de qualquer coisa.

O álcool é tão-só a modalidade primária e comum à embriaguez. O bar é a primeira instância da causa do homem. O uísque (cachaça) é apenas uma das formas vulgares de todos os ritos milenares de encantamento.

O que comiam os centauros? O que transformava os homens em deuses? Que se comia durante as cerimônias dos Mistérios na Grécia? Provavelmente um cogumelo chamado amanita muscaria, incomparavelmente superior aos nossos melhores vinhos e aguardentes. O cogumelo leva-nos à morada de Deus — é o testemunho de uma médica e um banqueiro que o experimentavam várias vezes. Acredita Robert Graves que Sansão devia sua força aos cogumelos. A Sulamita refere-se aos cogumelos no Cântico dos Cânticos. Os indígenas mexicanos o usavam em suas festas rituais (culto ainda existente na província de Oaxaca). Portanto:

A embriaguez é religiosa, e o altar das religiões antigas inventou de certo modo a mesa do bar. Aí, o homem punha-se em comunicação com o espírito divino, ligava céu e terra, transcendia-se.

O homem entra no bar para transcender-se — eis a miserável verdade.

Entrei em muitos, bebo alguma coisa desde a minha adolescência, conheço bares em Belo Horizonte, Porto Alegre, Buenos Aires, Florianópolis, São Paulo, Rio, Salvador, Recife, Manaus, Brasília, João Pessoa, Petrópolis, Belém, Nova Iorque, Lisboa, Vigo, Londres, Stratford-on-Avon, Oxford, Paris, Grenoble, Gênova, Pisa, Arezzo, Florença, San Gemignano, Volterra, Spezia, Roma, Nápoles, Paestum, Reggio di Calabria, Messina, Catania, Siracusa, Licata, Agrigento, Marsala, Trapani, Palermo, Taormina, Veneza, Hamburgo, Berlim (Ocidental e Oriental), Heidelberg, Dusseldorf, Colônia, Munique, Goettingen, Francforte, Bonn, Varsóvia, Estocolmo, Leningrado, Moscou, Surrumi, Ircútsqui, Pequim, Múquiden, Xangai, Santa Luzia e Sabará...

Em 1954, viajando pela Alemanha de automóvel, cheguei pouco depois da meia-noite à cidade universitária de Goettingen. No Brasil, uma cidade cheia de estudantes costuma tumultuar-se pela madrugada. Mas Goettingen àquela hora entregava-se a um repouso unânime. Sem sono, reservei um quarto no hotel, perguntando ao empregado onde poderia beber qualquer coisa.

— Ah, senhor — respondeu entre sentido e orgulhoso o alemão

— Goettingen é uma cidade universitária, não existe nada aberto a esta hora.

— O senhor está completamente enganado — retruquei-lhe.

Ele se riu bondosamente de mim: tinha mais de 60 anos, nascera em Goettingen, conhecia todas as ruas da cidade, todos os bares, seria impossível encontrar qualquer venda aberta depois de meia-noite.

— O senhor está enganado — insistia eu.

Moeller, outro alemão, que viajava comigo, reforçou a opinião do empregado do hotel e começou a dissertar impertinentemente sobre as diferenças entre o Brasil e a Alemanha. Eu estava parecendo bobo — disse ele — não querendo aceitar sua germânica verdade: em Goettingen não havia um único bar aberto depois de meia-noite. A esta altura manifestei-lhes um princípio universal, pelo qual sempre me guiei:

— Pois fiquem vocês sabendo que em todas as cidades, todas as vilas e povoados do mundo, há pelo menos duas pessoas que continuam a beber depois de meia-noite; aqui em Goettingen há pelo menos duas pessoas que estão bebendo neste momento; vou encomendá-las.

Darwin Brandão, o terceiro homem nesta viagem, não me deixa mentir. Meio cético a respeito do meu princípio, mas solidário com o amigo, resolveu acompanhar-me, apesar do sarcasmo dissuasório de Moeller. Saímos para a noite morta de Goettingen, e vimos um gato, tão silencioso quanto os seus conterrâneos, ganhar às pressas o beiral dum telhado secular. Fomos andando pelas ruas paralisadas, eu tranqüilo, e Darwin me espiando de banda. No fim duma rua comprida e oblíqua, vi um cubo iluminado, mais parecido com um anúncio de barbearia, e afirmei:

— É ali. — Nas faces visíveis do cubo estava escrito: Weinclub. Ao fim da passagem lateral, por onde entramos, demos com a porta fechada. Batemos em vão, e já íamos embora, desapontados, quando notei no corredor uma escada circular para o porão, cavada na pedra. No primeiro patamar, ouvimos música. Tomei um ar superior de vidente e desci o segundo lance. Empurrada a grossa porta de carvalho (o carvalho é mera suposição), recebi uma salutar lufada de música, de tabaco, de gente, de aromas etílicos. Foi como se eu reconquistasse o paraíso. O Weinclub dançava e bebia animadamente, repleto de jovens universitários e lindas universitárias de bochechas coradas e riso amorável. Não havia uma única mesa vaga, mas três segundos depois eu estava a beber um magnífico branco do Reno, e a explicar para os estudantes, que nos acolheram com simpatia, o princípio universal que rege a vida noturna. E eles, os mais talentosos matemáticos do mundo, futuros inventores de balísticos e outros inteligentíssimos engenhos mortíferos, acataram o meu pacífico princípio como um axioma luminoso. Foi um dos bares mais consoladores de minha temporada sobre a Terra.

Um bar legal precisa apresentar cinco qualidades fundamentais: boa circulação de ar, bom proprietário, bons garçons, bons fregueses e boa bebida. Isto é raríssimo de acontecer. Quando o garçom é uma flor de sujeito, o dono do bar costuma ser uma besta; se os fregueses são alcoólicos esclarecidos, o ambiente às vezes é quente e abafado; vai ver um excelente e confortável bar refrigerado, e boa porcentagem de uísque é fabricada no Engenho de Dentro. Para dizer toda a verdade, o bar perfeito não existe.

Barmen and jockeys are the only people who are polite any more, doutrinou um homem que consumia álcool em quantidades industriais, o romancista Ernest Hemingway. O barman, de fato, é um dos segredos do bar. Cada freguês deve sentir a ilusão de que o barman tem uma predileção especial por ele, e em nome disso será capaz de resolver qualquer problema. O incompreensível é que resolvem mesmo. O homem que chega a uma grande metrópole desconhecida é como um avião voando em solidão por dentro dum espesso nevoeiro. Mas, se este homem pertence à comunidade internacional dos freqüentadores de bar, cada barman é uma torre com a qual ele poderá entrar em contato a fim de orientar-se. Os únicos estranhos aos quais eu falo sem timidez, com perfeita familiaridade, são os barmen, e estes igualmente reconhecem logo em mim o freguês escolado, curtido em todos os amargos, navegador de longo curso.

Todo freqüentador de bar tem o direito eventual de embriagar-se convenientemente uma vez por outra. Quem vende bebida deve ser linchado quando exige de seus fregueses comportamento de casa de chá. Aclarados neste ponto, podemos afirmar que o maior inimigo do bar e do alcoolismo é o mau bebedor que bebe anos a fio e não aprende a beber, o bebedor diariamente chato, incapaz de entender o tácito acordo de amabilidade e contenção que existe entre todos os bons bebedores do mundo. Eu os conheço todos e os abomino. Conheço toda a imensa variedade da espécie (sentimentalóides, untuosos, agressivos, prolixos, confidenciais, pedantes, questionadores, inoportunos, monocórdios, babugentos, ressentidos etc. etc). Ah, se um dia eu pendurar o meu copo numa prateleira, e passar a beber em casa, podereis estar certos, contemporâneos, de que foram os maus bebedores que me levaram a este extremo!

Não defendo o alcoolismo, sr. Alcoólico Anônimo. Queira entender-me com um pouco mais de sutileza, se me faz o favor. Modestamente embora, falando do alto duma tribuna para uma platéia vazia, defendo é o homem. O uísque não me interessa, o que me interessa é a criatura humana, esta pobre e arrogante criatura, já confrangida por um destino obscuro, arrumada odiosamente em castas duma sociedade sanguessuga, uma sociedade engenhosamente arquitetada para triturar as classes de baixo a fim de transformar a matéria-prima em petróleo, aço, eletricidade, veículos, aparelhos domésticos, tecidos, alimentos. Segue-se a segunda fase do processo industrial: correias de transmissão levam estes bens terrestres ao alto-forno, que os transforma em palácios, iates, cavalos de corridas, jóias, amantes de luxos, em todas as formas de prazer e domínio sobre a vida. Mas os ricos também bebem, e quanto! Bebem às vezes por má consciência, outras por má educação, e bebem porque todos os bens terrestres são fantasias que se desfazem de repente ao hálito da morte. Pois o que advogo no meu desespero-dialético é a melhor distribuição das fantasias terrestres. Será a única maneira eficiente de reduzir o alcoolismo. A máquina social cria sobre o indivíduo uma inumerável série de compreensões, que o desequilibram e infelicitam. O alcoolismo é uma das variadíssimas conseqüências desse extraordinário mal-estar coletivo. Transpondo a porta do bar, o homem age com toda a pureza e inocência, buscando fugir ao sofrimento, tentando cumprir a sua vocação para o prazer; se encontra no bar um novo mal, a degradação, o desemprego, a debilitação orgânica, a morte prematura, isto é outra história. A história triste das drinking classes.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ruy Castro, "Poesia na Spaghettilândia"


RIO DE JANEIRO - Há pouco, pela Folha, os poetas Augusto de Campos e Ferreira Gullar protagonizaram um tiroteio verbal sobre os rumos da poesia de vanguarda no Brasil. É uma briga que começou em 1954, com um almoço na Spaghettilândia, restaurante popular da Cinelândia, tendo como pivô Oswald de Andrade, de quem Gullar era entusiasta, e, Augusto, mais ou menos. Desde então, os dois nunca mais se falaram — ponha 60 anos nisto —, exceto nas escaramuças que, anos depois, dariam origem ao concretismo e ao neoconcretismo, os movimentos rivais que eles simbolizaram.

Fã de ambos, meti-me na briga sugerindo que a Spaghettilândia, de pé até hoje, afixasse uma placa em seu salão, imortalizando o fato histórico. Augusto não gostou e, numa carta, fuzilou o colunista. Bem, não apenas reforço a sugestão como vou propor à Spaghettilândia que batize seus pratos com os nomes dos principais poetas das duas correntes.

O filé de peixe, por exemplo, poderia se chamar "à Eugen Gomringer", em homenagem ao suíço-boliviano que, em 1953, antes de todo mundo, já fazia poesia concreta na Europa, só que com o nome de "constelações". Gomringer, 91 anos, vive na Alemanha e gostará de saber que alguém ainda se lembra dele por aqui.

O bacalhau à portuguesa eu dedicaria a Cassiano Ricardo, o "representante do espírito vivo de 1922", segundo os próprios concretistas. A lasanha ficaria com Edgard Braga; o caneloni, com Pedro Xisto; e o talharim, com Ronaldo Azeredo, esquecidos hoje, mas, todos, concretistas de primeira hora. E meu amigo José Lino Grünewald adoraria batizar o frango à carioca.

Para Gullar, a feijoada. Para o querido Reynaldo Jardim, o espetinho misto. E deixo a Augusto a tarefa de escolher os pratos que levarão o seu nome e os de Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Ele não gosta de ser contrariado.

Crônica publicada no jornal "Folha de São Paulo" em 24/09/2016.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Miguel Sanches Neto, "Teoria da amizade"


Recebi um livro ruim de um amigo bom. Li trechos e logo o  desânimo me prostrou. Não poderia elogiar o livro e não queria perder o amigo. Rapidamente, escrevi um bilhete: Obrigado pelo teu livro, que começarei a ler ainda hoje. É claro que comecei a ler. E nunca terminei. Os amigos da gente não deveriam escrever livros. Seria mais fácil para o crítico não ter amigos escritores. Os livros deveriam ser escritos apenas por nossos inimigos. Se estes publicarem um livro ruim, estarão dando motivo para o crítico extravasar sua maldade e suas frustrações. Então poderíamos provar que ele realmente não presta e, num artigo contundente, destacar nossa superioridade. Se o livro do inimigo for bom, mais fácil ainda. É uma chance de provar da humildade e elogiar a obra com gordos e sibilantes adjetivos. Nosso anjo da guarda ficaria feliz e sairíamos do episódio como uma pessoa extremamente compreensiva, sem rancores. Diriam: vejam só, ele que foi difamado por x, tendo sido o alvo de inúmeras maledicências, vejam só que nobre caráter o dele - reconheceu a grandeza de seu detrator, definiu a estatura de seu pior desafeto.
Mas não. Quem me mandou um livro péssimo foi um amigo. Um amigo de infância. Desses que já não se fazem mais depois de uma certa idade. Um amigo que desejou as mesmas mulheres que um dia desejamos. Que frequentou os mesmos bares suspeitos. Que gastou conosco, em palestras descontraídas, horas infindáveis. É este maldito amigo que escreveu o livro que está sobre nossa mesa, fitando-nos com um olhar de cachorro ferido, de criança rejeitada. A capa ridícula que só perde para o conteúdo. A impressão é de péssima qualidade. E, mesmo assim, o livro provavelmente tenha custado caro. O amigo, que acabou se perdendo em trabalhos desgastantes, é pobre e deve ter passado por dificuldades para pagar a gráfica. A mulher dele, cada vez mais neurótica, com certeza brigou feio com o idiota, É isso que você é, um idiota, perdendo tempo com estas ilusões. Assim deve ter falado a mulher, enquanto olhava para as pernas com varizes, pensando que o dinheiro despendido poderia ter sido usado para uma pequena cirurgia plástica que a livraria das horríveis veias azuis, fruto da gravidez que ela não desejara, mas que acabara aceitando devido às insistências do marido. Fui sempre uma tola.
É isso que o livro me diz. Este livro que custou tanto. Não penso apenas no dinheiro. Mas no tempo. Dez longos anos tentando escrever alguma coisa decente e o resultado é um romancinho colegial, que qualquer adolescente poderia ter escrito. A tiragem deve ter sido pequena. Ele vai deixar nas livrarias do centro. Na Ghighnone, provavelmente os vendedores colocarão na mais remota prateleira. E como o livro não traz nada escrito na lombada, vai se perder no meio de outros títulos irrelevantes e empoeirados. No Chain, ele ficará atrás do balcão do guarda-volume, numa prateleira que é mais um depósito. Depois de algum tempo, será devolvido. E por azar, o amigo vai descobrir: deixara dez exemplares e na hora de recebê-los de volta, encontra onze. Um jornalista, que recebera o livro de presente, freguês assíduo da livraria, trocara-o, junto com um volume de poesia que a editora lhe mandara, por um livro do Paulo Coelho.
Ainda bem que o amigo nunca vai descobrir que serviu de complemento para uma troca, e justo envolvendo o Paulo Coelho. Deus é mesmo perverso. Para uns escritores ruins, tudo. Para outros, nada.
Mas ele tinha o amigo que era crítico. E crítico razoavelmente respeitado. E a opinião da crítica era muito melhor do que o sucesso de vendas. Vender livro era para os carreiristas. E ele sabia-se um clérigo. Escrevia por necessidade de expressão. Não suportaria passar a vida sem deixar uma mensagem para uns poucos. Ele tinha o crítico. Na verdade, pensando bem, ele escrevera este livro única e exclusivamente para o crítico. Eram dele todas as belezas contidas nestas páginas. O romance, uma espécie de educação sentimental, retomava fatos da infância comum. O crítico era o leitor ideal. Não precisava de mais ninguém. Ele tinha o crítico. Meu Deus, estava feliz, mesmo tendo de levar para casa os onze exemplares que o gerente da livraria lhe devolvera, alegando que não havia espaço para volumes consignados. Estava mais do que feliz, a qualquer momento sairia um longo artigo do crítico sobre sua obra. Só agora se lembrara de que não havia mandado nenhuma foto para o jornal. E queria um artigo com foto e tudo. Sem nem se lembrar do fato de não ter encontrado o seu livro nas prateleiras da Ghighnone - se fosse menos tímido teria perguntado para a vendedora se os livros já tinham sido vendidos - sem nem se lembrar disso, correu até um estúdio fotográfico. Depois ficou esperando pelo centro da cidade até às cinco horas, quando o retrato ficou pronto. Colocou-o num envelope e o deixou na portaria do jornal, endereçado ao editor.
É o livro deste amigo que estou levando para doar à biblioteca pública, depois de ter tido o cuidado de arrancar a página de rosto, com a calorosa dedicatória em que falava de infância e amizade - duas palavras que doem.
Antes de entregar ao funcionário, leio aleatoriamente um parágrafo só para me certificar de que estou fazendo a coisa certa. Mas a consciência lateja. Me sinto cruel. O fato de o livro ser ruim não me livra de minha maldade inata, de minha ingratidão.
Somente quando me encontro totalmente liberto de sua presença incômoda, volto à rotina. Leio outros livros, escrevo artigos, assisto a bons filmes. E toda vez que vou à banca comprar o jornal em que tenho a coluna, faço-o com a mesma emoção de meu amigo. Coração disparado, olhos embaçados, abro avidamente o jornal para ver se foi desta vez que tratei do livro ruim. Mas não foi.
Não escreverei nada. Nem uma notícia. Quero esquecer o livro. Mas para isso teria que esquecer o amigo que, um mês e meio depois, me telefona, deixando na secretária eletrônica o convite para um jantar na casa dele. Minha secretária liga, avisando que terei uma viagem para fazer e que, assim que estiver livre, marcarei nova data.
Decorrido mais um mês, recebo um novo pacote. Abro e encontro outro exemplar. Nenhuma dedicatória. Apenas o livro com sua cara de mendigo. Dias depois, imprudente, atendo o telefone. É ele. Parece estar meio bêbado. Tímido e correto, não faria isso em outra circunstância. Ouço um programa de auditório do outro lado da linha, enquanto ele reclama que o seu casamento está uma droga. A mulher não tem interesse nenhum por literatura. Veja, não chegou a ler o primeiro capítulo de meu livro. Encabulado, tento mudar o rumo da conversa. Mas as lamentações continuam. Fala de seu filho que morreu e de como o livro o salvou de uma crise de depressão. Você sabe o que é isso, hein? Você sabe o que é perder um filho? Não tenho palavras. E ele ainda recorda os planos que tinha para o menino. Queria para ele uma infância bonita como a nossa, com amizades verdadeiras. Não consigo segurar uma tosse seca. E ele, do outro lado, insiste em nossos laços de amizade. Diz que encontrou fulano na rua, aquele que sempre traía a gente por inveja. Pergunta se eu me lembro dele. Digo que sim. E o amigo pragueja, afirmando depois, falsamente alegre: O desgraçado está rico, é um advogado de sucesso. E eu aqui passando os meus apuros. Você sabe que tive de fechar a loja? Eu só consigo resmungar algo que parece significar: que pena. Mas ele levanta a bola, É isso aí, ainda bem que tenho os amigos.
A conversa termina e eu busco na pilha de livros aquele que espera um elogio meu. Ligo o computador. A tela vazia me olha. Digito: Fulano de Tal escreveu um livro inquietante. Isso era verdade, pelo menos para mim o livro era inquietante. Eu não estava mentindo. Poderia continuar o artigo que seria apenas um resumo do livro, sem afirmar nada. Mas são estas concessões, visíveis para qualquer espírito mais arguto, que fazem com que o crítico perca a credibilidade. Apaguei a frase. No dia seguinte doei o livro para a biblioteca da escola do bairro.
Depois de uma semana, todos os dias chegava mais um volume do livro pelo correio. Eu abria o pacote, último gesto de respeito, e o colocava diretamente no lixo. O amigo tinha resolvido o problema do encalhe. Se eu era o leitor ideal, nada mais lógico do que ser o destinatário de toda a tiragem do romance. Não sei quantas dezenas de volumes recebi. Algumas vezes, tentava ler um ou outro parágrafo. Mas não era possível continuar.
Os meus artigos começaram a ficar estúpidos, perdi o brilho
das reflexões, a graça das frases que sempre compensaram minhas limitações intelectuais. Estava me destruindo. Toda vez que abria um livro para ler era como se estivesse lendo aquele que me perseguia. Logo a capa parecia idêntica. Quando consultava alguma coisa na estante, tinha a impressão de que todos os meus livros eram iguais àquele. E isso me desesperava. Tornei-me amargo com os outros autores. Achei defeitos na obra de Cony, qualquer um faria sucesso tendo atrás de si uma grande editora e toda a mídia subserviente. Vi em Rubem Fonseca o virtuosismo informativo de quem tinha tempo de sobra para vasculhar livros sem significação. Comecei a fuzilar todo jovem talento. Eles não tinham passado por nenhuma situação parecida com a minha, eu que sou filho de analfabetos, leitor de biblioteca pública, agricultor frustrado, eu que não pude contar com a ajuda de ninguém para estudar.
Então percebi que, inconscientemente, estava querendo mostrar ao amigo que sou justo, que sou severo com todos, com os grandes e com os bem sucedidos. Neste dia, escrevi um feroz artigo contra o romance que me perseguia. Chamei-o de piegas, monótono, equivocado na linguagem e na estrutura. Decretei, por fim, a morte definitiva do autor. Nunca passaria de um escrevinhador de final de semana.
Assim que mandei, sem nem revisar, o artigo para o jornal, me esqueci completamente de tudo. Passei a trabalhar com grande entusiasmo, até o dia em que o texto saiu, ilustrado com a foto que ele mandara ao editor. E ele sorria de uma maneira espontânea, confiante. Sorria como no tempo em que éramos crianças.

Publicado no Jornal "Gazeta do Povo", de Curitiba-PR, em 08/12/1997.




domingo, 20 de setembro de 2015

Carlos Heitor Cony, "O Projetor"


No fim de semana chuvoso, o azar de descobrir um defeito no aparelho de som. Comprara alguns DVDs, inclusive a "Missa de Angelis" gravada na Abadia de Solésmes, raridade que procurava há anos. O jeito foi arquivar o desejo de ouvir música.

Fui mexer nuns velhos guardados e descobri o antigo projetor de slides, que julgara desativado. Bastou apertar a lâmpada e ele funcionou. Troquei de brinquedo e arrumei a cangalha num quarto vazio, onde a parede branca esperava as imagens descoloridas de um outro tempo, que vieram mansamente, trazendo farrapos do passado, subitamente iluminados –e tão verdadeiros, tão cruéis em sua verdade, em seu momento que não volta mais.

Aquele sujeito não me é estranho, mas, honestamente, não me lembrava dele. Está um pouco mais magro, o bigode é menos grosso, os cabelos mais fartos e escuros, mas o cachimbo é o mesmo, deve estar no meio dos outros lá na sala. Sim, sou eu mesmo, sentado na amurada de um rio, o tempo descoloriu a paisagem em volta, pode ser o Tibre ou o Vistula, o Sena ou o Tamisa, talvez seja mesmo o Danúbio, numa Viena que me deslumbrou.

Recordações de viagens, escombros de matérias para uma revista, e, no meio de tudo, os instantes de uma casa –a minha casa– no sofá de couro está deitada a mulher, o ângulo da foto mostra-lhe as pernas, grande parte das coxas. Por milagre –ou talvez castigo–, as cores ainda estão vivas e fortes. Devia ficar olhando para sempre aquela foto, tão real e minha –e já fantasma e alheia.

Não devia estar fuçando o passado, perdi a vontade de continuar. Guardei os slides, pensei em jogá-los fora, mas tive pena de mim mesmo e resolvi conservá-los no mais obscuro de mim mesmo. Lúcido e só, amaldiçoei o projetor, cúmplice da memória que ainda dói.

Crônica publicada hoje no Jornal "Folha de São Paulo".


sexta-feira, 13 de março de 2015

Paulo Mendes Campos



 

 

 

 
 
 
 
 "Autobiografia"
 
1922 - Semana de Arte Moderna, revolta do Forte de Copacabana, morte do Papa, o rei entrega o poder a Mussolini. Nada tenho com tudo isso: simplesmente nasço.

1923 - Morre o Rui, Stalin assume a chefia do poder soviético, putch de Hitler em Munique. Eu nada disse, nada me foi perguntado.

1924 - Revolução em São Paulo, estado de sítio. Dou para quebrar minhas mamadeiras, após o ato de esvaziá-las. O califado turco entra pelo cano.

1925 - Começo a ver o diabo dançando em torno de meu berço;e gosto.

1928 - Carmona, presidente de Portugal; Hiro-Hito, imperador do Japão. Ganho um par de botinas e durmo abraçado a elas.

1927 - Com o nome de Charles Lindbergh, atravesso o Atlântico pilotando o Spirit of Saint Louis.

1928 - Antônio de Oliveira Salazar torna-se precocemente ministro das finanças portuguesas; perco na Rua Tupis uma prata de dois mil-réis.


1929 - Craque na bolsa de Nova Iorque. Pulo do bonde em movimento na rua da Bahia, esborracho-me no chão, um Ford último modelo consegue parar em cima de mim, e quase não fico para contar a história.

1930 - Revolução: mesmo com fratura dupla no braço, dou o melhor de mim ao lado das tropas rebeldes e, logo após, ao lado das tropas legalistas. Na caixa d'água da Serra leio "0 Barão de Münchausen".

1931 - A Inglaterra deixa o padrão ouro, Afonso XIII deixa o trono espanhol. Eu, Robinson Crusoé, naufrago no Pacífico, chego a uma ilha cheia de ilustrações coloridas e me torno amigo de Sexta-Feira.

1932 - Revolução de São Paulo. Luto na Mantiqueira, tremendo de frio e de coragem; não tenho muita certeza se morro ou não.

1933 - Morre dentro da banheira o Presidente Olegário Maciel. O Padre Coqueiro vem dizer que as aulas estão suspensas por motivo de luto nacional. Viva Olegário Maciel! Fujo da casa paterna, materna, fraterna, mochila nas costas, em busca dos índios de Mato Grosso; regresso ao atingir as terras da Mutuca, hoje subúrbio de Belo Horizonte.

1934 - Hitler é Führer do Reich; eu não sei se sou Winetou ou Mão de Ferro.

1935 - Mussolini ataca a Abissínia; ataco e defendo no time da divisão dos médios como centro-médio.

1936 - Morre George V, viva Eduardo VIII, que renuncia, sobe ao trono George VI. Ganho com alegria o bilhete azul do colégio.

1937 - O golpe do Estado Novo me pega de surpresa, quando subo as escadas da capela do outro colégio para a benção do Santíssimo e uma prática chatíssima de Frei Mário.

1938 - Os japoneses tomam Cantão; no Hotel Espanhol, São João del-Rei, os bacharelandos do Ginásio de Santo Antônio tomam vinho Gatão e recitam um ditirambo de Medeiros de Albuquerque (estava no florilégio do compêndio): "Bebe! e se ao cabo da noite escura, / Hora de crimes torpes, medonhos, / Varrer-te acaso da mente os sonhos, / Cerra os ouvidos à voz do povo! / Ergue teu cálice, bebe de novo!" Foi o que fizemos.

1939 - Começo a guerra.

1940 - Caio com a França.

1941 - Não sou mais eu:

1) sou como o rei de um país chuvoso;
2) sou uma nuvem de calças;
3) sou 350;
4) sou triste e impenetrável como um cisne de feltro. E assim por diante.

1942 - Atingido pelo mal do século (XVIII), mato-me no Parque Municipal. Meu nome é Werther.

1943 - Venço a batalha de Stalingrado.

1944 - Maquis.

1945 - Tomo o noturno mineiro e me mudo para o Rio, acabo com a ditadura.


1946 - 1955 – Yo era un tonto.

1956 - 1960 - Lo que hé visto me ha hecho dos tontos.


1961 - Subo no espaço sideral, dou uma volta em torno da Terra na primeira nave cósmica tripulada por um ser humano. Depois desço no Bico de Lacre, bar dos mentirosos e sonhadores, e digo: "O Mundo é azul.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Dr. Drauzio Verella, "A felicidade de Margô"


    
Quando voltou para casa às quatro da madrugada, Margô estava feliz como quase nunca.

–Eu devia ter desconfiado. Felicidade, assim, na minha vida?

Nascida na periferia de Feira de Santana, havia experimentado com a mãe e os quatro irmãos as agruras da penúria, desde que o pai decidiu tentar a sorte em Serra Pelada e sabe lá em quantos garimpos do Norte.

Aos oito anos, conseguiu emprego de doméstica. Na casa dos patrões varria, tirava pó, arrumava as camas, lavava os banheiros e o quintal.

–Se a patroa passasse a mão numa prateleira e encontrasse um cisco ia me buscar pela orelha.

Quando completou 15 anos, um vizinho a surpreendeu com a boca no sexo de um rapaz das redondezas. A vida virou um inferno:

–Debochavam e me xingavam na rua. A molecada me passava a mão na bunda e corria.

Intimidada, trancou-se em casa, mas quando saía para o trabalho não escapava das agressões, que suportava calada. Na tarde em que xingou a mãe de três marmanjos que a humilharam quando passou na frente de um botequim, apanhou até ficar com o rosto deformado.

O episódio causou tamanha revolta em seu espírito, que resolveu andar com uma faca de cozinha no cinto.

Duas semanas mais tarde, viu dois dos agressores na porta do mesmo bar. Mudou de calçada, mas eles atravessaram a rua, queriam saber se a putinha não tinha ficado feliz com os carinhos recebidos.

De cabeça baixa, ela tentou seguir em frente, mas eles impediram. O mais magro caiu na primeira facada, o outro ainda quis reagir antes de levar a segunda.

Margô fugiu para Salvador, atrás da boate em que trabalhava uma amiga de infância, a única pessoa que conhecia na capital.

Em Salvador, as duas foram presas por assaltar clientes que atraíam para as espeluncas mais sórdidas da cidade baixa. Passou dois anos e oito meses em celas apinhadas.

Seis meses mais tarde, estava presa outra vez. Pegou três anos. Libertada, veio para São Paulo.

–Tinha que mudar, vivia metida em confusão. Não levava desaforo para casa. A polícia não largava do meu pé.

Na cidade grande, começou a vida na prostituição de rua. Não lhe faltavam clientes. Morava com quatro colegas de trabalho, num prédio decadente na esquina da General Osório com Santa Ifigênia, no coração da antiga Boca do Lixo.

Passou mais uma temporada na cadeia. Quando saiu, jurou que nunca mais voltaria para trás das grades.

Amparada pelos dotes físicos, pôde frequentar um inferninho nas imediações da Augusta. Com o acesso à clientela mais endinheirada, alugou uma quitinete para ficar distante das fofocas e das contravenções das companheiras de moradia.

Uma noite, o dono da boate lhe fez uma oferta:

–Você é a única da casa que não usa cocaína. Trabalha aqui há dois anos e nunca deu alteração. Estou precisando de ajuda.

Margô quase caiu de costas quando recebeu o convite para gerenciar a casa. Aos 35 anos, teria carteira assinada e um salário quase igual ao da prostituição.

No primeiro dia colocou o vestido mais festivo e chegou na boate bem antes de abrir. Recebeu as orientações do patrão e uma mesa no escritório dos fundos.

–Uma mesa cheia de gavetas só para mim.

Estava radiante no caminho de casa às quatro da madrugada daquele dia. Empolgada com o trabalho, só lembrou da fome quando passou pelo bar da esquina de casa. Sentou num banquinho do fundo do balcão e pediu peito de frango grelhado, com arroz e salada de tomate, o prato predileto.

Nessa hora entrou Bentão, ex-policial que extorquia os comerciantes da área. Com andar de bêbado, veio na direção dela:

–Onde pensa que vai o veado com esse vestido de lantejoula?

Margô abaixou a cabeça, brigar naquela noite era o que menos desejava. O brutamontes insistiu:

–Não vou com a tua cara, seu traveco de merda.

Ela continuava cabisbaixa quando levou o soco que lhe abriu o supercílio. Sangrando, correu para a quitinete, sentou na cama e chorou feito criança.

–Logo quando eu estava feliz.

Tinha um lenço amarrado na testa quando voltou ao bar. Entretido com o copo de conhaque, o ex-policial só se deu conta da aproximação quando o punhal lhe penetrou as costas pela primeira vez.


Crônica publicada no jornal "Folha de São Paulo", em 24 de janeiro de 2015.

domingo, 9 de novembro de 2014

Ruy Castro














"O falso Fla-Flu"

RIO DE JANEIRO - Vários analistas tacharam de "Fla-Flu" a campanha presidencial. Referiam-se à troca de acusações, mentiras, calúnias, rasteiras e golpes baixos, equiparando-a em ferocidade à que supostamente se dá entre as torcidas mais tradicionais do Brasil: as de Flamengo e Fluminense. Como Flamengo que sou, discordo. Em 102 anos de rivalidade, rubro-negros e tricolores nunca se rebaixaram ao nível que observamos nos últimos três meses.

O Fla-Flu não é uma guerra. É uma celebração, uma festa, um Carnaval comum às duas torcidas. É um embate de adversários, não de inimigos. Pela riqueza de suas cores e bandeiras nas arquibas, o Fla-Flu é também o mais belo espetáculo de futebol do mundo –segundo todos os turistas que já levei ao Maracanã para assisti-lo. E essa afinidade não é de hoje.

O Flamengo nasceu em 1895 como um clube de regatas; o Fluminense, em 1902, como um de futebol. O presidente do Flamengo assinou a ata de fundação do Fluminense; pouco depois, um fundador do Fluminense foi presidente do Flamengo. Os clubes eram vizinhos na rua Paissandu. O futebol do Fluminense torcia pelo Flamengo no remo e vice-versa. Em fins de 1911, um grupo de jogadores do Fluminense rebelou-se contra sua diretoria, deixou o clube e levou seu futebol para o Flamengo. A 12 de julho de 1912, os dois se enfrentaram pela primeira vez. Surgia o Fla-Flu.

A maior crônica sobre o Flamengo, "Flamengo sessentão", de 1955, foi escrita por um tricolor: Nelson Rodrigues, cujo segundo clube era o Flamengo. O Fla-Flu de 1963 reuniu 177.020 pagantes no Maracanã, sem uma briga, um bofetão. Eu próprio sou casado há 24 anos com uma tricolor, e também sem uma briga, um bofetão. E por aí vai.

Se disserem que a guerra Dilma x Aécio lembrou um Vasco x Flamengo ou Flamengo x Botafogo, não terei nada a opor.

Crônica publicada no jornal "Folha de S. Paulo" em 09/11/2014.

 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Ferreira Gullar

 













"Ouvir vozes"

          O poeta Décio Victorio, meu velho e querido amigo que você não conhece, que quase ninguém conhece e que não quer ser conhecido, trabalhou certa época como acompanhante de pacientes do Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro. Trabalhava no pátio da clínica, onde os internados passavam boa parte do dia entregues a suas fantasias, falando sozinhos ou andando à toa. Décio, responsável e solidário, fazia tudo para ajudá-los, e foi com esse propósito que pediu a Aniceto que lhe fizesse um terno. Aniceto fora alfaiate de profissão até o dia em que a mulher o abandonou e ele sofreu um surto que já durava 20 anos. Ele aceitou a proposta de Décio, que, no dia seguinte, já lhe entregava um corte de brim para que pusesse mãos à obra. Ocorreu que, naquele mesmo dia, um avião passou sobre o pátio e “disse” a Aniceto que o paciente sentado ali a seu lado é que tinha lhe roubado a mulher. Sem hesitar, o alfaiate traído saltou sobre o acusado, disposto a estrangulá-lo. Os enfermeiros acudiram e, depois de dominá-lo, aplicaram-lhe um sossega-leão.

           Como advertia minha avó Teca, não se deve dar crédito a tudo o que se ouve, especialmente se dito por um avião. Mas esse é um conselho a que as pessoas não costumam dar ouvidos. Já antes de Homero, os gregos atribuíam aos oráculos o dom de não só dizer a verdade como até de adivinhar o futuro. Às vezes eram as sibilas, que falavam coisas incompreensíveis, mas, antes delas, o povo dava ouvidos ao rumorejar das águas de um riacho que corria entre as raízes de um carvalho e até mesmo ao farfalhar das folhas desse carvalho tido como sagrado. Ali estava um sacerdote para decifrar a mensagem das águas ou dos ramos, como também decifrava o que diziam, em transe, as sibilas do Oráculo de Delfos.

           Mas de onde vem essa crença de que vozes incompreensíveis estão dizendo verdades? Talvez venha da necessidade que temos de conhecer a verdade última, de antever o futuro, de decifrar o mistério da existência. Essa é uma questão complicada que envolve a própria natureza da linguagem verbal, veículo do logos; essa linguagem, que torna inteligível o real, não satisfaz entretanto nossa necessidade de decifrá-lo e, por isso, quem sabe nos induza a admitir que a linguagem hermética contém a expressão do mistério – seja a expressão dele. De qualquer modo, por ser hermética, necessita de um tradutor, ou seja, do sacerdote que diz entendê-la e decifrá-la.

           Essa pode ser a razão por que, não apenas a gente simples acreditava no que diziam os oráculos, mas também um filósofo como Heráclito de Éfeso para quem, naquela voz, falava um deus: “E a Sibila que, de sues lábios delirantes, diz coisas sem alegria, sem ornamento e sem perfume, atinge com sua voz além de mil anos, graças ao Deus que nela está.”é certo também que, num aforismo seguinte, ele adverte que “os olhos são testemulhas mais exatas que os ouvidos”.

           Os ouvidos enganam, nos dão a possibilidade de crer no inexplicável, o que é um modo, senão de entendê-lo, ao menos de assimilá-lo. Assim, acreditamos que certos ruídos ou sons naturais também são manifestações de alguma entidade superior. Para nossos índios, por exemplo, o trovão era a voz de Tupã, uma manifestação de sua zanga, enquanto para outras gentes, os uivos do vento nas noites de tempestade soavam como os lamentos de almas penadas. O temor pode nos vir também da garganta de um pássaro, como por exemplo daquele que, na São Luís de minha infância, era conhecido por Rasga Mortalha e que passava gritando assustador, à noite, sobre o telhado de nossa casa.

           Dependendo de quem as ouve, muito podem as palavras, especialmente quando ditas por um corvo (Never more) que fale inglês ou por um papagaio que fale tupi-guarani, como no caso que nos conta Pedro de Magalhães Gandavo em sua “História da Província Santa Cruz” (1576). Os guerreiros de uma tribo invadiram uma aldeia inimiga, trucidando seus moradores, mas quando já estavam a um passo da vitória definitiva, ouviram algumas palavras ditas por um papagaio, tomaram-se de pavor e saíram correndo todos.

           É verdade que o avanço do conhecimento empírico, a descoberta das causas dos fenômenos naturais, veio pouco a pouco calando aquelas vozes, retirando-lhes o significado oracular ou meramente assustador. Os poetas – e os pirados - , não obstante, continuam a dar a elas outros significados que os dos oráculos ou, no dizer de Mallarmé, emprestam “um sentido novo às palavras da tribo”. Augusto dos Anjos, com freqüência, ouvia a voz do próprio incriado, a que chamou de “Último Número”, o qual, atro e subterrâneo, bradou a seus ouvidos: “Não te abandono mais, morro contigo”.

           Eu também, modéstia à parte, às vezes ouço vozes, muitas vozes, mas nada assustadoras: vozes inofensivas de perfumes e manhãs, de sabores, de olhares, de peles, de um roçar de cabelos – um alarido que me dorme abafado no corpo. Os poetas não são sacerdotes, mas podem à sua maneira entender o que fala o vento nas folhas, como Fernando Pessoa, para quem “a brisa / nos ramos diz / sem o saber / uma imprecisa / coisa feliz”.

 
Crônica publicada no jornal Folha de São Paulo, em 13 de novembro de 2005.
 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Manuel Bandeira, "Pardais novos"


Um dia o meu telefone, instalado à cabeceira de minha cama, retiniu violentamente, às sete da manhã. Estremunhado tomei do receptor e ouvi do outro lado uma voz que dizia:

Mestre, sou um pardal novo. Posso, ler-lhe uns versos par que o senhor me dê a sua opinião?

Ponderei com mau humor ao pardal que aquilo não eram horas para consultas de tal natureza, que ele me telefonasse mais tarde. O pardal não telefonou de novo: veio às nove e meia ao meu apartamento.

Mal o vi, percebi que não se tratava de pardal novo. Ele mesmo como que concordou que o não era, pois perguntando-lhe eu a idade, hesitou contrafeito para responder que tinha trinta e cinco anos. Ainda por cima era um pardal velho!

Desde esse dia passei a chamar de pardais novos os rapazes que me procuram para mostrar-me os seus primeiros ensaios de voo no céu da poesia. Dizem eles que desejam saber se têm realmente queda para o ofício, se vale a pena persistir, etc. Fico sempre embaraçado para dar qualquer conselho. A menos que se seja um Rimbaud ou, mais modestamente, um Castro Alves, que poesia se pode fazer antes dos vinte anos? Como Mallarmé afirmou certa vez que todo verso é um esforço para o estilo, acabo aconselhando ao pardal que vá fazendo os seus versinhos, sem se preocupar com a opinião de ninguém, inclusive a minha.

A semana passada recebi carta, não de um pardal, mas de uma pardoca. De urna pardoquinha. Com dezesseis anos, que beleza! Mandava-me versos não só em português, mas em francês também e inglês. Havia qualquer coisa naqueles balbucios. O francês estava bem erradinho, mas o inglês não, e até saiu bonitinho. Respondi-lhe assim:

Dos poemas que você me mandou o melhor está no próprio texto de sua carta e é isto:

Tenho dezesseis anos
Estou cursando o 1.° cientifico
E fico eufórica sempre que escrevo algo.

Se você se sente eufórica quando escreve alguma coisa, vá continuando a escrever, pelo só prazer de escrever, que já não é pouco.

Dezesseis anos! Que idade risonha e bela, não, leitores?

domingo, 18 de maio de 2014

Carlos Heitor Cony, "Assanhamento"

 
       Nas últimas semanas, diariamente, as primeiras páginas dos nossos jornais e as primeiras chamadas dos noticiários da televisão, com certa monotonia e uma incerta crítica às nossas autoridades, revelam dúvidas e lamentações contra a Copa do Mundo.

Nunca antes um evento que tradicionalmente mexe com a alma e o corpo dos brasileiros, mesmo daqueles que detestam o futebol, criou um suspense tão sinistro.

Como reagirá o povo antes e durante a realização dos jogos e diante da massa de torcedores de todo o mundo? Na melhor das hipóteses, haverá euforia desenfreada se o Brasil conseguir o hexa. Digamos que no primeiro jogo, a Croácia vença ou empate com a seleção de Felipão. Pronto. Chegaram os dias anunciados pelo "Apocalipse", por Nostradamus e por uma porrada de profetas do Velho e do Novo Testamento.

Dona Dilma, apesar de não ser profetiza nem do Velho nem do Novo Testamento, apelou para a decantada fama da hospitalidade nacional, para o homem cordial louvado por alguns sociólogos.

Acontece que o brasileiro comum nada tem de cordial. Tem o assanhamento herdado dos nossos índios quando viram no horizonte as caravelas de Pedro Álvares Cabral.

Pulando de Cabral para Charles Dickens (1812-1870), lembro um de seus maiores personagens. Mister Pickwick aconselhava seus discípulos: "Quando encontrarem uma multidão gritando 'viva' ou 'morra', gritem com a multidão".

Um espírito de porco perguntou: "E se encontrarmos duas multidões, uma gritando 'viva', outra gritando 'morra'?" O mestre ensinou: "Então gritem com a multidão que gritar mais alto".

Dona Dilma deve seguir o conselho de Pickwick: esquecer a hospitalidade do homem brasileiro e enfrentar a realidade. E torcer para que Neymar e Fred façam bastantes gols.
 
Crônica publicada no jornal "Folha de São Paulo" em 18/05/2014. 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

João Ubaldo Ribeiro, "O negro e o macaco"


 Defender a existência de uma única cultura africana ou negra é insultuoso, ignorante e racista.

 Uma das mais clamorosas - e para mim enervantes - manifestações do atraso da espécie humana é esse negócio de raça. A importância que damos à raça, a ponto de odiar-se, matar-se e morrer-se por causa dela, leva inevitavelmente ao lugar-comum: seria ridícula, se não fosse trágica. É difícil encontrar um assunto sobre o qual se digam tantas besteiras quanto este, sempre ignorando não só evidências antropológicas como dados da própria realidade cotidiana. E é também bastante difícil falar sobre ele ou debatê-lo. Muita gente perde o controle, espuma de raiva e afoga o debate em gritos e denúncias.

Começa pela ligação, que aqui sempre se faz, entre escravidão e raça. Falou em escravos, falou em negros. Mas a maior parte dos escravos na história da humanidade não era de negros, o que lá seja isto. A escravidão, para generalizar razoavelmente, era o destino dos vencidos de qualquer raça, que não fossem exterminados. Inclusive, é claro, pois do contrário é que não seriam humanos, os da raça negra vencidos por outros da mesma raça, caso dos escravos vendidos ao Brasil. É comum a noção de que “negro é negro”, como se as incontáveis etnias negras se considerassem iguais. Isso equivale a entender que um alemão é igual a um polonês, um sueco igual a um italiano ou um espanhol igual a um russo. Não pode haver disparate maior - e, se bem olhado, racista  - do que achar que, num continente gigantesco e diversificado como a África, todos os negros são iguais e, mais bobamente ainda, irmãos. Irmãos em Cristo e, assim mesmo, se não forem muçulmanos. Vão perguntar se as minorias negras massacradas por nações também negras se consideram irmãs de seus algozes, ou estes daquelas. Ou aos escravos negros de outros negros, situação até hoje existente na África. Há até quem se escandalize com guerras e genocídios entre nações negras. Ué, e guerra de branco contra branco?

Desculpem se atropelo argumentos, mas é que o assunto me deixa nervoso também e me dá uma certa exasperação. Agora me ocorre interromper o que vinha dizendo para lembrar outra prática enervante: falar em cultura africana. Não existe, nem pode existir, uma cultura africana, em nenhum sentido. Aplica um reducionismo grotesco aquele que - e lembro outra vez o tamanho e a complexidade da África - acha que só existe uma cultura negra ou africana. De novo, é um argumento que, se bem olhado, pode ser considerado racista. Existe a cultura africana dos povos a que pertenciam os que foram trazidos para o Brasil como escravos, o que é muito diferente de dizer que ela é “a cultura africana”. Experimentem convidar um zulu para jantar e servir a ele comida ioruba, como na Bahia. Defender a existência de uma única cultura africana ou negra é insultuoso, ignorante e racista.

Aplicar padrões sociológicos americanos para o problema, no Brasil, é outra prática difícil de aturar. E faço a ressalva sempre exigida de que claro que no Brasil há racismo, patati-patatá. Mas a Bahia não é o Alabama. Já na década de 60, um casal, numa das Virgínias do Sul dos Estados Unidos, foi condenado a dois anos de prisão porque era inter-racial, ou seja, um dos dois era negro. As Forças Armadas só foram integradas na Guerra da Coreia e qualquer um que tenha vivido nos Estados Unidos sabe que lá é diferente e ou criamos nossas próprias categorias para examinar nossa realidade, ou prosseguiremos macaqueando até mesmo o racismo alheio.

Escrevi “macaqueando” aí em cima, sem de início lembrar a alusão a macacos em recentes incidentes de racismo no futebol. Mas ela vem a calhar, nesta salada que estou servindo hoje. É curioso como não paramos para pensar e notar que, quesito por quesito, algum racista negro teria razões para alegar que macaco é o branco e não o negro, o qual pode ser visto como muito mais distante do macaco que o branco. Se é verdade, não sei, nem isto tem importância alguma, mas pensem aqui num par de coisas. Imaginem, por exemplo, um ser inteligente de outro planeta, portanto não sujeito aos nossos condicionamentos, a quem incumbíssemos de esclarecer qual das duas raças é mais próxima do macaco. Para tanto, poríamos diante dele um branco nu, um negro nu e um chimpanzé, nosso primo próximo.

O primeiro impacto talvez fosse a cor e, de fato, o pelo do chimpanzé, assim como a pele do negro, é preto. Mas o bom observador não ia deixar-se levar por essa aparência. Façamos um exame cuidadoso e uma listazinha, junto com ele. O macaco é todo coberto de pelos, o corpo do negro é glabro, o branco pode ser o Tony Ramos; os pelos do macaco são lisos, os cabelos do branco também, os cabelos dos negros são crespos; raspado o pelo, a pele do macaco por baixo se revela branca e não preta; os lábios do macaco são finos, os do branco também, os dos negros são grossos; o macaco não tem bunda, o branco tem bunda chata, o negro tem bunda almofadada; até - perdão, senhoras - os renomados atributos masculinos dos negros são mais distantes do macaco, que é tipo piu-piu. Como se vê, basta escolher o que se quer levar em conta e, pelo menos neste exemplo perfeitamente plausível, o extraterrestre poderia concluir que o branco está bem mais perto do macaco que o negro.

Tudo bobagem, discussão que não leva a nada, somente ao ódio e à intolerância. Vamos parar de procurar modelos, ao menos nisto não sejamos tão colonizados, não permitamos que mais lixo contamine nosso pensamento. Os americanos é que têm obsessão por raça (lá nós, brasileiros, somos “hispânicos”), nós temos é a glória e o privilégio de ser o único país em que homens e mulheres de todas as raças se misturaram e misturam e onde a raça, Deus há de ser servido, ainda terá o lugar que merece, ou seja, nenhum.


(Publicado no jornal "O Globo".)

domingo, 19 de janeiro de 2014

Carlos Drummond de Andrade, "A Educação do Ser Poético"

 
Por que motivo as crianças, de modo geral, são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo?
Será a poesia um estado de infância relacionada com a necessidade de jogo, a ausência de conhecimento livresco, a despreocupação com os mandamentos práticos de viver – estado de pureza da mente, em suma?
Acho que é um pouco de tudo isso, se ela encontra expressão cândida na meninice, pode expandir-se pelo tempo afora, conciliada com a experiência, o senso crítico, a consciência estética dos que compõem ou absorvem poesia.
Mas, se o adulto, na maioria dos casos, perde essa comunhão com a poesia, não estará na escola, mais do que em qualquer outra instituição social, o elemento corrosivo do instinto poético da infância, que vai fenecendo, à proporção que o estudo sistemático se desenvolve, ate desaparecer no homem feito e preparado supostamente para a vida?
Receio que sim.
A escola enche o menino de matemática, de geografia, de linguagem, sem, via de regra, fazê-lo através da poesia da matemática, da geografia, da linguagem.
A escola não repara em seu ser poético, não o atende em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento e o mundo.
Sei que se consome poesia nas salas de aula, que se decoram versos e se estimulam pequenas declamadoras, mas será isso cultivar o núcleo poético da pessoa humana?
Oh, afastem, por favor, a suspeita de que estou acalentando a intenção criminosa de formar milhões de poetinhas nos bancos da escola maternal e do curso primário.
Não pretendo nada disto, e acho mesmo que o uso da escrita poética na idade adulta costuma degenerar em abuso que nada tem a ver com a poesia.
Fazem-se demasiados versos vazios daquela centelha que distingue uma linha de poesia, de uma linha de prosa, ambas preenchidas com palavras da mesma língua, da mesma época, do mesmo grupo cultural, mas tão diferentes.
Se há inflação de poetas significantes, faltam amadores de poesia – e amar a poesia é forma de praticá-la, recriando-a.
O que eu pediria à escola, se não me faltassem luzes pedagógicas, era considerar a poesia como primeira visão direta das coisas e, depois, como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade poética.
Não seria talvez despropositado cuidar de uma extensão poética das escolinhas de arte, esta ideia maravilhosa que Augusto Rodrigues tirou de sua formação humana de artista para a realidade brasileira. Longe de ser uma fábrica alarmante de versejadores infantis, essa extensão, curso ou atividade autônoma, ou que nome lhe coubesse, daria à criança condições de expressar sua maneira de ver e curtir a relação poética entre o ser e as coisas. Projeto de educação para a poesia (fala-se hoje em educação artística no ensino médio, quando o mais razoável seria dizer educação pela arte).
A vocação poética teria aí uma largada franca, as experiências criativas gozariam de clima favorável sem que tal importasse na obrigação de alcançar resultados concretos mensuráveis em nível escolar.
Sei de casos em que um engenheiro, por exemplo, aos 30, 40 anos, descobre a existência da poesia…
Não poderia tê-la descoberto mais cedo, encontrando-a em si mesmo, quando ela se manifestava em brinquedos, improvisações aparentemente absurdas, rabiscos, achados verbais, exclamações, gestos gratuitos?
Alguma coisa que se bolasse nesse sentido, no campo da Educação, valeria como corretivo prévio da aridez com que se costuma transcrever os destinos profissionais, murados na especialização, na ignorância do prazer estético, na tristeza de encarar a vida como dever pontilhado de tédio.
E a arte, como a educação e tudo o mais, que fim mais alto pode ter em mira senão este, de contribuir para a educação do ser humano à vida, o que, numa palavra, se chama felicidade?
 
Publicado no Jornal do Brasil, Rio de Janeiro – em  20 / 07 / 1974.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Ruy Castro, "O País da libações"


Somos bons para fabricar bebida – o que o Brasil produz anualmente de cerveja e cachaça daria para fazer do Saara um oceano – e para consumi-la. A todo dia e hora, a TV martela a mensagem de que tomar cerveja nos garante a eterna juventude e uma eufórica vida à beira-mar, rodeados de amigos e mulheres. Nesses comerciais, ninguém fica de porre ou de ressaca e, muito menos, vomita.

Neles, ninguém sai do botequim ou do quiosque com dez garrafas de cerveja no tanque, pega o carro, dribla a blitz da Lei Seca e manda para o céu os incautos que se puseram na rota do bólido. Ninguém volta para casa trocando as pernas e, ao ser repreendido pela mulher, acerta-lhe uma bolacha ou tenta esganá-la para restabelecer a moral no lar. E ninguém é menor, nem conta com garçons que lhe servem bebida na calçada. Ninguém sequer urina na árvore.

Somos bons para fabricar e consumir, mas péssimos para tomar medidas que compensem os efeitos dessa interminável libação. Responsáveis por acidentes de trânsito com mortos e feridos podem ser condenados, mas continuam à solta e ao volante. Somos ineficientes para calcular a incidência do álcool nos casos de violência doméstica, embora se suspeite que chegue a 99%. E quantos de nós sabemos a quem encaminhar um amigo ou parente com um nítido problema alcoólico?

Assim como o poder público conseguiu convencer os fabricantes de cerveja a bancar parte dos gastos com banheiros químicos no Réveillon e no Carnaval, poder-se-ia exigir deles algo semelhante quanto à prevenção.

Digamos: uma taxa –paga por eles– sobre cada garrafa, para a produção de comerciais em que seus clientes viveriam as situações descritas acima: urinando na rua, vomitando os bofes, batendo com o carro, espancando a mulher ou sofrendo com dor de cabeça. O Brasil se reconheceria nesses filmetes.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Rubem Braga, "Homem no mar"


De minha varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.

Mas percebo um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele. Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda sua substância é água e vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo seu corpo a transportar na água.

Ele usa os músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma, sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o movimento alternado de seus braços. Mais uns cinqüenta metros, e o perderei de vista, pois um telhado a esconderá. Que ele nade bem esses cinqüenta ou sessenta metros; isto me parece importante; é preciso que conserve a mesma batida de sua braçada, e que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse homem me faz bem. 

É apenas a imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os traços de sua cara. Estou solidário com ele, e espero que ele esteja comigo. Que ele atinja o telhado vermelho, e então eu poderei sair da varanda tranqüilo, pensando — "vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção; esperei que ele atingisse um telhado vermelho, e ele o atingiu".
Agora não sou mais responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.

Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Zuenir Ventura, "Como tenho inveja das amendoeiras"


Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas eram, mas indianas, como eu acabara de saber.

Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos, se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo.

Eu sabia que o flamboyant tinha vindo da França, que a casuarina era africana e a palmeira imperial, portuguesa, não era verdade? Não, não era. A primeira é oriunda de Madagascar, a segunda da Austrália e a terceira do Caribe.

Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo fazem questão de manter e cuidar até hoje.

Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também renascem.

A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.

Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido, e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de descobrir um estranho passarinho”.

Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.

 (Publicada no blog do Noblat).

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vinícius de Moraes, "Encontros"

(Publicado no O Correio da Manhã, em 1940).

Meu primeiro encontro, em Poesia, depois das inelutáveis influências da juventude, foi o de Murilo Mendes. A fase da imitação declinava lentamente, à medida que os poetas melhoravam.
Discípulo ardente de Júlio Dantas, tendo escrito aos 14 anos um poema chamado "Os três amores", passei por Guerra Junqueiro em branco. Julgava-o um grande filósofo mais que um poeta, e temia-lhe o tom blasfemo. É que não lera ainda Os simples, onde está o melhor do seu lirismo. Nessa ocasião, fiz do sr. João Lira Filho mentor espiritual. Dei-lhe Foederis arca para ler. A Arca em aspas era um livrão de capa preta onde ia pondo os versos que me pareciam razoáveis. O sr. João Lira Filho não se agradou da poesia. Deu-me uns conselhos: que eu deixasse daquilo, que poesia era "frescura" e "abandono", que meus sonetos eram "muito ruins" e só as trovinhas "onde você procura imitar Adelmar é que são mais ou menos". A palavra "abandono" que interpretei mal, feriu-me a suscetibilidade juvenil. Larguei do sr. João Lira Filho e do seu mestre da Academia e dei com Guilherme de Almeida. Aquilo é que era poeta! Como é que o homem fazia aquelas coisas, que perfeição!

O relógio de mogno, grave, enorme
Dorme

Meu olhar se concentrava sobre a magia da palavra "mogno". Se me perguntassem o que era Poesia, eu diria que era aquela palavra feiticeira. Lembro-me que fiz um verso onde falava "em teus seios de mogno e teus lábios de écran". Meus poemas redundavam em diálogos sutilíssimos entre a amada e eu, passavam-se sempre numa casa de chá elegante ou num ônibus de luxo, tinham de Toi et moi, que felizmente só vim a ler mais tarde.
Castro Alves e Bilac não me fizeram grande impressão. Li-os apressadamente, sem que me tivessem marcado muito. A poesia paterna, que encontrara numa gaveta velha em casa, foi a minha grande decisiva influência. Desejei imenso fazer versos assim, versos de amor, despidos das idéias grandiloqüentes que assustavam no vate baiano e do brilho de joalheria que cegava no artífice da "Via Láctea".

Junto de ti, ó minha amada
Passam-se os dias a voar
Se longe estou, como apressada
Minha alma à tua quer chegar!

Posso citá-los ainda de cor. Causaram-me inveja e me fizeram sofrer. Pensei que nunca poderia ser poeta.
Chorei. Cheguei ao furto. Uma vez mostrei a alguns conhecidos um que me parecia o melhor, como se fora meu. Assinei meu nome embaixo. Na noite desse dia tive uma das maiores crises por que já passei neste meu fadário. Pensei pela primeira vez em me suicidar.
Depois, fui crescendo, como acontece na vida. Na Faculdade de Direito entrei em pasmo contacto com os grandes do CAJU, o centro da elite da escola. Era garoto e andava fardado de aspirante a oficial da reserva. Foi uma época rica e dolorosa, de lutas íntimas, de descobertas gloriosas, de ânsia e aspiração infindáveis. Otávio de Faria e San Thiago Dantas, dois dos nomes de maior projeção acadêmica, discutiam problemas de Poesia no Café do Areal. Ouvia quieto, mas com um ouvido gigante, as sentenças misteriosas, ditadas sabe Deus por que demônio, que na boca de San Thiago se prestigiavam de uma claridade que para mim tinha algo de sobrenatural, e que Otávio de Faria fazia sombrias, dilacerantes. A um devo uma amizade que através de tanta coisa vivida tem se mostrado sempre boa e generosa, amável no cotidiano mas atenta nos momentos difíceis. Ao outro devo a Amizade.
Foram esses dois homens que me iniciaram nos mistérios da Poesia. Falavam em Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt. San Thiago Dantas lembrava-se às vezes do derradeiro:

O filósofo é como o galinho branco, pequenino, dormindo...

Eu pensava. Que não seria aquilo tudo? Filósofo... galinho branco... Realmente, uma sugestão qualquer, branca, assim como um idéia branca, a idéia branca de um filósofo, Platão, sei lá. Palmo a palmo conquistava a compreensão do incompreensível. Um dia ouvi um nome: Baudelaire. Outro: Rimbaud. Mais outro: Mallarmé. Outro ainda: Verlaine. E pus-me a ler.
Mas isso não vem ao caso. Com Murilo Mendes a coisa foi assim: achava-me passeando com Otávio de Faria pela Praia do Flamengo. De repente ele produziu uma brochura branca, quase quadrada, com o título Poemas em caracteres negros. Era Murilo Mendes. Minhas mãos estavam virgens ainda de qualquer nova poesia brasileira. Minha emoção foi grande.
Fiz perguntas, como era, como não era. Lemos alguns poemas juntos. Otávio criticava, de dentro da admiração real pelo poeta. Travei conhecimento com a questão do "sublime" e do "cotidiano" em Poesia. Ponderei coisas. Coisas me foram ponderadas.
Em casa li o livro até de manhã. Achei-o magistral em tudo, até no que tinha de artifício. A primeira impressão que o poeta me deu é de que vivia num espaço cristalizado em ângulos onde anjos cubistas salmodiavam ao som de saxofones. Todas essas adolescentes burguesas geométricas, essas meninas em eterna projeção e prolongamento, movia-as o poeta, transformado em mágico, como a novos títeres, através de versos como fios metálicos, num cenário fantástico de metrópoles cônicas, paisagens elásticas, ao som de melodias penetrantes.
Mais tarde, já com o primeiro livro publicado, conheci o poeta na Avenida, por intermédio de Otávio. Vinha deblaterando, o dedo em riste, uma gravata vermelha, o rosto azul de entalhe magro dignificado por uma testa vasta e dolorosa. Pôs-me a mão no ombro, depois me abraçou com longos braços dançarinos. Senti a imediata cordialidade do artista, a sua ânsia de comunhão. Disse-me palavras reconfortantes, de longe ainda me gritava coisas, escandalosamente.
Via-o depois em concertos, em conferências, ora mergulhado na música, ora apontando ondulante de uma multidão, a me enviar mensagens periódicas de fraternidade com a mão espantosa, quebradiça e exangue. E desde sempre Murilo Mendes foi um amigo. Ouço muito falar mal dele, de seu espírito fantástico, da teatralidade com que vive. Eu próprio já tenho sentido certa má-vontade - a minha má vontade de animal razoável - contra o poeta nos seus momentos de irrisão declamatória. Mas que me deixem dizer: a par de ser um grande poeta brasileiro, com um modo pessoalíssimo para a Poesia, Murilo Mendes é um puro e um coração bom, não direi como a água, de que não gosto, mas como o uísque.
Com Augusto Frederico Schmidt foi diferente. Já em meio à primeira experiência poética, juntando os poemas que iriam dar O caminho para a distância, li Navio perdido. Tinha do poeta uma idéia que me perturbava um pouco. Ouvia falar dele como se fala dos gênios. Alguém sem pé nem cabeça, a quem não se leva muito a sério no que diz, uma pessoa variável, inconstante, passeando pela vida uma grande alma insatisfeita, ferida de Poesia. Dizia-se que o poeta era assim e o homem assado, que a vida do homem não traduzia a obra do poeta, a sua extraordinária mensagem lírica. Mensagem... o termo me pegou em cheio. Achei que mensagem é que era. Adotei mensagem. Quando Aporelli mexia com o bardo, aproveitando-se das suas levitações poéticas, eu me enfezava, achava um desrespeito, embora bem que risse. Navio perdido passou a ser o meu livro. Sentimentos comuns em face da Poesia, a vocação do "sublime", causa de que me fizera paladino, me aproximavam muito de Schmidt. Contudo, não gostei quando os críticos acharam grande semelhança de tons entre as duas poesias. Eu queria era ser pessoal, tinha uma vaidade danada disso. Pensava que ficar como continuador do lirismo schmidtiano era muita honra, mas não para mim. Minha extrema mocidade não admitia senão uma linha de frente geral. Todo mundo junto.
Um artigo de Manuel Bandeira me deixou louco. Hoje, pensando nessas coisas, dá-me uma grande ternura por mim mesmo. Que menino esplêndido eu era! Manuel Bandeira (isto é, o inimigo de então, o chefe da poesia do "cotidiano") ousava escrever, colocando meu livro do lado de vários outros, que eu realmente tinha vocação poética, mas que precisava muito abandonar o "tom schmidtiano", metrificar minhas linhas, deixar de muitas facilidades com o verso livre, que só é bom na mão dos mestres.
Como fiquei queimado! Achei que você não entendia nada de Poesia, Manuel, que você não era o Grande Poeta, vivendo a vida inefável dos símbolos misteriosos, dos rios loucos, das luas assexuadas, das mulheres trágicas e dos caminhos de Deus.
Mas, voltando a Schmidt. Uma noite vinha com Otávio de Faria pela rua Sachet. Ia ver meu livro que acabava de sair e que a Schmidt Editora distribuíra. À porta da famosa livraria, onde tanta coisa confusa já teve lugar, encontrava-se o poeta. Achei-o irreal, à primeira vista. Apertou-me a mão com um gesto que eu não soube se era de simpatia ou de zanga, porque ao mesmo tempo que me prendia fortemente, me mantinha a distância. Houve falta de jeito. Schmidt exclamou: "Ah, é esse!" Depois falou em Gilberto Amado, o qual teria dito que eu era "um alto". Ficou tudo meio atrapalhado, meio confuso. Eu queria ir-me embora, Otávio também, que não sabia como casar aqueles dois poetas. De volta, creio que fiz observações pouco gentis sobre o que ficara.
Durante um certo tempo, Schmidt passou a ser uma presença incômoda. Não havia crítica, notinha de jornal onde se mencionasse meu livro, que não falasse nos poetas irmãos, um prosseguindo no caminho que o outro abrira. A coisa para mim tomou um ar de pendenga, de corrida rasa, com Schmidt à frente, e eu em segundo, fazendo força para emparelhar.
Quando todas essas coisas passaram e a minha vaidade trancada começou a dar mofo, algumas saídas juntos, algumas conversas foram dissipando a impressão de ceci tuera celà que a presença de Schmidt me causava. Ia gostando dele, compreendendo-lhe o método lírico dentro do desarranjo formal, amando-lhe a inteligência de vôo tão largo. Hoje em dia vemo-nos menos, mas nos gostamos mais. Às vezes dá-me uma saudade do poeta, e eu tomo a iniciativa de ir visitá-lo no seu décimo andar sobre Copacabana. Mesmo porque, ele não me procura. Schmidt tolera pouco os intelectuais, e embora eu nunca converse "inteligente" com ele, creio que o poeta descansa mais o espírito britando pedra, por assim dizer, na companhia dos seus amigos homens de negócio, onde o troco inocente de idéias deixa às vezes saldo para uma das partes. Eu que, em companhia do poeta, já tive oportunidade de assistir a algumas dessas reuniões, acho que talvez ele é que esteja com a razão. Há um mistério agradável nesses homens de ar vagamente entendiado que vivem do gozo rápido das tiradas, que andam muito de táxi e percorrem numa noite vários ambientes, resolvendo uma mesma questão que nunca entre em jogo.
O encontro de Manuel Bandeira, que coisa excelente foi! Eu ainda tinha várias dificuldades em relação à poesia do poeta, mas intimamente mudara muito. Se no princípio me quisessem levar a ele, talvez tivesse relutado. Depois, não. Manuel me escrevera um cartão agradecendo a remessa de Forma e exegese, que me remexeu por dentro. Lia-o às vezes, a Manuel, invejando-lhe secretamente a sobriedade perfeita do verso, mas sempre em oposição ao modo de sua poesia. No fundo, achava que não se podia transigir assim com o Espírito, com a Fome metafisica, com a Visão. Mas, ai de mim, já amava o poeta. Meu coração de mulher da vida já batia por ele. Andava dando um jeito para encontrá-lo.
Anah e Carlos Chagas Filho deram-me o ensejo. Esses caros amigos, cuja casa da rua Jardim Botânico era para mim uma coisa perfeita de gosto e intimidade, providenciaram o encontro. O próprio Manuel, diziam eles, achava que a idéia de um jantar tinha seus pontos. E uma lagartixa resolveu a questão.
Eu havia chegado e esperava na sala, quando vi uma lagartixa branca. Parti a caçá-la, o que fiz com o maior cuidado para não magoar o bichinho frágil. E Manuel me pegou assim, com a lagartixa na concha da mão e aderiu imediatamente a ela. Dei-lhe um aperto de canhota, porque tinha a lagartixa na direita. O poeta esticou o pescoço, ficou observando o animalzinho com o seu perfil de pássaro, depois riu à-toa, um riso que mal parecia vir daquele siso sério. O riso me venceu. A ternura pelo poeta foi imediata. Um segundo depois estávamos conversando no sofá, eu brilhando discretamente para não chocar o amigo em perspectiva. Falou-se dos Mello Moraes, de poesia, de violão. Eu trouxera o violão, que era assim uma espécie de prato forte meu (nem tão forte, na verdade...) e que hoje em dia considero uma cruz. Cantei umas modas. Manuel parece que gostou.
Vi-o pela segunda vez no Salão de Belas-Artes. Foi quando me apresentou a Mário de Andrade. Fez-me as mesmas festas, perguntou pelo violão, falou vagamente em se marcar qualquer coisa. Mário de Andrade conservou-se "onézimo", segundo a gnomonia ovalleana, que é um modo sui generis de imparticipação.
Uma noite saímos juntos. Grande noite para mim, e Manuel, paternal, me levou ao cinema, me levou à Americana para tomarmos um malted milk, depois me levou ao Beco, onde subi sete andares num elevador vermelho, que pia feito gavião quando chega. Conheci seu quarto, esse quarto que às vezes tem sido para o poeta um lugar de tristezas; e que para mim tem sido tantas vezes um lugar de sossego. E banhei-me do verso exemplar de Estrela da manhã, ainda inédito, que o poeta leu para mim, ou melhor, que me jogou em cima, com aquele seu modo brusco de ler poesia.
Manuel é hoje em dia um ser à parte para mim. Todo o mundo tem seus dias de antipatia do amigo, suas brigas, suas caturrices. Chega-se mesmo a enjoar da pessoa, da presença, do modo de ser, de certos pequenos hábitos irritantes. Fica-se mesmo com uma tendência vaga a partir a cara, sem prejuízo grande para a amizade. Com Manuel, jamais! Nunca a menor bulha, mesmo dentro de um ou dois pontos de vista diferentes. Manuel aceita o amigo e se impõe a ele. É fiel, mas não intervém; presto, sem se fazer sentir. Parece Ronald Colman.
Mas eu tinha falado em Mário de Andrade. Mário foi uma conquista minha. O poeta, a princípio, não quis nada comigo. Fui-lhe mesmo apresentado umas duas ou três vezes, sem resultado. Fazia um ar, meu Deus, vaguíssimo, de ombros um pouco levantados.
Mas em São Paulo, que é sua casa, eu fui um dia à casa dele com Armandinho Sales de Oliveira, Mário de Andrade tinha dirigido um recital colosso, de modinhas do Império, de modo que estava no céu com o pé de fora. À saída, não me lembro mais por que, a uma pergunta de Armandinho eu respondi: "Tomara!" Mário de Andrade me pegou vivamente pelo braço. "Você também vem. Uma pessoa que fala tomara, tomara, meu Deus! - que gostosura! - tem direito a beber minha caninha. Ah, não! você vem!"
E eu fui. E eis como venci Mário de Andrade, pela linguagem. Em casa dele bebemos toda a garrafa de caninha. Houve grandes confraternizações. E hoje em dia, mal acabo de escrever um livro, corro para Mário de Andrade. Ele critica impiedosamente, inefavelmente. Anota as margens. Sinto que gosta de meus poemas, mas tem uma "diferença" qualquer com minha poesia. Eu o acho uma criatura esplêndida, com todas as suas manias. E que bom poeta! Poucos literatos no Brasil terão uma figura tão vasta e universal, apesar do seu fanático regionalismo. Conheço gente que o acha fiteiro. Mas a esses eu direi - lede-o para entendê-lo:

Muito de indústria me fiz careca
Abri salão nos meus pensamentos.

Ou ainda:

Danço para não chorar.

Também em São Paulo conheci Oswald, também de Andrade. Achava-me no Hotel Esplanada, no quarto de Manuel Bandeira, que deveria ir jantar com o poeta de Pau-Brasil. Ao saber quem eu era, prorrompeu em gargalhadas positivamente obscenas: "Então é esse menino, com esse ar esportivo, o autor daqueles versos compridos como um iole-a-8! Mas você não tem medo de fazer tanta força nessa regata desigual, seu poeta?"
Eu me abespinhei um pouco, mas não fiz má cara à piada. Dei uma em troca. E logo a cordialidade se estabeleceu. Saímos os três e jantamos em boa camaradagem. Oswald estava brilhantíssimo.
Procurava-o sempre que ia a São Paulo. Gostava de seu jeito e de sua casa. Boa casa para a gente se sentir à vontade, entre originais até de Picasso, vendo Oswald construir de um lado e arrasar de outro. O poeta tem a paixão da literatura. É um demolidor, mas é, por outro lado, um espírito altamente construtivo. Gosto dos homens assim, mutáveis mas intransigentes enquanto crêem, bem raciados, os homens que gostam da sua casa e da sua mulher, não os femininos, os impotentes ou os fracos. Oswald tem essa grande qualidade macha que lhe dá sumo à vida. Quase todo o mundo o teme. Temo-lhe o destabocamento e a sátira irresponsável. Compreendo que não gostem dele. Mas no fundo é um homem fácil de se gostar, com um grande complexo sentimental de paternidade, um homem de coração gordo e violento.
Homem que vi estranho foi o poeta Carlos Drummond de Andrade. Conheci-o para lhe pedir um favor e desde então nunca mais fiz outra coisa. Mas já tenho ido lá para pedir-lhe o simples favor de vê-lo um pouco. Achei-o intratável a primeira vez, parecia um estilete e não um chefe de gabinete. Saí impressionado, pensando comigo que nunca poderia ser amigo de um sujeito assim.
Não sei se ele gosta de mim ou não, não me interessa. Eu o tenho em especial carinho. Invejo-lhe a poesia descarnada e lúcida, e como que iluminada por um sol fluido de aurora. Tenho em alta conta sua figura humana, seca e vibrátil, laminar. Não tem importância o modo como ele lhe trate, às vezes desconhecendo a sua ilustre pessoa. O que importa é que, uma noite, num bar, depois de uns chopes, a máscara do poeta esgarça-se num riso silencioso, que lhe vem de uma paisagem casta e longínqua na alma, e sua cabeça baixa se levanta, suas mãos mortas se reencarnam, e ele tamborila na mesa uma alegria rápida e extraordinária. E então se sabe que o poeta ama perdidamente:

Amor, a quanto me obrigas.

O poeta louco Jayme Ovalle, ou melhor, "o místico", como o chamou Manuel Bandeira, foi na minha vida um encontro de que não me esqueço. Conheci-o três dias depois de sua chegada da Europa, em casa de Schmidt. Tinha uma curiosidade enorme em vê-lo. Soube que andava fechado, não querendo receber ninguém, sofrendo as agruras da dor-sem-nome, roído de saudade da Inglaterra. Mas combinei uma tramóia com Schmidt e fui, com um ar de quem não quer. Encontrei o poeta no meio da sua garrafa de uísque, rodeado pelo grupo familial atento e respeitoso. Seu monóculo me recebeu mal, enquanto seu olho de águia me considerava com ar pouco amigável. Calei-me e fiquei quietinho, espiando passear o gênio.
Passado um tempo Ovalle sentou-se. Todos se voltaram para ele. Alguma coisa ia suceder. Mas ele limitou-se a falar fanhosamente para Schmidt: "Põe um Bachzinho aí na vitrola pra mim, põe?"
Só então se virou para o meu lado. Ficou me olhando um pouco, eu gelado mas firme, sorrindo um riso covarde. Ao fim de um tempo sorriu também.
- Ele é muito bonzinho - disse, apontando-me com o dedo. - Ele é tão bonzinho que um dia... que um dia ele é capaz de sair correndo assim, compreende, sair correndo assim, e aí...
Mas não cheguei a saber o que ia acontecer comigo no fim da corrida. Schmidt voltava com um livro de poemas do poeta, poemas ingleses, feitos na sua amada Londres. Ovalle relutou um pouco, mas acabou lendo quase tudo. Eu fiquei ouvindo sem compreender muita coisa, mas compreendo muita coisa do homem a que ouvia. Ovalle chorou, ajoelhou-se, às vezes se curvava até o chão para em seguida saltar como um calunga doido, falava música, fazia gestos tão patéticos que parecia querer se agarrar ao xale invisível de Nossa Senhora.
Juro que fiquei fisicamente cansado da emoção. Quando resolvi sair, o poeta quis vir comigo. E fomos juntos por Copacabana afora. Depois entramos num táxi para a cidade. Na cidade pusemo-nos a beber - e bebemos tanto que nem as estrelas do céu ou os peixinhos do mar fariam conta do que bebemos. A madrugada nos encontrou na Lapa, comendo um filé à moda com vinho verde. A expressão do poeta sossegara muito, e ele agora me contava sobre as coisas do mistério, num tom simples e persuasivo. Ouvi de sua boca a explicação integral da famosa Gnomonia. Ouvi-o falar de Bach e Beethoven. Ouvi-o exaltar as mulheres da vida. Mais tarde, às sete horas da manhã, assisti ao seu encontro com Manuel Bandeira, encontro emocionante, depois de quatro anos de ausência, e um pequena rusga. Do quarto de Manuel fui para a Censura Cinematográfica, onde dormi durante a projeção um sono de duas horas e liberei todas as fitas.
Até hoje, quando nos encontramos, sinto entre nós a fidelidade a esse primeiro encontro. Descobrimos coisas, fazemos caso de tudo, nunca há silêncio entre nós.
Meu amigo Pedro Nava, ou melhor, o dr. Pedro Nava, é um grande poeta brasileiro que também é médico. Um olho clínico, como dizem seus colegas. E eu digo amém, porque Pedro Nava é o meu médico. Já me diagnosticou uma apendicite, e guardo bem a lembrança - a última lembrança ao ser anestesiado - de seu olho clínico posto em tristeza diante da possibilidade de um trespasse meu. Pedro Nava, sendo como é meu amigo, contou-me mais tarde o medo que tivera que eu morresse, não tanto porque fosse eu paciente, mas porque era seu amigo. É verdade que se morre muito nesse negócio de operação, por mais que o cirurgião seja hábil, como era no meu caso. Tive um medo póstumo, quando o poeta me fez ver essa possibilidade.
Mas já que se falou em morrer, em se tratando de Morte o poeta Pedro Nava comparece e fica triste. Porque se trata de um ser votado à Morte, tanto em sua profissão, onde luta exemplarmente contra ela, como em sua poesia, onde é todo dela. Pedro Nava é o criador da idéia sinistra do defunto que todos nós carregamos conosco, a quem damos de comer e beber e para quem arranjamos mulher; defunto que se senta, se levanta, anda na rua, vai ao cinema, escova os dentes e, no fim da noite, se deita imóvel para imitar o descanso eterno.
Como se pode deduzir, Pedro Nava é um ser terrível, um perturbador da ordem, um russo. É o poeta russo Pedro, o grande. Só se sente bem ou no seu hospital, onde combate, com uma prudência de conhecedor a fundo, todos os candidatos à Morte; ou perturbando a alma alheia com sua grande tristeza - e por que não dizer dor-de-corno? - sua ternura úmida e animal de mastim fiel, e sua poesia lancinante.
É um grande Pedro! Travei relações com ele em casa de Rodrigo Mello Franco de Andrade - esse Rodrigo cuja amizade é para mim uma coisa extrema na vida - e o poeta batalhou para me manter a distância. Não queria mais saber de amigos, que são criaturas que atrapalham muito, sofrem, adoecem, morrem, é o diabo!
Mas pouco a pouco venci o poeta. Hoje ele é um desses quatro ou cinco que já não distingo mais em meu sentimento. É um homem espantosamente rico e inteligente. Não há balda, como se diz em Minas, que lhe passe. Sua capacidade inventiva, no domínio da psicologia lírica, é assombrosa. Marca não importa quem, com dois ou três traços essenciais. Sua poesia bissexta, como se diz, segundo a expressão de Prudente de Morais Neto - porque vem de raro em raro -, é excelente. Quem não leu "O defunto" não sabe o que é sugestão de morte. É o poema mais "incômodo" que há. Perturba o tempo todo, irremediavelmente.

Quando morto estiver meu corpo
Evitem os inúteis disfarces...

E por fim meu primo, meu amado primo, que também é Pedro e é o anjo dos "Dantas" - Prudente de Morais Neto. É preciso concentrar-se muito para dizer a menor das suas qualidades. Sua poesia - que ele chama bissexta - é o próprio lirismo. É um canto japonês. É o saquê. E fica-se sem saber o que admirar mais nesse homem: se essa alma que aninha tudo com o mesmo amor, o bem e o mal, o puro e o impuro; ou o seu espírito lógico, que separa com precisão matemática o justo do injusto, embora justificando a ambos.
Quem o vê a primeira vez pode bem achá-lo bobo - e muitos bobos têm caído nessa esparrela. Se eu tivesse que "procurar-lhe o bicho", diria talvez que Prudente parece um bom chantecler, com seu topete, seu olho azul, sua cabeça que lhe movimenta todo o corpo ao se voltar, e esse corpão genial, terne, terno, túmulo ideal para as confidências, os segredos, os sentimentos mais íntimos, as paixões mais puras, as contemplações mais extáticas.
Porque esse homem, de aparência burguesa e de inteligência prática, é um contemplativo. Não se irrita, não quer mal a ninguém, perdoa a injustiça que lhe fazem. Mas é justo e preciso como a luz elétrica. Não fica escaninho que lhe passe despercebido quando se volta para o julgamento de alguém ou de alguma coisa. Não tolera a mentira ou o engano. Prefere sofrer os males de uma verdade desnecessária que o remorso de uma mentira generosa. E isso não porque se ache demasiado íntegro diante da vida. Porque o erro o nauseia e desequilibra. Seu caminho é um doce movimento para a frente, um doce movimento de braços abertos.
Eu vos incito a amá-lo muito, vós que o não conheceis ou o admirais apenas. Não importa a posição em que estejais, direita, esquerda, centro avante, ou retaguarda. É preciso amá-lo com o maior carinho, com maior doçura e deixar que ele vos ame também, porque a glória desse mundo é pouca e o amor desse homem é uma grande glória.
Mas estou me tornando patético. Ou não estou? Não sei. Sei de uma coisa: que Prudente de Morais Neto, o criador da Cachorra, sobrinho de Manuel Bandeira e meu primo pelo coração, foi o homem mais exato que já vi até hoje. E a propósito disto, cabe uma consideração.
Que grupo excelente fazem todos esses homens! Olhem que estive viajando, conhecendo gente nova, tive contato com grandes poetas ingleses, ouvi-os falarem, vi outros grupos de homens de espírito; mas nada assim como eles. Essa força lírica, essa poesia magistral que estão criando para o Brasil, esse impacto de ternura e sordidez, essa coragem diante da vida, essa modéstia real, esse socorro mútuo, essa discrição e esse escândalo com que vivem, só os encontrei neles, aqui entre nós, nesses pequenos grupos dentro do grande Grupo. E faz um bem terrível pensar nisso. Que onde quase todos esperam recompensas, esses homens não esperam nada, apenas a fidelidade mútua. Que onde quase todos usam de processos turvos, muitas vezes inconfessáveis, esses homens agem limpamente, sem sequer se dar conta disso. Vivem em meio à ganância geral com armas desiguais, senão desarmados.
São almas caríssimas, perfeitas de sentimento. Quando se queixam o fazem na melhor poesia, mas porque o fazem assim se queixam pouco. Não transigem com a má literatura: sabem esperar o amadurecimento da palavra a fim de que ela não traga engano. E são homens que se iludem, sujeitos às mesmas tentações e às mesmas quedas, com a mesma sensação da própria fraqueza e da própria sordidez.
Mas neles até a sordidez é inefável. Eis o que os diferença. Neles a sordidez se transforma em poesia e a poesia em canto. E não é essa a maior grandeza do poeta? É possível ser-se poeta sem ser sórdido?