quinta-feira, 12 de abril de 2018
António Ramos Rosa, "Desmancha-se o cavalo ? Jamais..."
Desmancha-se o cavalo ? Jamais.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea.
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira.
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
sábado, 23 de novembro de 2013
António Ramos Rosa, "Para um amigo tenho sempre um relógio"
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
António Ramos Rosa, "Não preciso aproximar-me ..."
Não preciso aproximar-me com dois passos vacilantes
tenho ainda tempo de vos enviar um vislumbre
do fogo do meu rio
onde os animais se desalteram
onde as estrelas da noite ainda cintilam
e os frémitos dos pássaros agitam as cinzas e as pedras
Este rio tem o suor do meu sangue
mas também a luz frágil das minhas feridas
que desce os declives verdes
e ascende pelo espaço
entrando na nebulosa do vento
e indefinidamente
como a respiração do mundo
dissemina nos bairros o seu fogo vivo
Esse vislumbre vem de um país ferido
desconhecido
vem do homem que vos escreve
porque não tem qualquer mensagem para vos dar
O meu vislumbre
não é o sinal com um sentido
é um poema
que ninguém pode soletrar
como um abecedário
podem lê-lo claramente
à luz da sua claridade indefinível
As vossas portas hão-de ficar inteiras
mas este vislumbre será para vós inesquecível
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
António Ramos Rosa, "A noite chega com todos os seus rebanhos"
A noite chega com todos os seus rebanhos.
Uma cidade amadurece nas vertentes do crepúsculo.
Há um imã que nos atrai para o interior da montanha.
Os navios deslizam nos estuários do vento.
Alguma coisa ascende de uma região negra.
Alguém escreve sobre os espelhos da sombra.
A passageira da noite vacila como um ser silencioso.
O último pássaro calou-se. As estrelas acenderam-se.
As ondas adormeceram com as cores e as imagens.
As portas subterrâneas tem perfumes silvestres.
Que sedosa e fluída é a água esta noite!
Dir-se-ia que as pedras entendem os meus passos.
Alguém me habita como uma árvore ou um planeta.
Estou perto e estou longe no coração do mundo.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
António Ramos Rosa,"Os simples"
Acabaram-se talvez os excessos e os impulsos
Dissipámo-nos na luz como uma sombra.
Mas as palavras continuam feridas e comovem-se
em presenças verticais no vento, em obscuras chamas.
Que alianças, que pedidos sem fim, que consentimentos
perduram ainda nas palavras feridas!
É já a música nos flancos e nos ombros
e a argila leve do desejo e um frêmito de folhas
e o vento e a ausência que quase diz um nome.
Nós aceitámos o ardor e o luto, o deserto das mesas.
Porque quisemos recomeçar na génese das pedras
ao nível do repouso simples das folhas e da cinza.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
António Ramos Rosa
"Arte poética"
Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.
Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo
                                                                      [de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.
Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.
Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
António Ramos Rosa, "Amo o teu Túmido Candor de Astro"
Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade acesa sempre altiva
Por ti eu sou a leve segurança de um peito
que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata
Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar
Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que vivo é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto
domingo, 6 de setembro de 2009
António Ramos Rosa, "Não Posso Adiar o Amor"
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
sábado, 22 de agosto de 2009
António Ramos Rosa, "Há uma certa cegueira ..."
Há uma certa cegueira vidente no poema e na palavra silenciosa
que o precede e o move. Sem essa parte obscura a palavra
imobilizar-se-ia na evidência da sua visão. Por isso, escrever é
avançar, de ruptura em ruptura, através de um domínio obscuro
onde, a cada passo, se nos depara algo imprevisível. O poema
não reproduz nem designa porque o seu movimento se antecipa à
cristalização dos conceitos e das enunciações póstumas. O seu
objectivo não é o real, mas a energia nascente que incorpora na
sua dinâmica substância. O que se retira ou se retrai é idêntico ao
que se manifesta e se ausenta na sua própria manifestação. Nunca
a palavra é uma doação integral da presença mas o seu horizonte
mantém-se na abertura viva a si própria e ao mundo que a rodeia
no interior do seu círculo inaugural.
Copiado do site http://ruialme.blogspot.com,
Poesia Distribuída na Rua.
sábado, 1 de agosto de 2009
António Ramos Rosa

"Tu sabes ..."
Tu sabes que as palavras não estão em nenhum lugar
embora possam vir de uma região subterrânea
ou da parte mais alta da cabeça como ondas
que às vezes são de areia ou de cal mas outras de
                                                            [ um sangue negro ou verde
Quer escrevas quer não escrevas
estás sempre à beira de
uma zona inexplorável
mas que uma palavra a única e que tu não
                                                            [ esperavas e esperavas
faz estremecer como a possibilidade iminente
de uma actualidade de palavra viva
O teu corpo estremece antes e depois
porque o inviolável transgride os limites
da precária segurança desse frágil suporte
que poderia estalar e desagregar-te
Mas perante a palavra que vai à tua frente
tu sentes o glorioso frémito
da queda na brancura ou num deserto fulminante
