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domingo, 17 de maio de 2015

Yêda Schmaltz, "Minha alma é triste"


Minha alma é triste
como o cerrado goiano.

Minha alma existe
sem ter achado o que amo.

Minha alma insiste
ao menos na beleza:

poemas feitos de hibiscos
- brincos rubros de princesa.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Yêda Schmaltz, "A poetisa"


Canto
o prazer e a esperança,
a loucura e a liberdade.

Cabelos soltos
véus diáfanos
minha flauta
e minha jarra

de vinho.
Que Deus inventou a uva
e Baco inventou o vinho
com seus efeitos.

(Cabelos punk
eus de afanos
minha falta
e minha farra.)

Ao coração humano
medroso, dou alegria
e coragem.

Cabelos soltos
véus diáfanos
minha flauta
e minha garra.


domingo, 19 de abril de 2015

Yêda Schmaltz, "Amor de poeta"


Quando começo
eu sou terrível: tema.
Um poeta é aquele
que faz um poema
de nenhum assunto,
o que se alimenta de nada,
o que morre de medo
mas fica gratificado
com tudo.

Contudo,
não permita o início: corte.
Caia num precipício.
Melhor a morte à rima,
ao forte amor danado
de um poeta,
amor melífluo e obsceno.

E todo o amor do mundo
fica muito pequeno
se houver comparação.

(Que estou fazendo no mundo
com este nome alemão,
este ar desconfiado
e essa cara de quem
vê cara, não vê coração?)
 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Yêda Schmaltz, "Planalto Central"


Se eu abrir esta janela,
não mais verei o mar salgado e as montanhas
e não verei as praias com suas conchas,
os veleiros, as brumas, tana espuma
e nem o encanto alegre das amendoeiras.

Se eu abrir esta janela,
verei mongubas e paineiras;
nenhuma pedra ou montanha: árvores baixas,
retorcidas, parecendo um sofrimento,
verei águas azuis e doces, sem balanços
e um sol, um sol de tudo, um sol de rei.

Se eu abrir esta janela agora,
enxugando com as costas da mão o suor da testa,
de certa forma, apertando os olhos, me verei:
é assim o mundo que eu entendo e gosto -
meu mar salgado é no rosto.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Yêda Schmaltz
















"Anima"

Os homens não me entenderam
me quiseram freira ou prostituta
me esteriotiparam
nunca me aceitaram
no que sou de santa e puta.

Só fizeram mesmo foi trair
os homens que não entenderam o amor
que abre o coração
junto com as pernas.

Escrevo com o meu corpo
sobre este veneno de cobra
que os homens me impuseram.
Pois os amei, os homens
que me sujaram
e me aborreceram
com suas gravatas,
e suas bravatas.
Igual a meu pai, que me batia
com o cinturão de soldado,
e me fez civil
pra sempre.

sábado, 23 de outubro de 2010

Yêda Schmaltz















O Desvio

A mim pouco me importa
aberta ou fechada a porta,
vou entrar.
E pouco me importa estar
sendo amada ou não amada:
vou amar.
Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!
A mim pouco me importa
se a tua amada é doente,
se a tua esperança é morta.
E me importa muito menos
se aceitas solenemente
nossa vida parca e torta.
Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.
A mim pouco me importa
se a lira quebrou a corda:
vou cantar.
E pouco me importa estar
no picadeiro do circo:
vou rodar.
Que a mim me importa tanto
eu mesma e o sentimento,
quanto!
A mim pouco me importa
se estamos todos presos
por uma invisível corda.
E me importa muito menos
sermos todos indefesos
ante o destino que corta.
Porque a mim me importaria
deixasse de ser eu mesma
e a poesia.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Yêda Schmaltz, "Cavalo de Pau"

Quando amo, sou assim:
dou de tudo para o amado
— a minha agulha de ouro,
meu alfinete de sonho
e a minha estrela de prata.

Quando amo, crio mitos,
dou para o amado meus olhos,
meus vestidos mais bonitos,
minhas blusas de babados,
meus livros mais esquisitos,
meus poemas desmanchados.

Vou me despindo de tudo:
meus cromos, meu travesseiro
e meu móbile de chaves.
Tudo de mim voa longe
e tudo se muda em ave.

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando:
um pandeiro de cigana
com mil fitas coloridas;
de cabelo esvoaçando,
a Vênus que nasceu loura.
(E lá vou eu navegando.)

Nos braços do meu amado,
os mitos se acumulando,
enchendo-se os braços curtos
e o amado vai se inflando.

— O que de mais me lamento
e o que de mais me espanto:
o amado vai se inflando
não dos mitos, mas de vento
até que o elo arrebenta
e o pobre do amado estoura.
(Nenhum amado me agüenta.)