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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Carlos Newton Júnior, "Pantera"


Jamais a verdadeira vi
- o hálito quente e o frio olhar -
para além das rijas barras
que mundo nenhum retém:

encontrei-a nas palavras
precisas, que são ferro e pedra,
sangue vivo, força oculta,
veludo quase matéria.

E eram tantas as panteras
nas diversas traduções
do mesmíssimo poema.

Em todas, o vulto negro
num silêncio ditirambo
com seus coturnos de seda.


quarta-feira, 25 de março de 2015

Carlos Newton Júnior, "A leoa (Museu Britânico)"


A leoa, ferida, ruge e avança
enquanto a morte a ronda com três flechas
(mas não será a morte, posto que ela
a ignora e a morte não a alcança).

O seu olhar é fero e doido instante
que não esmoreceu e ainda aferra;
a pupila dilata-se no transe
do êxtase profundo que a encerra.

Quem fez brotar da pedra essa beleza?
Onde se oculta a sua força estranha?
Se atrás eu vejo as patas esmagadas,
as da frente sustentam-lhe as entranhas.

A espinha dorsal dessa leoa:
talvez ali esteja a chama ardente
da vida que se espalha e que escoa
pelos poros da pedra, pela boca,
pelo rugir da fera e os seus dentes.



Creio que este relevo Assírio, exposto no Museu Britânico tenha inspirado o autor.