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domingo, 13 de outubro de 2013

Mário Cesariny, "Alcatrão"


mais primaveras que treze não tem
mas eu far-lhe-ia, por bem,
um bom cumprimento rural
e, pois que é do campo, todo em pastoral:

olá puxavante* de cabelos louros
que com tua gola azul-poeta
matas o estio na bicicleta
que tem mais raiar que o rei d'ouros!

*Puxavante: Comida apimentada que aguça a vontade de beber vinho.

sábado, 28 de setembro de 2013

Mário Cesariny, "a um rato morto encontrado num parque"


Este findou aqui sua vasta carreira

de rato vivo e escuro ante as constelações

a sua pequena medida não humilha

senão aqueles que tudo querem imenso

e só sabem pensar em termos de homem ou árvore

pois decerto este rato destinou como soube (e até como não soube)

o milagre das patas – tão junto ao focinho –

que afinal estavam justas, servindo muito bem

para agatanhar, fugir, segurar o alimento, voltar atrás de repente,

                                                                         [quando necessário

Está pois tudo certo, ó “Deus dos cemitérios pequenos”?

Mas quem sabe quem sabe quando há engano

nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer

que não era para príncipe ou julgador de povos

o ímpeto primeiro desta criação

irrisória para o mundo – com mundo nela?

Tantas preocupações às donas de casa – e aos médicos – ele dava!

Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?

Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar

e passou nela a roda com que se amam

olhos nos olhos – vítima e carrasco


Não tinha amigos? Enganava os pais?


Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido

e agora parado, aquoso, cheira mal.


Sem abuso

que final há-de dar-se a este poema?

Romântico? Clássico? Regionalista?


Como acabar com um corpo corajoso e humílimo

morto em pleno exercício da sua lira?


sexta-feira, 19 de julho de 2013

Mário Cesariny, "Autografia"

 
 
Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo      uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
            à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
            existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
eu o pico do Everest 
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente - tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris - já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião - não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais - também, já por cá
            passaram.
E sou, no sentido mais enérgico da palavra
na carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
            passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica      irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-los semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
            em franca ascensão para ti O Magnífico
na cama      no espaço duma pedra      em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem
            lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre
            lagos de incêndio e o teu retrato grande!

 

sábado, 13 de julho de 2013

Mário Cesariny, "O poeta cai pela segunda vez"


O poeta chorava
o poeta buscava-se todo
o poeta andava de pensão em pensão
comia mal tinha diarreias extenuantes
mas buscava uma estrela, talvez a salvação.
O poeta era sinceríssimo, honesto, total.
Raras vezes tomava o eléctrico
em podendo
voltava
não podendo
ver-se-ia
tudo mais ou menos
a cair de vergonha
mais ou menos
como os ladrões.

E agora o poeta começou a rir
rir de vós ó manutensores
da afanosa ordem capitalista
já riu de si-mesmo, de se ter suicidado
de ter tido diarreia de não pedir dinheiro
o poeta viu chegar a orquestra dos silêncios
primeiro quis só ouvir depois teve que olhar
depois comprou jornais foi para casa leu tudo
quando chegou à página dos anúncios
o poeta teve um vómito que lhe estragou
as únicas que ainda tinha
e pôs-se a rir do logro é um tanto sinistro
mas é inevitável é um bem é uma dádiva.

Tirai-lhe agora os versos que ele próprio despreza
negai-lhe o amor que ele mesmo abandona
caçai-o entre a multidão
crucificai-o de novo mas com mais requinte.
Subsistirá. É maior do que isso.
Prendei-o. Viverá de tal forma
que as próprias grades farão causa com ele.
E matá-lo não é solução
o poeta
O POETA
O POETA
destrói-vos.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Mário Cesariny















"Faz-me o favor..."

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

sábado, 16 de março de 2013

Mário Cesariny, "Poema"


Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam do esplendor
com que se ergue o estio
e a lua derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
em casas como aquele
onde Rimbaud comeu
e dormiu e deitou
a vida desesperada
estreita casa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres
quando termina o dia
e o sol conseguiu um pouco 
abraçar a cidade
à luz rasante e forte
que dura dois minutos
nas árvores surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não 
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cinzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever 
de cidadãos britânicos
que nunca viram
os céus mediterrânicos.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Mário Cesariny











Ama como a estrada começa.



terça-feira, 8 de novembro de 2011

Mário Cesariny recitando parte do poema "Quase", de Mário de Sá-Carneiro.



Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
..................................
..................................

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Mário Cesariny, "Pastelaria"

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos
frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Mário Cesariny, "Sonhei Tanto a sua Figura".

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura.