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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

José Paulo Paes, "Centauro"


A moça de bicicleta
parece estar correndo
sobre um chão de nuvens.

A mecânica ardilosa
dos pedais multiplica
suas pernas de bronze.

O guidão lhe reúne
num só gesto redondo
quatro braços.

O selim trava com ela
um íntimo diálogo
de côncavos e convexos.

Em revide aos dois seios
em riste, o vento desfaz
os cabelos da moça

numa esteira de barco
– um barco chamado
Desejo onde, passageiros

de impossível viagem,
vão todos os olhos
das ruas por que passa.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

José Paulo Paes, "Retrato"


Eu mal o conheci quando era vivo.
Mas o que sabe um homem de outro homem?
Houve sempre entre nós certa distância,
um pouco maior que a desta mesa onde escrevo
até esse retrato na parede
de onde ele me olha o tempo todo.
Para quê?
Não são muitas as lembranças que dele guardo:
a aspereza da barba no seu rosto quando eu o
beijava ao chegar para as férias.
O cheiro de tabaco em suas roupas;
O perfil mais duro do queixo
quando estava preocupado;
o riso reprimido até saltar-se na risada.
Falava pouco comigo.
Estava sempre noutra parte:
ou trabalhando ou lendo ou conversando
com alguém ou então saindo de viagem.
Só quando adoeceu e o fui buscar
em casa alheia e o trouxe para minha casa
estivemos juntos por mais tempo.
Mesmo então dele eu só conheci
a luta pertinaz contra a dor,
o desconforto, a inutilidade forçada,
os negaceios da morte já bem próxima.
Até o dia em que tive de ajudar
a descer-lhe o caixão à sepultura.
Aí então eu o soube mais que ausência.
Senti com minhas próprias mãos o peso
do seu corpo, que era o peso imenso do mundo.
Então o conheci. E conheci-me.
Ergo os olhos para ele na parede.
Sei agora, pai, o que é estar vivo.

domingo, 9 de julho de 2017

José Paulo Paes, "Il poverello"


Desgrenhado e meigo, andava na floresta.
Os pássaros dormiam em seus cabelos.
As feras o seguiam mansamente.
Os peixes bebiam-lhe as palavras.

Dentro dele todo o caos se resolvera
Numa ingênua certeza: - “Preguei a paz,
Mostrei o erro, domei a força, curei o mal.
Antes de mim, o crime. Depois de mim, o amor.”

Mas a floresta esqueceu, no outro dia,
O bíblico sermão e, novamente,
O lobo comeu a ovelha, a águia comeu a pomba,
Como se nunca houvera santos nem sermões.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

José Paulo Paes











"A casa"

Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com
                                                         (corações de purpurina.
Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas
                                                                                 (de circo.
Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim
                                                                              (dos tempos.

No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.
Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente
                                                                      (o seu próprio caixão.
Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família.
Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo.

No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai
                                                                                  (rachando lenha.

E no telhado um menino medroso que espia todos eles;
só que está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos.
Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na
                                                                                           (depressa.
Antes que ele acorde e se descubra também morto.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

José Paulo Paes, "Taquaritinga"


cidade:
nas ruas em pé
eternas namoradas
me espreitam

eu é que não posso vê-las

cidade:
no jardim a fonte
insiste em jorrar
suas águas luminosas

só que me falta a sede

cidade:
agora nem as pedras
me conhecem



José Paulo Paes nasceu e viveu na juventude em Taquaritinga (São Paulo).


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

José Paulo Paes














"A Bengala"

Contigo me faço
pastar do rebanho
de meus próprios passos.


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

José Paulo Paes, "British Museum"


voltem por favor dentro de alguns anos

a essa altura deus todopoderoso já terá sido certamente
    incorporado à nossa coleção de antiguidades orientais

terça-feira, 23 de junho de 2015

José Paulo Paes, "À garrafa"


Contigo adquiri a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.

Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.

Até que, farta da constante
prisão da forma, saltes
da mão para o chão
e te estilhaces suicida,

numa explosão
de diamantes.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

José Paulo Paes, "Canção de exílio"


Um dia segui viagem
sem olhar sobre o meu ombro.

Não vi terras de passagem
Não vi glórias nem escombros.

Guardei no fundo da mata
um raminho de alecrim.

Apaguei a luz da sala
que ainda brilhava em mim.

Fechei a porta da rua
a chave joguei no mar.

Andei tanto nesta rua
que já não sei mais voltar.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

José Paulo Paes, "Elogio da memória"


O funil da ampulheta
apressa, retardando-a,
a queda
da areia.

Nisso imita o jogo
manhoso
de certos momentos
que se vão embora
quando mais queríamos
que ficassem.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

José Paulo Paes, "O grito"


Um tranquilo riacho suburbano,
Uma choupana em baixo de um coqueiro,
Uma junta de bois e um  carreteiro:
Eis o pano de fundo e, contra o pano,

Figurantes - cavalos, cavaleiros,
Ressaltando o motivo soberano,
A quem foi reservado o maio plano
Onde avulta, solene e sobranceiro.

Complete-se a pintura mentalmente
Com o grito famoso, postergando
Qualquer simbologia irreverente.

Nem se indague do artista, casto obreiro
Fiel ao mecenato e ao seu comando,
Quem o povo, se os bois, se o carreteiro.


O poeta refere-se ao quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

José Paulo Paes, "Acima de qualquer suspeita"


a poesia está morta

mas juro que não fui eu

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la
imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres
carlos  drummond de andrade   manuel bandeira   murilo
mendes vladimir maiakóvski  joão cabral de melo neto
paul éluard  oswald de andrade   guillaume apollinaire
sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar  um  certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
de ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou  de nome a estrada  de ferro
araraquarense foi  extinta  e  josé paulo paes  parece
nunca ter existido

nem eu
 

sábado, 3 de janeiro de 2015

José Paulo Paes, "Florença: antidiluviana"


se um dilúvio levasse tudo menos esta
galleria degli uffizi
seria muito fácil reconstruir o mundo:
não como era
mas como deveria ter sido

 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Nikos Kazantzákis, "Fragmento da Odisséia"


"Considero ser o principal dever do homem, nesta terra,
lutar sem tréguas contra o fado e apagar o que estava escrito;
eis como, mortal, poderás ultrapassar teu próprio deus".


Kazantzákis reescreveu a Odisseia em  1938, com 33.333 versos.

Tradução de José Paulo Paes.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Níkos Eggonópoulos, "Poesia 1948"


este tempo
de discórdia civil
não é tempo
para poesia
e coisas assim:
escrever
algo
é como se
fosse escrito
do outro lado
dos necrológios

é por isso que
os meus poemas
são tão amargos
(e quando - de resto - não o foram?)
por isso
é que são
- sobretudo -
tão
poucos


Tradução de José Paulo Paes


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Níkos Kavvadías, "Mal du départ"


Eu serei sempre o amante hipotético e afoito
dos mares azulados e das longas travessias,
e morrerei numa noite igual a todas as noites,
sem ter rompido a vaga linha do horizonte um dia.

Enquanto para Madras, Cingapura, Argélia, Sfax,
os orgulhosos navios regularmente partirão,
num escritório, curvado sobre cartas de marear,
ficarei domando grossos livros de escrituração.

Dentro em pouco deixarei de falar nas longas viagens;
os amigos irão pensar que eu as tirei da mente,
e aliviada minha mãe dirá a quem lhe perguntar:
"Era um capricho de rapaz, que passou felizmente."

Mas certa noite diante de mim vai erguer-se o meu eu
para pedir-me contas, como um juiz tenebroso,
e esta minha mão inábil apontará tremendo
o revólver para abater sem medo o criminoso.

E eu que tanto desejei ser um dia sepultado
em algum mas das Índias, de profundezas enormes,
terei essa morte comum, deveras lamentável,
e um enterro igualzinho ao de todos os outros homens.

Tradução de José Paulo Paes

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

José Paulo Paes












"Poética"

Não sei palavras dúbias. Meu sermão
chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.

Com duas palavras fraternas, cumplicio
A ilha prometida à proa do navio.

A posse é-me aventura sem sentido.
Só compreendo o pão dividido.

Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

José Paulo Paes, "Auto epitáfio nº 2"


para quem sempre pediu tão pouco
o nada é positivamente um exagero.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Kóstas Ouránis












"A minha vida"

A minha vida toda, nostalgia só e anseios!
Ora eu palácios de quimera edificar queria,
ora então, como rosas, desfolhar meus pensamentos
sobre a tumba do que passa - e de viver me esquecia.
Os anos me correram como areia pelas mãos,
pelos meus dedos sonhadores, e a alma dolorida,
na hora de outono em que os sinos puseram-se a tocar,
viu cair inexorável a Noite em minha vida.
Sou como uma casa de marujos à beira-mar,
cujos homens sumiram juntamente com os barcos;
quando sopram os ventos durante as noites de medo,
suas mães e irmãs, todas elas vestidas de negro,
inclinam as cabeças silentes, apavoradas,

como se ouvissem bater na porta há tanto fechada.

Tradução de José Paulo Paes

domingo, 2 de junho de 2013

José Paulo Paes













"O aluno"

São meus todos os versos já cantados:
A flor, a rua, as músicas da infância,
O líquido momento e os azulados
Horizontes perdidos na distância.

Intacto me revejo nos mil lados
De um só poema. Nas lâminas da estância,
Circulam as memórias e a substância
De palavras, de gestos isolados.

São meus também os líricos sapatos
De Rimbaud, e no fundo dos meus atos
Canta a doçura triste de Bandeira.

Drummond me empresta sempre o seu bigode.
Com Neruda, meu pobre verso explode
E as borboletas dançam na algibeira.