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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Poema de Judith Teixeira e Desenho de Di Cavalcanti





















"Mais beijos"

Devagar...
outro beijo... ou ainda...
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a cálida tempestade
que me desvaira o pensamento!

Mais beijos!...
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!

Sim, amor..
deixa que se alongue mais
este momento breve!...
— que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
e nos leve! 

sábado, 4 de outubro de 2014

Judith Teixeira, "Volúpia", dito por Luis Gaspar.



Era já tarde e tu continuavas
entre os meus braços trémulos, cansados...
E eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!

Passaram horas!… Nossas bocas flavas,
Muito unidas, em haustos repousados,
Queimavam os meus sonhos macerados,
Como rescaldos de candentes lavas.

Veio a manhã e o sol, feroz, risonho,
entrou na minha alcova adormecida,
quebrando o lírio roxo do meu sonho...

Mas deslumbrou-se... e em rúbidos* adejos**
Ajoelhou-se... e numa luz vencida,
Sorveu…sorveu o mel dos nossos beijos!


*Rubido - adj. Que tem cor vermelha, rubra.

**Adejos - subst. Voos, voleios,

sábado, 21 de abril de 2012

Judith Teixeira, "Ruínas"

Tombei do divino altar
do Enlevo, em que eu vivia...
Crenças e fé que eu sentia,
Eu vi tudo soçobrar!

Ficou-me o peito a sangrar,
Da chaga onde me roía,
A Hidra, que eu não podia,
Desprender, para esmagar!…

Fechei os olhos febris
macerados, espavoridos... —
Nem a própria Morte os quis!

Já não sinto as crueldades,
dos meus tormentos volvidos...
—Mas tenho tantas saudades!

quinta-feira, 29 de março de 2012

Judith Teixeira, "Podes ter os amores que quiseres"


Podes dizer que me não amas,
sim, podes dizê-lo,
e o mundo acreditar,

porque só eu saberei
que mentes!

Eu estou na tua alma
como a flama
que devora sob a cinza
as brasas dormentes...

Não creias no remorso
- o remorso não existe!

O que tu sentes
e o que em ti subsiste,
são o rubor da minha ternura
e a chama do meu amor
que em ti
nunca foram ausentes!...

Não julgues, não, que me esqueceste,
porque mentes a ti mesmo
se o disseres…
Podes ter os amores que quiseres,
que o teu amor por mim,
como uma dor latente e compungida

há-de acompanhar sempre
a tua e a minha vida!


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Poema de Judith Teixeira e desenho de Di Cavalcanti
























"Flores de Cactus"

Flores de cactus resplandecentes,
Espelhantes, encarnadas!
Rubras gargalhadas
De cortesãs…
Embriagam-se de sol,
Pelas doiradas manhãs,
Viçosas e ardentes!

Bela flor imprudente!
Brilha melhor o sol rutilante
Nas suas pétalas vermelhas…
É sugestivo
O ar insolente
E petulante,
Como se deixam morder
Pelas doiradas abelhas!

Nascem para ser beijadas
E possuídas
Pelo sol abrasador…
Lascivas,
Predestinadas
Para os mistérios do amor!

Eu gosto desta flor pagã
E sensual,
Que num místico ritual
Se entrega toda aberta
Aos beijos fulvos do sol!

Oh! Flor do cactus enrubescida!
No teu vermelho, há sangue, há vida…
- E eu tenho uma enorme sede de viver!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Poema de Judith Teixeira e desenho de Carlos Leão.























"A minha amante"

Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!…
Eles sabem lá o que há de sublime
nos meus sonhos de prazer…
De madrugada, logo ao despertar,
há quem me tenha ouvido gritar
pelo teu nome…

Dizem - e eu não protesto -
que seja qual for
o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
para te esquecer…
E que de noite pelos corredores,
quando vou passando para te ir buscar,
levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo -
Não entendem deste luar de beijos…
- Há quem lhe chame a tara perversa,
dum ser destrambelhado e sensual !
Chamam-te o génio do mal -
O meu castigo…
E eu em sombras alheio-me dispersa…

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo…
Que és tu que doiras ainda
o meu castelo em ruína…
Que fazes da hora má, a hora linda
dos meus sonhos voluptuosos -
Não faltes aos meus apelos dolorosos
- Adormenta esta dor que me domina!