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quarta-feira, 30 de maio de 2018

Teixeira de Pascoaes, "A dor e o medo"


Quando sozinho, noite morta, rezo,
E a minha voz dos medos me defende,
E a tudo, à terra e ao céu, me sinto preso.
Vejo que a dor é a força que nos prende.

Enlouquecido de alma, canto e rezo.
Aflige-me o silêncio. Quem no entende?
A sombra me sufoca. É negro peso;
E, em fumo, do meu corpo se desprende.

Ó noite triste, noite que apavora,
Golpeada de estrelas, a sorrir...
Desnorteado, o vento clama e chora !

E quem sou eu? Quem sou? Na noite escura.
— O medo à morte certa que há-de vir
E a dor de ser humana criatura.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Teixeira de Pascoaes











"Ao crepúsculo"

Ó tristes lábios meus, rezai, rezai!
É a hora, sim, do Enigma. Eis o momento
Da extrema-unção da luz... E tudo vai
Com ela. E só nos fica o pensamento!

Pela flor que murchou no esquecimento;
Pela asa que se eleva e logo cai;
Pelo sol, pelas nuvens, pelo vento,
Ó tristes lábios meus, rezai, rezai!

Rezai por tudo quanto a morte leva,
Nas horas doloridas, em que a treva
Mostra seu negro vulto que arrepia...

E sinto, em mim, um vago horror profundo,
Uma tristeza já de fim do mundo,
Como se nunca mais houvesse dia...

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Teixeira de Pascoaes, "Sozinho"


Tarde. Vagueio só por um outeiro.
Sua Imagem quimérica fluctua,
Diante de mim, no espaço: é nevoeiro
Vestindo de emoção a terra nua...

E como na minh'alma se insinua
Aquele etéreo Vulto... amor primeiro!
Ouço-o falar, lá fora, à luz da lua.
Vejo-o brincar na sombra do terreiro.

Apenas veem meus olhos, n'este mundo,
O seu perfil angélico, o seu fundo,
Misterioso, verde negro olhar...

Vejo uma estrela? É ele. Vejo um lírio?
É ele. Tudo é ele. E o meu delírio
É ele: é o seu espírito a cantar!

domingo, 19 de março de 2017

Teixeira de Pascoaes, "De noite"


Quando me deito ao pé da minha dor,
Minha Noiva-fantasma; e em derredor
Do meu leito, a penumbra se condensa,
E já não vejo mais que a noite imensa,
Ante os meus olhos íntimos, acesos,
Extáticos, surpresos,
Aparece-me o Reino Espiritual...
E ali, despido o habito carnal,
Tu brincas e passeias; não comigo,
Mas com a minha dor... o amor antigo.

A minha dor está contigo ali,
Como, outrora, eu estava ao pé de ti...
Se fosse a minha dor, com que alegria,
De novo, a tua face beijaria!

Mas eu não sou a dor, a dor etérea...
Sou a Carne que sofre; esta miséria
Que no silencio clama!

A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama...

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Teixeira de Pascoaes, "Junto dele"


Que terrível tragédia ver a gente,
No seu exíguo e doloroso leito,
Uma criança morta, um Inocente,
Um pequenino Amor inda perfeito!

Oh que mimosa palidez tremente
A do gélido rosto contrafeito!
As mãozinhas de cera, docemente,
Ó dor, ó dor, cruzadas sobre o peito!

Ó Deus cruel que matas as Crianças!
Auroras para o nosso coração,
Alegrias, alívios, esperanças!

Não sei quem és; eu não te entendo, Deus!
E penso, com terror, na escuridão
Desse teu Reino trágico dos Céus...

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Teixeira de Pascoaes











"Tristeza"

O sol do outono, as folhas a cair,
A minha voz baixinho soluçando,
Os meus olhos, em lagrimas, beijando
A terra, e o meu espirito a sorrir...

Eis como a minha vida vai passando
Em frente ao seu Fantasma... E fico a ouvir
Silêncios da minh'alma e o ressurgir
De mortos que me foram sepultando...

E fico mudo, extático, parado
E quase sem sentidos, mergulhando
Na minha viva e funda intimidade...

Só a longínqua estrela em mim actua...
Sou rocha harmoniosa á luz da lua,
Petrificada esfinge de saudade...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Teixeira de Pascoaes, "Poeta"


Quando a primeira lágrima aflorou
Nos meus olhos, divina claridade
A minha pátria aldeia alumiou
Duma luz triste, que era já saudade.

Humildes, pobres cousas, como eu sou
Dor acesa na vossa escuridade...
Sou, em futuro, o tempo que passou;
Em num, o antigo tempo é nova idade.

Sou fraga da montanha, névoa astral,
Quimérica figura matinal,
Imagem de alma em terra modelada.

Sou o homem de si mesmo fugitivo;
Fantasma a delirar, mistério vivo,
A loucura de Deus, o sonho e o nada.

domingo, 20 de setembro de 2015

Teixeira de Pascoaes, "As minhas sombras"


                        Ao José d 'Albuquerque Alvares Pikho

Ó sombras que durante a noite me falais,
Quando penso e não sei porque a este mundo vim!
ó vós, que a minha Noite imensa povoais,
Qual o corpo que vos projecta junto a mira?...

Donde dimana a luz estranha que vos cria?
Quem sois vós, quem sois vós, ó sombras bem amadas.
Donde um grande esplendor que ofusca se irradia
Como dura horizonte a luz das madrugadas? 

Ó Sombras que morreis na claridade ansiosa
Do meu nevoento olhar distante, que desmaia.
Como vem falecer uma onda harmoniosa
No meu ouvido, que é uma longínqua praia... 

Quem sois vós, quem sois vós, vagas sombras perdidas
Que me livrais do Sol, do meu grande inimigo?
Quem sois vós, quem sois vós, fantasmas doutras vidas
Que me falais se eu ando, à noite, só comigo? 

Ó Sombras com quem vou, à noite, conversar,
Vós vindes até a mim para eu vos conhecer!
Sereis da minha dor um pálido luar.
Um reflexo do que arde em mim, sem ela saber?... 

Soa como os doidos, como os vermes que só amam
A noite, que o meu vago Ideal tanto parece!
Quantas vozes, meu Deus, que de dia não chamam,
E quanto dia só à noite é que amanhece!
A noite 6 para mim uma estranha alvorada,
Nuvem, filha da Luz, que é um grande mar sem fundo...
E, se deixa esta Terra em trevas sepultada.
Que dia, que esplendor não é para outro mundo!  

Noite, tu és a luz do mundo que eu habito...
Indefinido mundo, assim como um clarão.
Que, num amor, percorre esse azul infinito
Que existe para além da nossa Aspiração.

Onde tudo termina é que ele principia;
O espaço é um seu limite, a luz, o som, a cor...
É vago como a alma etérea da harmonia
Que se exala do seio imaterial da Dor... 

Sombras, vós sois o Sol do mundo misterioso,
Onde minh'alma vive a sua eternidade;
E embora seja, para os outros, nebuloso,
É esse Sol a verdadeira Claridade!

Sois o infinito Amor, o puro olhar de Deus,
ó Sombras que durante a noite me apareceis!
Vós sois a Luz que existe além da luz dos céus
E donde todas vós, estrelas, descendeis...

 

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Teixeira de Pascoaes, "A dor e o medo"


Quando sozinho, noite morta, rezo,
E a minha voz dos medos me defende,
E a tudo, à terra e ao céu, me sinto preso.
Vejo que a dor é a força que nos prende.

Enlouquecido de alma, canto e rezo.
Aflige-me o silêncio. Quem no entende?
A sombra me sufoca. É negro peso;
E, em fumo, do meu corpo se desprende. 


Ó noite triste, noite que apavora,
Golpeada de estrelas, a sorrir...
Desnorteado, o vento clama e chora !

E quem sou eu? Quem sou? Na noite escura.
— O medo à morte certa que há-de vir
E a dor de ser humana criatura.