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segunda-feira, 16 de julho de 2012

Kaváfis, "23ª Reflexão sobre poesia e ética"


A quadra do ano de que mais gosto é o verão. Os verdadeiros verões, do Egito e da Grécia - com seu sol causticante, seus triunfais pinos do dia, suas extenuantes noites de agosto. Não posso no entanto dizer que trabalhe mais - artisticamente - durante o verão. As imagens e sensações estivais me infundem numerosas impressões; todavia, não sei de as ter representado ou traduzido de pronto numa composição literária. Digo "de pronto" porque as impressões artísticas demoram a ser usadas, a gerar outros pensamentos, a transformar-se sob a ação de novas influências, e quando enfim se cristalizam em palavras escritas, é difícil lembrar a ocasião primeira onde nasceram e de onde se originam as palavras escritas.


                                                                                   (verão de 1909)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Konstantinos Kaváfis, do livro "Reflexão sobre poesia e ética"


Da impressão, ou pouco depois dela, surge o poema.
A impressão - sensual ou intelectual - era viva e sincera: o poema (não forçosamente porque ela o fosse, mas por uma feliz coincidência) também é belo, vivo e sincero. O tempo passa. A impressão - seja pelo concurso de outras circunstâncias antes desconhecidas, seja pelo desenvolvimento das coisas ou pessoas que a suscitaram - parece agora vã e risível. Assim também o poema. Não sei se isto é justo. Por que deslocar o poema na atmosfera de 1908? (Ainda bem que os poemas são muitas vezes crípticos*; podem assim acomodar-se a outros sentimentos ou circunstâncias conexas).

* - adj (cripta+ico) 1 Biol. Que vive em cavernas. Pertencente ou relativo a cripta (acepção 4). 3 Secreto, oculto, escondido. 4 Enigmático, misterioso, obscuro.